09 de julho de 2026
Articulistas

O ser e o tempo em Brasília

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

Como todo bom filósofo, o alemão Martin Heidegger vivia intrigado com o modo que as pessoas entendiam o mundo e interagiam com ele. Em seu livro "Ser e Tempo", Heidegger analisou, entre muitas outras coisas, a relação das pessoas com o ambiente (material, cultural e social) que as cercava. Como os alemães percebiam o aparato tecnológico que utilizavam? Como conservavam, por exemplo, um determinado estilo arquitetônico rural como um saber ao alcance de todos? (segundo ele, a arquitetura urbana se tornava estranha aos habitantes)

Sua percepção sobre esse assunto acabou forjando duas expressões: "mundo que já se tem à mão" e "mundo que se deve alcançar". Devo confessar que não entendi muito bem do que se tratava, até o dia em que fui com dois amigos à minúscula cidade de Ocauçu.

Uma das coisas interessantes em se morar num lugar daqueles é que você vive 24 horas por dia com a certeza de que realmente é de lá e está lá. Não é como Bauru, que já perdeu muito de suas referências. Poucas vezes olhamos nossa cidade e percebemos sua identidade, pois ela vem sendo diluída em troca de uma pretensa modernidade. Uma modernidade que, para a grande maioria, só chega por coisas que podem apalpar, ver, querer, mas não experimentar de verdade.

Ocauçu, pelo contrário, ainda possui aquela realidade de "mundo vivido", onde as pessoas participam, vivenciam e interagem substancialmente com a totalidade de um cotidiano. É um lugar onde as coisas ainda estão nas mãos dos habitantes, disponíveis a eles - onde existe um saber que ainda é de todos.

Aí vem a pergunta óbvia:

"-Mas você gostaria de viver em um lugar assim? Não acha que seria um desperdício de vida?"

Sim e não! Sei lá! O que reflito aqui é o benefício de experimentar a velocidade compassada e inteligível de um lugar - que é oposta à velocidade de Bauru.

Particularmente, penso que nossa terra branca deu o último suspiro de cidade do interior em algum momento da década de 1990. Bauru passou a ser o que Heidegger definiu como "mundo que se deve alcançar", em contraposição ao que sempre fora, um "mundo que já se tem à mão". Um mundo que se deve alcançar pode ser muito desafiador e emocionante, mas é para poucos. Um mundo que se tem à mão é confortável, seguro e é para todos. Ou quase todos.

Podemos conferir isso em um vilarejo bem perto de Bauru, chamado Brasilia Paulista. Brasilia Paulista é um distrito de Piratininga, que fica a 14 KM de sua sede, por estrada de terra. Lá não existe internet e nem sinal de celular. Isso, por si só, já desloca a existência dos moradores para um universo muito diferente do nosso mundo bauruense. Viver aqui em Bauru sem essas tecnologias seria inviável (ou insuportável). Lá é normal. As demandas são outras.

A partir dessa reflexão, pergunto:

"-O que é a modernidade? E o que é o atraso?"

Se aferirem o IDH de Brasilia Paulista, ele ficará a léguas de distância do IDH de Bauru. Porém, o IDH da Líbia, que caiu 10 posições neste ano, continua bem à frente do IDH do Brasil. Assim como o de Cuba, também bem melhor que o do Brasil. E a percepção que temos de Cuba e da Líbia é a de que são lugares péssimos para se viver.

Mas prefiro me concentrar na alienação que o excesso de tecnologia, signos, mensagens e imagens incorpora às nossas vidas. Uma tarde em Brasilia Paulista, enfim, pode representar um suspiro libertador dessa parafernália toda que as mídias nos oferecem (ao mesmo tempo que nos impõem).

No texto da semana passada, escrevi sobre a riqueza de se permitir olhar sua sociedade de fora. Observar Brasília Paulista pode ser uma ótima oportunidade para isso. Trata-se de uma forma de organização dos relacionamentos entre as pessoas que não existe mais aqui em Bauru. Uma vez lá, esqueça o conceito comum de diversão e conforto. "Abandonamos, uma depois da outra, todas as peças do patrimônio humano. Tivemos que empenhá-las a um centésimo de seu valor, para recebermos em troca a moeda miúda do atual". - Walter Benjamin.


O autor, Luís Paulo Domingues, é colaborador de Opinião