Natal é um tema perpétuo para os cronistas e literatos por uma questão óbvia: toca no mais profundo da alma. Carlos Drummond de Andrade chegou a sugerir "dez meses de Natal e dois meses de ano vulgarmente dito". É que alguém teria observado que o ano civil teria dez meses e dois, dedicados aos preparativos do Natal, tempo para que todos se impregnem do seu espírito de luzes. Se essa divisão fosse invertida teríamos mais tempo para nos amar e desejar felicidades ininterruptas, de manhã e à noite. E assim o poeta faz uma série de reflexões sobre como seria bom se assim fosse. Bens repartidos por si mesmos entre nossos irmãos; a poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer; o trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida". O salário de cada trabalhador, que o poeta chama de lírios do campo, será a alegria que tiver merecido.
No poema "Papai Noel às avessas", o próprio Drummond é mais realista e irônico quando conta a história do Papai Noel que entrou pelas portas dos fundos da casa alheia (no Brasil as chaminés não são praticáveis). Invade sorrateiro o quarto onde "os meninos dormiam sonhando com outros natais muito mais lindos" e rouba todos os presentes junto aos sapatos. Tem muito a ver com outra crônica do mesmo autor sobre o passante que vê o robusto Papai Noel conduzido por dois PM com os braços travados. Era um falso velhinho que conspurcava o dólmã vermelho e as barbas já por si postiças, para furtar os artigos para presentes expostos nas lojas, em vez de dar presentes. "Se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, pergunta o poeta, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta?". Atualizando o questionamento, quem nos garante que o magistrado com a toga da Suprema Corte é, de fato, um juiz e, como todo juiz deve ser, um julgador isento?
O Natal desperta os desejos de consumo. Deve ser triste ao vendedor ter que vigiar a moça que entra no provador para experimentar o vestido, para ter certeza de que ela não vai sair sem pagar, deixando o antigo no cabide. Quem entra com bolsa grande na loja já é monitorado por câmeras de televisão. Esse Natal de pé atrás, adverte o poeta, só nos ensina o desamor. Ebenezer Scrooge, personagem de um conto de Dickens não dava esmolas nem no Natal. Ele achava que cada um precisa ganhar pelo seu trabalho e não pela comiseração alheia. Assistentes sociais ao redor do mundo trabalham para tirar as pessoas da indústria da esmola. Scrooge já havia pensado nisso no século 19.
O verdadeiro espírito de Natal estaria no pão-durismo. Felizmente, ninguém acredita nessa tese. As ruas e as lojas estão repletas. A tese atual é que gastar é bom para a economia e gera empregos e riqueza. O próprio presidente Obama, instaurada a crise econômica, pediu que as pessoas não parem de consumir. Dilma fez apelo parecido. Dizem que o uniforme vermelho do Papai Noel não é por acaso. Seria ele garoto propaganda da Coca-Cola.
A literatura mundial produziu páginas inspiradas e altamente criativas tendo o Natal como pano de fundo. Lembro-me do divertido conto surrealista de um dos grandes escritores do século 20, o italiano Alberto Moravia (1907-1990), "O peru de Natal".
O comerciante Policarpi-Curcio
abriu também no Natal para faturar com os retardatários. Recebe um telefonema da mulher apelando para que chegasse pontualmente em casa porque tinha peru. Surpreendeu-se quando, ao chegar em casa, em vez do peru no forno ou sobre a mesa encontrou-o refestelado no sofá, elegantemente vestido e em animada conversa com a filha Roseta. Apresenta-se como um peru nobre, rico e influente. Conversa vai, conversa vem, o peru almoça com a família em vez de ir para a panela. É convidado a pernoitar na casa e, na manhã seguinte Curcio descobre que o peru fugiu com a sua filha. Dá parte à polícia. Na delegacia ninguém entende que um peru possa ter raptado sua filha. Os perus, diziam, ficam nas gaiolas. Aliás, a filha era maior de idade e não havia nada a fazer. Desolado, nas suas andanças atrás da filha o pobre homem ainda descobre que o peru era um vigarista, simples garçom expulso de vários lugares por furto. Ainda por cima casado e com filhos.
O Natal está cheio de falsos Papais Noéis. Nem os perus mais escapam. Levamos para casa chesteres e frangões no lugar do verdadeiro peru. Pura falsidade ideológica. Escondam suas filhas!
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC