08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Lembranças de Natal


| Tempo de leitura: 2 min

O Natal mais distante que consigo me lembrar foi o de 1968 (o ano que não terminou). Ganhei uma boneca especial, ou melhor, para mim ela era. Apertando a sua barriga, ela chorava, ou parecia chorar. Nada tão moderno como as bonecas de hoje em dia, mas para mim era a minha filhinha querida, o nome dela era Regina. Lembro de passear com ela até a padaria com a minha sombrinha amarela que havia ganhado da minha madrinha. Depois, nos anos 70, os natais eram realizados na casa de minha avó e dormíamos todos amontoados nos quartos e logo pela manhã as tias tiravam os presentes do guarda-roupa e nos entregavam. Uma vez ganhei o Mickey Mouse e sua bicicleta, ele se equilibrava num fio de barbante de um lado para o outro.... Foi uma sensação por muitos anos e se tornou um dos meus brinquedos favoritos.

Já mocinha crescida, o que pegou na época eram as confraternizações no colégio e grupos de amigos e mesmo com os parentes era a hora e a vez do "amigo secreto". Muitas vezes fazíamos com os parentes do pai e da mãe separadamente, mas como a vó Dóca sempre passava as festas de fim de ano conosco, acabávamos num só grupo em que ela entreva na brincadeira com muito gosto. Naquela hora da descrição do amigo, quando comentamos dos detalhes da pessoa, lembro uma vez a vó falando do seu amigo assim: Ela é como uma filha pra mim..., mais que uma filha, eu quero ela muito bem, ela é a mulher do meu filho! Todos riram, alguns até choraram com aquela singela declaração da sogra para nora.

Com o passar dos anos e com as mortes dos parentes, deixamos das confraternizações e nos tornamos uma família reduzida. O último Natal que minha avó Dóca passou em Bauru, quando ela ainda fazia a viagem do Mato Grosso até aqui, foi em 2002, já nos seus 94 anos. Eu estava no meu 6º mês de gravidez, mal aguentando ficar em pé, e ganhei da vó o enxoval do meu bebê. A dificuldade maior era entrar e sair dos carros e ônibus principalmente, quanto mais alto os degraus, maior o sacrifício...

Depois vieram os natais que encantavam o meu bebê. Os passeios no shopping com os padrinhos, as fotos nas decorações natalinas da cidade, os presentes que assustavam a criança e os que ele esperava com ansiedade e aqueles que o surpreendiam... Lembranças de natal...

Não sei se existe uma explicação para o meu ceticismo, mas as histórias de Natal, nunca me interessaram realmente, soava algo de muito triste, algo de falso.... Como se uma voz interior dissesse: Esqueceram de mim! (e não era um filme do Macaulay Culkin) Em todas as minhas lembranças de natal, apesar das confraternizações, dos encontros aparentemente felizes dos familiares e dos presentes, nunca gostei ou achei inesquecíveis essas lembranças.

Ana Maria Machado Silva