Embalados pelas vozes do coral da Maternidade Santa Isabel, médicos, funcionários, representantes de entidades civis, lideranças políticas e cidadãos comuns deram as mãos, no início da noite de ontem, para abraçar o Hospital de Base (HB). Empunhando cartazes e bexigas brancas, eles formaram um círculo em torno da unidade para demonstrar solidariedade e sensibilizar a população sobre a grave crise vivida pelos dois hospitais, administrados pela Associação Hospitalar de Bauru (AHB).
A mobilização, que reuniu cerca de 300 pessoas, ganhou a adesão até mesmo de um paciente que, de uma das janelas do prédio do HB, acenava e sacudia uma toalha acompanhando o ritmo das músicas entoadas pelo coral. O ato foi uma iniciativa da Associação dos Médicos Ativos e Inativos (Amai) do Corpo Clínico da AHB e contou com o apoio de instituições como a Associação Paulista de Medicina (APM), Conselho Regional de Medicina (Cremesp), diretoria regional Centro-Oeste da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp), Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Bauru (Seessb), Comissão de Direitos Humanos da subseção de Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Lions Club Estoril, Jornal da Cidade e 96FM.
“É um movimento que foi iniciado por um grupo de pessoas, mas que foi literalmente abraçado pela cidade. Queremos mostrar para o governo do Estado, que tem poder de decisão sobre o futuro do hospital, o quanto esta unidade é importante para a cidade e para a região e o quanto todos nós estamos preocupados”, assinala o médico José Eduardo Marques, presidente da APM.
De acordo com o médico Carlos Alberto Monte Gobbo, presidente do Cremesp e membro da Amai, a grave crise financeira que o hospital atravessa tem exposto a população a riscos com os quais os médicos não podem mais compactuar. “Dentro das atuais condições de trabalho, nós podemos responder solidariamente em caso de eventuais incidentes. Os preceitos éticos e humanitários não estão sendo mais cumpridos. Chegamos a uma situação limite”, descreve.
As condições precárias a que a unidade está submetida atualmente levaram os profissionais a cogitar um possível desligamento do trabalho, o que deve ser avaliado nas primeiras semanas de janeiro de 2012 (leia mais abaixo). Foi também a falta de recursos financeiros que resultou no atraso do pagamento do 13º salário dos funcionários (leia mais abaixo), que participaram de maneira maciça da manifestação de ontem.
Reivindicações
Um deles, a técnica em enfermagem Alessandra Aparecida Rodrigues, levou as duas filhas, Isabele e Nicole, para integrar o abraço coletivo. “Trabalhei no período da manhã, mas fiz questão de voltar para participar. Estamos vivendo uma situação difícil, todos os funcionários têm feito um esforço sobre-humano para suprir as necessidades da população. A gente espera que as autoridades façam o mesmo”, defende.
Durante a mobilização, um manifesto por escrito foi entregue aos presentes. No documento, a Amai reivindicava do governo do Estado posicionamento sobre três principais itens. Um deles é a devida manutenção do HB e Maternidade Santa Isabel, “com aporte financeiro para o seu regular funcionamento e para execução de um plano de investimento em reformas na sua estrutura física e as necessárias atualizações nos seus equipamentos”.
O segundo refere-se à manutenção e ampliação do quadro funcional e corpo clínico das unidades. O último exige o cumprimento “das promessas reiteradamente veiculadas na imprensa e assumidas com a comunidade de Bauru e região no sentido de transferir a gestão dos hospitais para entidade idônea”, ou que o Estado assuma a administração do complexo hospitalar de forma direta.
O manifesto ainda apela para que o governador do Estado, Geraldo Alckmin, o secretário de saúde do Estado de São Paulo, Giovanni Guido Cerri, e o deputado estadual Pedro Tobias unam esforços para “preservar e revitalizar estes dois importantes hospitais regionais”.
“Nosso desejo é de que, no ano que vem, possamos nos reunir novamente em frente ao hospital, com a participação dos políticos, para um abraço em comemoração à recuperação do Base e da maternidade”, finaliza Gobbo.
Assembleia de médicos é adiada para janeiro
Prevista inicialmente para ser agendada nesta semana, a assembleia que irá votar a proposta de desligamento do corpo clínico do Hospital de Base só deverá ser marcada a partir da segunda semana de janeiro. O adiamento foi motivado pela dificuldade de reunir uma grande quantidade de médicos nesta época do ano.
“A maioria sai em viagem para visitar parentes e a mobilização seria prejudicada. Queremos que todos participem”, afirma Carlos Alberto Monte Gobbo, membro da Associação dos Médicos Ativos e Inativos (Amai) do Corpo Clínico da Associação Hospitalar de Bauru (AHB).
Caso a proposta de desligamento for aprovada, a intenção é de que os médicos deixem de atuar no HB 30 dias depois de formalizada a decisão. Transcorrido este período, eles pretendem continuar atendendo apenas os pacientes que já estiverem internados, até que recebam alta ou sejam transferidos.
Funcionários podem definir greve nesta 2ª
O Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Bauru (Seessb) realiza assembleia na próxima segunda-feira para votar a proposta de início de greve no Hospital Estadual (HB) e Maternidade Santa Isabel, caso os funcionários não receberem o pagamento do 13º salário. O prazo máximo dado pela categoria à Secretaria de Estado da Saúde para a liberação do aporte extra de R$ 1,45 milhão para este fim venceria hoje.
Mas, até ontem, a informação era de que o repasse ainda não havia sido aprovado pelo governo do Estado. “Se o dinheiro for liberado nesta sexta-feira, pode ser que não caia na conta dos funcionários imediatamente. Por isso, esperaremos até a segunda-feira”, argumenta a presidente do sindicato, Vera Salvadio Pimentel.
No último dia 20, os funcionários do HB fizeram uma paralisação de uma hora para protestar pelo atraso no pagamento do 13º. Na segunda-feira, a assembleia está marcada para as 12h30 em frente ao prédio do hospital. Caso o pagamento for regularizado antes deste horário, a reunião será cancelada.