O convênio lançado ainda em dezembro de 2009 no município, que previa a execução do programa Rede Comunidade e que tinha como objetivo garantir a regularização da rede elétrica em bairros carentes e promover eficiência energética não avançou junto ao mapa de vulnerabilidade social em Bauru. Uma das frentes do programa estabelecido entre a Prefeitura e a CPFL é a substituição de geladeiras antigas por novas, com baixo consumo. O anúncio propagou a entrega de 2 mil geladeiras. No entanto, apenas 502 foram, de fato, entregues.
Também era prevista a entrega de 2 mil chuveiros eficientes, além de 2 mil reformas elétricas internas. Esses números também não foram atingidos. Segundo a CPFL, apenas 505 chuveiros e 596 reformas em redes domiciliares aconteceram até agora.
As ações da concessionária são estabelecidas junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que obriga essas empresas a destinar 0,5% do faturamento bruto anual a projetos de eficiência energética. Além do Rede Comunidade, outros investimentos da CPFL nesse sentido foram a construção de um reservatório de água no Mary Dota e a instalação de aquecedores solares no Núcleo Habitacional Bauru H.
Apesar de executar apenas 25% do pretendido no que se refere à substituição de geladeiras, o gerente de contas do Poder Público da CPFL de Bauru, Luiz Antonio de Campos, prefere destacar o acúmulo de visitas a cerca de 2.000 famílias.
Ele explica que a entrega de novos equipamentos segue critérios da Aneel e, em muitos casos, a troca de geladeira ou de chuveiro não era necessária. "Se a geladeira do morador atender a níveis adequados de consumo, ela não é substituída. Em alguns casos, ele mesmo não quer trocar porque tem uma geladeira duplex ou em outras condições que entende serem melhores", pontuou.
No entanto, Campos garante que o projeto não foi encerrado e a troca de geladeiras, chuveiros e execução de reformas, segundo ele, serão retomadas no ano que vem. "Isso não vai acabar. Podemos, inclusive, superar o número de 2 mil", afirmou o gerente.
O funcionário da CPFL explica que está sendo licitada a contratação de uma empresa para gerenciar o programa em 2012. Neste ano, a responsável foi o grupo de articulação social H Melillo, que capacitou dois agentes comunitários para realizar as visitas a domicílios. "As duas pessoas são moradoras do Ferradura Mirim, o maior dos bairros atendidos. Isso aproxima a comunidade", disse Campos.
Famílias de onde?
A participação do poder público municipal no Rede Comunidade foi a de mapear os bairros mais vulneráveis a serem atendidos pela CPFL. Ferradura Mirim, Jardim Ivone, Parque Jaraguá, Jardim Niceia, Jardim Vitória, Parque Real, Cutuba, Aymorés, Santa Terezinha, Jardim Olímpico e Pousada da Esperança II.
No entanto, nem a CPFL nem a Secretaria municipal do Bem-Estar Social tem tabulados os números de atendimentos e entregas de geladeiras por bairros. Ao invés de dizer que não tinha as informações sobre o que foi viabilizado ou não no programa, a titular da Sebes, Darlene Tendolo, tergiversou. Depois de longa argumentação, ela listou os locais indicados pela pasta, mas não sem deixar de confirmar que não tinha noção do que foi realizado.
O que se sabe, do programa, é que o prognóstico foi além das metas na entrega de lâmpadas, sendo que 30 mil fluorescentes chegaram no lugar das incandescentes na periferia.
Esperando, esperando...
A situação do carroceiro Albertino Cunha dos Reis, morador do Ferradura há 25 anos, é um pouco mais complicada. Ele afirma que os agentes do programa visitaram o local, realizaram uma série de serviços na rede da casa, instalaram um novo relógio e prometeram uma nova geladeira no início do ano. No entanto, até agora o eletrodoméstico não chegou. "Já até desisti e nem sei se quero mais", lamenta.
Albertino não se conforma com o que chama de descaso e ainda reclama do aumento no valor cobrado pela conta após as reformas. "Além de tudo, eu pagava cerca de R$ 39,00 e agora vem mais de R$ 100,00 na conta. Enquanto isso, pessoas que não deviam receberam chuveiros e já venderam para o consumo de drogas", diz o carroceiro, mostrando um desses aparelhos, apanhado por ele mesmo.
Antes da ação social, a residência de Albertino e de sua nora, Michele Aparecida Cavalari, tinha um único relógio para a medição de consumo. Com a adequação da situação, a casa de Michele foi uma das que recebeu uma nova geladeira.
Uns não querem, outros sonham
Titular da Sebes, Darlene Têndolo afirma que um dos fatores que justificaria o número reduzido de entrega de geladeiras e chuveiros é a resistência da própria comunidade. "Existem casos em que moradores se recusam a adequar a situação e regularizar o serviço de energia elétrica, seguindo todos os padrões exigidos. Nesses casos, não pode haver a substituição. Não podemos entender isso de forma negativa. As pessoas precisam de tempo para pensar", pontuou.
Mas, na prática, o argumento não se sustenta. Essa não é a realidade, por exemplo, da catadora de recicláveis Creusa de Lima, que vive, há 10 anos, com seu filho em um barraco no Ferradura Mirim. Além do seu trabalho, ela tem como fonte de renda os recursos advindos do Bolsa Família.
No entanto, conta desconhecer o programa. "Nunca ouvi falar disso. A gente puxa a força da rua de trás, mas chega muito fraca. A água do chuveiro é gelada e, nos dias de frio, preciso esquentar no gás. Seria muito bom arrumar isso aqui. Mesmo pagando conta, seria uma coisa minha", conta dona Creusa, que não consegue sequer mensurar a satisfação caso recebesse uma nova geladeira. "Comprei uma usada há três meses", conta.
O curioso é que, como gerenciadora de programa de assistência social desde o início do atual governo, Darlene Tendolo sabe que a desinformação é o principal obstáculo a essas ações. Mas o governo municipal pareceu passivo diante do mapa de vulnerabilidade social neste caso, se limitando a fornecer a lista dos locais indicados.