Ela é de pequena estatura, mas do alto de seus 87 anos, conquista a ternura das demais pessoas à primeira vista. Professora das antigas, do tempo em que mestres na sala de aula recebiam o valor e o respeito que nunca deixaram de merecer, anos após se aposentar, resolveu se aventurar nas passarelas e, com o charme a mais da bengala ao lado, foi eleita a Miss Terceira Idade 2011.
A vencedora do concurso, realizado recentemente na Associação dos Aposentados e disputado por outras 15 candidatas, orgulha-se da vitória, conquistada com a ajuda de um belo par de olhos azuis, mas também do espírito alegre que ostenta desde os tempos de sala de aula.
A doçura de Eliazib Simi Misquiati, segundo a própria, é o antídoto contra a velhice. Ela, aqui, não se refere ao envelhecimento inerente a todo ser humano. A referência é contra, segundo ela, a ferrugem da alma, que encurta a vida. "A gente tem que ter mesmo um incentivo para não se sentir velha. Velho não é trapo. Aliás, até o trapo tem serventia. Nossa experiência serve de valor", ensina.
Mesmo modelo de primeira viagem, Eliazib não abre mão das roupas joviais. "Odeio roupa de velha", diz.
Para ela, a maneira de encarar o passar dos anos, sempre com bom humor e carinho para e dos demais à sua volta, é o principal antídoto contra a velhice de verdade, a do coração. "Transmitir alegria faz bem para os outros e para nós", receita.
Mãe de dois filhos, dos quais se orgulha por sempre estarem ao seu lado, e viúva há 12 anos, dona Eliazib conta que faz questão de ainda morar sozinha e ser, de fato, dona do próprio nariz. "Tenho dois filhos maravilhosos que cuidam muito bem de mim. Mas moro sozinha e me cuido sozinha. Tomo meus remedinhos no horário certo. Deus tem me ajudado muito", agradece.
Independência
A independência, apesar de ser um dos principais fatores para uma "super terceira idade", não é a única razão da alegria dela, que, mesmo morando sozinha, passa os dias com o pessoal da Vila Vicentina, onde pratica atividades culturais, de lazer e, é claro, desfila. "Estou adorando. O tratamento é com carinho e respeito, com todos. Vejo a vida de quem mora aqui", elogia. "Ela é sempre alegre e percebemos que gosta mesmo, de verdade, de conviver conosco", testemunha Luiz Minorello Neto, presidente da Vila Vicentina.
A disciplina é outra regra para quem quer viver mais e melhor. "Tenho três médicos, para o coração, tireóide e reumatismo", salienta a miss terceira idade. "Tomo todos os medicamentos na hora certa e minha alimentação é normal. Mas, muito açúcar e sal, nem pensar", descarta ela, confessando não ser muito chegada em verdura. "Como porque tem que comer", admite.
Profissional do saber no passado e que dá lições de como viver bem com idade avançada no presente, Eliazib compara os tempos em que tinha a régua na mão, mas que não precisou dar uma palmada sequer com o atual cenário da educação. "Naquele tempo a gente era amada e respeitada. As mães entregavam os filhinhos falando ?esta é a sua segunda mãe. Se você levar castigo, vai levar outro em casa?", recorda. "Os pais ajudavam a gente. Hoje é uma carreira de risco. As coitadinhas das professoras apanham dos alunos e os pais são contra elas (educadoras)", lamenta.
100 motivos para sorrir
Dona Joana Tirintam é uma das mais novas centenárias de Bauru. Ela chegou à casa dos três dígitos no dia 9 deste mês.
Apesar de falar um pouco menos e se mover com mais dificuldade em virtude de um AVC do qual se recupera, ela não perdeu a simpatia e espírito brincalhão - ao final da entrevista pediu para o repórter dar um abraço na esposa de um familiar, o qual ela e os parentes diziam se parecer com o jornalista.
Ao lado da caçula Lúcia Helena, com quem mora atualmente, dona Joana afirma que não há receita, ao menos no seu caso, para a longevidade feliz. "Não faço nada não. Foi a natureza mesmo", considera ela, que não faz qualquer tipo de dieta especial. "Como arroz, feijão e carne e sempre gostei de trabalhar. Trabalhar não mata ninguém", ensina, às portas de ganhar a tataraneta (já são três) Valentina, filha da bisneta Natália Mendes de Lima. Ao todo, são nove filhos (quatro falecidos), 26 bisnetos e 36 bisnetos.
No mais, receita a sempre sorridente e centenária vovó, é tomar os remédios na hora certa e ter muita fé.
Longevidade requer qualidade
Mesmo com os avanços e comprovado aumento da população idosa e "superidosa", o quesito qualidade de vida, para alguns especialistas, ainda é falho, principalmente no Brasil. "Aumenta o tempo de vida das pessoas, mas elas não chegam a essas idades com boa qualidade de vida", considera a médica geriatra e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerotonologia (SBGG), Sílvia Pereira. Muitos problemas, entretanto, enfrentado por essa camada crescente da população ocorrem por atitudes que não foram tomadas durante os anos de juventude.
"Não fizeram prevenção antes. A gente não sabia o que sabe hoje", compreende. "Aumentou a expectativa de vida, mas as pessoas chegam (as idades avançadas) com artrose, pressão alta, diabetes, problemas de memória", cita. "A gente não soube tratar precocemente esses problemas, principalmente quanto à mobilidade", observa. "Pouca musculatura, as pessoas não fazem exercícios", atribui. "E o pior de tudo é a pessoa ficar dependente", considera.