Até quando nós vamos continuar sendo os manés dos políticos malandros que fazem o tráfico de influência com o nome de consultoria? Desde quando uma empresa que só deixa sair dinheiro de seu caixa se ele voltar com alguma vantagem, vai ter interesse em receber consultoria de quem só conhece a ineficiente administração pública? A única coisa que esses malandros conhecem são as pessoas-chave para a tramitação de processos fraudulentos. Como não podem provar que realmente foi uma consultoria, que a contra prestação não eram apenas os honorários e que não havia nenhuma relação com o governo, alegam sigilo. Sigilo, em consultoria, são os dados da empresa cliente, mas não a natureza do trabalho. É só ler as matérias de economia para encontrar referências de empresas que estão recebendo consultoria financeira, organizacional, de recursos humanos etc. Nos casos em questão só ficamos sabendo quem foi a empresa porque a imprensa descobre. E todas elas receberam algum contrato público superfaturado. Qual foi a consultoria só ficamos sabendo pela evidência, que é tráfico de influência.
O pior de tudo é que não estamos somente nas mãos dos políticos malandros, estamos também nas mãos daqueles que, embora não sejam venais, mesmo assim colocam o interesse pessoal acima do interesse público. E tratam o dinheiro público não como se fosse seu, porque do seu eles sabem cuidar muito bem, mas como estando ao seu dispor, sem nada lhes custar. Os deputados federais reajustaram gordamente a sua remuneração e agora estão dando presente de Papai Noel aos servidores da Câmara, que custará R$ 360 milhões por ano. Dezessete desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo receberam, de uma só vez, R$ 1 milhão cada um, a pretexto de antiga pendência salarial. O limite da remuneração dos servidores públicos, estabelecido pela emenda constitucional, não é respeitado nem pelo atual presidente do Congresso.
A tentativa para dividir o Estado do Pará em três, criando dois novos estados, é outra iniciativa contrária aos interesses nacionais. Como aconteceu com o que ficou conhecido como "a farra dos municípios", querem fazer com os estados. A criação de novas unidades federativas constitui investimento e aplicação de recursos improdutivos. Não cria riqueza, só despesas: novos governadores, secretários, deputados estaduais e federais, senadores, promotores, juízes, delegados e uma infraestrutura para a sede da capital, com recursos que essas unidades não geram. O racional seria destinar os recursos federais, que seriam bem menores, ao estado atual para melhoria das regiões que estão desejando separar.
A fase relativamente boa que o país está vivendo estimula a gastança. O exemplo da Grécia e outros países, que se sentiram ricos com os euros fornecidos pela Comunidade Europeia, não está servindo de espelho para os nossos governantes, nas três esferas do poder. O Brasil é o 69º país mais corrupto da atualidade, segundo a ONG Transparência Internacional. Temos uma das maiores cargas tributárias do mundo ? sem que isso se materialize em serviços públicos de padrão digno. Um relatório do Banco Mundial, também citado pela Exame, situa o Brasil no 136º lugar, numa relação de 142 nações, quanto à qualidade dos gastos do governo. O respeitado empresário Jorge Gerdau, com outros notáveis, como Henri Philippe Reischtul, ex-presidente da Petrobras, Antonio Maciel Neto, presidente da Suzano Papel e Celulose, Abílio Diniz do Pão de Açúcar e o professor Vicente Falconi, formam, juntamente com alguns ministros, a Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade. Gerdau está tentando levar para a administração pública as boas práticas da administração privada. Essa é a verdadeira consultoria e que não tem honorários, nem outras vantagens. Esperamos que a irresponsabilidade com o dinheiro público não transforme o Brasil na Grécia de amanhã.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras