Ninguém conseguira saber nada da vida do funcionário muito discreto. Sorriram quando informou que sairia mais cedo para fazer compras. Quem não se sujeita aos gastos do final de ano? Na loja, optou por um edredom bem macio e quatro travesseiros, para quando as crianças viessem dormir junto, atravessando a cama, pendurando-se como cipós... Mas esse seria um presente para o inverno, gostaria de ser lembrado o ano todo. Um ventilador! Desses modelos novos, coloridos. O branco estava bonito, mas o verde... Era esse.
Para as crianças, abrigos... é gostoso usar, e poderiam vesti-los durante o dia. Pediu três. Aproveitou para pegar as meias e imaginou-os esparramando pipocas, rindo, à frente da TV. Crianças gostam de brinquedos... Escolheu uma boneca grande, bonita, que nem era tão cara, talvez feita na China, ótima compra. Uma bola, revestida de couro, que não furaria facilmente, e exultou ao encontrar o aro, acompanhado de um ferrinho para empurrar. Lembrou dos aros de bicicleta que empurrara na infância. O pequeno adoraria. Na mercearia ajudou a vendedora a escolher um panetone, chocolates, bolachas em forma de anjos, sinos e bonecos. Sacos com castanhas, bolos, pães, doces, geleias, frutas secas, uvas-passas, a enorme cesta ficou lotada. Saiu feliz, com o celofane estalando, apertado por um laço colorido, enfeitado por um sino dourado. No cartão, com um presépio em alto-relevo, escreveu: Deus os abençoe!
Quando entrou no carro e olhou para todas aquelas compras, a consciência de sua solidão fez descer uma densa cortina à sua frente. Por instantes não viu mais o movimento e as luzes. A sensação era de uma forte dúvida. Haveria mesmo a quem entregar os presentes? Haveria alguém com quem comemorar o Natal? Ou o único presenteado seria ele, o único espectador, o único a comparecer à festa? Teria ainda a esposa e os filhos ou definitivamente os perdera? Sentiu a dor angustiante de sua solidão, a mágoa de não ter ninguém a esperá-lo, por ser tão só e não conseguir se aproximar das pessoas em lugar nenhum, por lembrar tanto dos filhos. Voltaria para o casarão com a casinha do quintal feita para acomodá-los quando crescessem e recebessem amigos, chegaria àquele silêncio em que desejara tanto ouvir passos, gritos, correria, no qual chegara a imaginar os netos...
Olharia a geladeira vazia, havia quanto tempo a casa não recendia a temperos! Ao telefone disseram-lhe que fariam o possível para vir... Sabia que não viriam. Veio a lembrança amarga de que seus filhos estavam esquiando no Canadá... O novo pai dava-lhes tudo, mesmo que viessem, nem olhariam para seus presentes modestos, eram da geração do chip, cada um com seu laptop, seus celulares, MSN e sabe-se lá o que mais... Estacionou ao meio-fio, baixou a cabeça, bateu-a várias vezes nas mãos, agarradas ao volante enquanto as lágrimas rolavam e gritou, o corpo sacudido por soluços...
Assustou ao ouvir as batidas no vidro. Antes de levantar os olhos, teve certeza de que seria assaltado, um belo final para esse trágico dia. Bateram novamente. De soslaio viu a mãozinha. Uma criança? Mesmo sentindo medo levantou a cabeça e encarou o perigo. A menininha pediu que baixasse o vidro. Certo de que um malandro o atacaria assim que obedecesse, baixou já esperando pela bala que o acertaria. Melhor isso do que sua tristeza insolúvel. A menininha disse, educadamente: - O senhor tem um presente de Natal para nós? Minha mãe dormiu, ela está muito triste e eu queria tanto que ela ficasse contente! Viu, encostado na mureta do jardim um pacote, essa a melhor descrição, devia ser a mulher, com duas crianças enroladas nela. - Por que vocês estão na rua? Perguntou.
- Meu pai morreu, eu acho, o homem mandou a gente embora, minha mãe não tem dinheiro, falou que vamos ficar aqui. Mesmo temeroso, abriu a porta, travou o carro e aproximou-se da mulher pedindo à menininha que a despertasse. Os olhos assustados da mãe vaguearam à procura da polícia fixando-se nele. - O que o senhor quer? - Quero que me conte o que aconteceu. Ela repetiu a história da menininha. Já deviam o aluguel há seis meses, o marido fora trabalhar em outra cidade, nunca dera notícia. O senhorio perdeu a paciência. Expulsou-os; não deixou que levassem nada, como garantia do valor devido.
- Sou doméstica, cozinheira de mão cheia, mas nem me atendem quando veem as crianças pequenas: os meninos têm três e cinco anos, a menina sete.. Estão dormindo, não aguentavam mais, Não comemos desde ontem, o senhor sabe quem teria um cantinho para a gente ficar? Ele sabia.
Rosa Leda Accorsi Gabrielli