09 de julho de 2026
Política

Falta de pessoal emperra recicláveis

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

A Prefeitura de Bauru tem comemorado a constante ampliação do atendimento de coleta seletiva no município, cuja meta é atingir 100% da área urbana já no ano que vem, de acordo com a Secretaria municipal do Meio Ambiente (Semma). No entanto, boa parte do material recolhido pela pasta acaba sendo encaminhado ao aterro sanitário, tornando inócua a separação do lixo pelos munícipes. O problema acontece em função do baixo número de trabalhadores da Cooperativa de Materiais Recicláveis de Bauru (Cootramat), que segue em queda, em comparação ao final do ano passado.

Em escala, o gargalo da falta de mao de obra no setor de recicláveis, hoje operado por uma única cooperativa, gera uma preocupação maior: desperdício de materiais, frustração do objetivo de destinação adequada e riscos à futura ampliação da demanda.

Em dezembro de 2010, o Jornal da Cidade mostrou que eram 25 cooperados atuando na triagem do lixo reciclável, no Jardim Redentor. O volume de materiais, porém, exigia já á época que pelo menos 45 pessoas trabalhassem no barracão. Para reverter o cenário, seria realizado o cadastro de interessados para a atividade. Um ano depois, o número de cooperados caiu para 20 e a situação se tornou insustentável.

O principal problema é a rotatividade nos postos de trabalho da Cootramat. O serviço exige, além de esforço físico, trâmites burocráticos, como a apresentação de diversos documentos e pagamento de previdência social por parte dos cooperados. "São coisas que não precisam ser seguidas por quem trabalha informalmente na coleta de reciclados", critica a cooperada Maria Cecília Pereira de Oliveira.

Por outro lado, esses trabalhadores não usufruem de registro em carteira e benefícios como vale transporte. Isso faz com que a mão de obra da cooperativa seja restrita a bairros próximos do barracão, como o Jardim Redentor e o Ferradura Mirim.

Mais lixo, menos dinheiro

O final de ano é marcado por um contraste amargo aos cooperados do lixo reciclável. Nessa época, a coleta de materiais dispara em razão das inúmeras embalagens de produtos específicos e presentes característicos. Além disso, os carroceiros, que atuam informalmente no setor, costumam parar de trabalhar, sobrecarregando a cooperativa.

Por conta disso, a falta de trabalhadores torna-se ainda mais acentuada e mais lixo fica acumulado. "Normalmente os quatro caminhões da coleta seletiva fazem duas viagens. Em dezembro já estão fazendo três ou quatro", conta Maria Cecília.

Para piorar, os ganhos dos cooperados diminuem entre novembro e março, pois, por uma questão de mercado, o preço de venda de materiais recicláveis despenca. Segundo Valmir, o final do ano proporciona renda individual de R$ 600,00 a R$ 700,00 contra R$ 800,00 do resto do ano.

Mais da metade do lixo não é reciclada

Números da Secretaria municipal do Meio Ambiente (Semma) mostram que, só em novembro de 2011, foram recolhidas 201 toneladas de lixo reciclável, entregues a cooperativa. Em setembro, a quantidade foi de 183 toneladas contra 177 em outubro.

No entanto, a cooperativa consegue triar e comercializar, em média, apenas 80 toneladas de lixo por mês. Todo o resto fica acumulado no local de trabalho dos cooperados e, o que se torna inutilizável é recolhido pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

Segundo o cooperado Valmir Moura, o papel é o principal material perdido, pois o local não tem como armazenar adequadamente todo o lixo reciclável. Dessa forma, fica exposto à chuva e o reaproveitamento torna-se inviável. "Perdemos muito o papel, que é um material pelo qual pagam bem", lamenta.

Além disso, o acúmulo de lixo causa gera riscos de acidentes e a saúde pública, sem contar o fato de sobrecarregar o já limitado aterro sanitário com materiais que poderiam ser reciclados.

A situação poderia ser ainda mais alarmante caso os bauruenses levassem mais a sério a separação do lixo, pois, como mostrou recente reportagem do Jornal da Cidade, apenas 3,41% dos resíduos domésticos do município são recolhidos pela coleta seletiva, de responsabilidade da Semma.

Barracão novo tem problemas

Se não bastasse todos os problemas com a falta de mão de obra para a cooperativa de reciclagem, os trabalhadores estão sujeitos a condições que estão longe das ideias. O principal problema é o ?barracão? construído este ano para ampliar a área coberta de armazenamento de materiais.

A cobertura foi construída após apresentação de projeto da Semma, que recebeu R$ 140 mil do Fundo Estadual de Recursos Hídricos de São Paulo (Fehidro). O município participou da obra com contrapartida de R$ 60 mil. A empresa Negrão & Negrão foi vencedora de licitação e executou o serviço.

O equipamento, porém, apenas piorou o problema dos cooperados, pois houve falhas na construção das calhas e a água da chuva escoa, em grande volume, sob a cobertura, molhando os materiais. "Isso aqui vira um lago, a água fica empoçada e a gente continua perdendo os papeis. Foi muito mal feito e complicou ainda mais", afirmou Valmir.

O secretário Valcirlei Silva, da Semma, afirmou que o município já notificou a empresa para que o problema seja sanado. Os cooperados reclamaram também sobre a forma com que os materiais recicláveis passaram a ser entregues pela Semma a partir desta semana. "Antes vinham ensacados e agora deixam tudo solto aqui. É uma garantia a menos para garantir que tudo não se estrague no tempo", pontuou Valmir.

Semma quer ter mais um centro de triagem

O titular da Semma, Valcirlei Silva, reconhece o problema, que deve ser compartilhado com o poder público. Na prática, a prefeitura deveria se responsabilizar pelo lixo reciclável recolhido que não ganha destinação adequada. A intenção da pasta é construir um novo barracão para triagem e comercialização de materiais na Pousada da Esperança.

A demanda é compartilhada com o vereador Natalino da Pousada (PV), que apresentou emenda ao orçamento de 2012 com essa finalidade. No entanto, Valcirlei afirma que a Semma já tem projeto para a obra, mas ainda há disponibilidade dos R$ 500 mil necessários para executá-la. "O ideal seria haver pelo menos três barracões espalhados pela cidade por conta da questão do transporte dos futuros cooperados, para que possam trabalhar perto de suas casas", observou.

A Semma estuda ainda entregar os materiais recicláveis recolhidos por ela a entidades e associações sem fins lucrativos para desafogar a Cootramat. "O caso está sendo avaliado pela Secretaria de Negócios Jurídicos. Já existe uma entidade interessada: o Instituto Profissional de Reabilitação Social Primeiro de Agosto", disse Valcirlei.

? Serviço

Interessados em se cadastrar para trabalhar na Cootramat podem procurar a cooperativa, na quadra 1 da travessa James Russel, no Redentor. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 3203-6365.