08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Um conto de Natal


| Tempo de leitura: 2 min

Arthur estava agora ali, na estação, com tudo que lhe coube, depois de 61 anos, dentro de uma mala.

Arthur Schumman, descendência judeu-alemão, antes que o trem partisse destampou a pequena garrafa e tomou mais um gole, limpando a boca com as costas da mão.

Não lhe restava alternativa a não ser partir. Depois de tantos anos na Capital, dias de prosperidade e alegria, o advogado renomado de império construído, vindo como imigrante com a sabedoria por experiências que faltava aos daqui.

O trem serpenteou por horas. Arthur por poucas vezes deixou as lágrimas caírem durante a fuga viagem. Desembarcou na pequena Aurora, foi direto ao bar da praça central, se embebedou, depois foi-se para o quarto, pré-alugado, próximo à praça.

Acordou na véspera de Natal, a bela Aurora toda feliz na praça da matriz. O povo se preparando para celebrar o aniversário do menino Jesus. Arthur, bom nas palavras, logo nos primeiros contatos com sr. Manoel do bar, apesar de tê-lo visto bêbado decadente, não sabe bem porquê, recebeu boa acolhida do velho português.

Com a chegada da noite, e sabendo boa parte da vida de Arthur, o português consultou a patroa para saber se poderia convidar o amigo para a ceia. Porém, foi rechaçado duramente: "Onde já se viu um bêbado encardido, juntar-se à ceia conosco, ora pois!"

Arthur que soube da boa intenção, agradeceu a sr. Manoel, e se foi para seu canto. Enquanto estava deitado, refletindo sobre as lembranças dessa época tão importante e emotiva para as pessoas, ouviu batida na porta: "tock, tock, tock". Ao abrir quase não pode acreditar: suas duas filhas, Sarah e Larah, com seus genros e todos os quatro pequenos. O pequeno quarto encheu-se de alegria, crianças, presentes e a ceia que veio nas duas camionetes pré-preparadas, com muita fartura como nos tempos de antes... comidas, bebidas, cores e amor!!

- Papai, por que fizeste isso com a gente, por que não nos procurou? Você é e sempre será nosso pai!

Emendou uma das crianças:

- E o senhor é o melhor avô do mundo!

Depois de se fartar e se alegrar, Arthur adormeceu. Acordou no quarto empoeirado sozinho, com o sol entrando pelas frestas e janela, de companhia apenas pardais barulhentos. Sentiu então uma dor muito aguda do lado esquerdo e uma paz que jamais sentira antes, imóvel, ali mesmo ficou.

Enquanto isso, cruzando a praça, dois carros com a placa da capital chegaram à praça da matriz. As duas irmãs desceram e bateram à porta do pequeno quarto. Sem obter resultado, Sarah e Larah se questionaram: "Será esse mesmo o endereço?" ? interrogou Larah a irmã. "Sim, é esse mesmo o endereço que o sr. Manoel colocou no telegrama que nos enviou."

Demerval Assis da Silva