07 de julho de 2026
Articulistas

O poder da caneta

Renan dos Reis M. Chaves
| Tempo de leitura: 2 min

Em meados da década de 1950, tanques soviéticos invadiram o território húngaro, dissipando àquele povo o direito ? e, também, o sonho ? da liberdade. Ato típico das invasões bélicas, os militares soviéticos iniciaram buscas nas residências da Hungria. Certo momento, ao adentrar no lar de um intelectual resistente à invasão, o comandante que efetivava a operação requereu que o húngaro entregasse as armas de que dispunha. Em gesto que ratificou sua intelectualidade, o sábio húngaro retirou do bolso de sua roupa uma caneta, afirmando ser sua arma mais potente. O gesto está impregnado de grande sentido metafórico.

Inegavelmente, o simbolismo que cerca as canetas, traz consigo a ideia de poder. Nesse sentido, acreditando que o ano de 2012 deve pontuar seus dias no Brasil pela retidão, honestidade e justiça, deve-se refletir acerca das grandes decisões assinadas pelas mais importantes autoridades em 2011, sem apagar da memória as aberrações que foram feitas no país e manchadas pelas tintas de canetas corruptas. O ano se encerra em crise para o Poder Judiciário. Corrupção, desvirtuamento de condutas e embate na classe dos juízes, ao ponto de uma magistrada corregedora afirmar que no país há "ladrões de toga". Há quem sustente que a crise de 2011 é tão grave quanto aquela que deu origem a CPI do Judiciário, em 1999. Talvez apenas o ano que está a nascer nos revelará a gravidade da crise.

Não pairam dúvidas que o país tem muito a desenvolver no que toca ao sistema de controles e abusos de autoridades. Com a caneta em punho o juiz define os rumos de uma vida. O que deve ser ressaltado é que a experiência comum tem demonstrado que a maioria dos magistrados é honesta, deixando rastro da tinta de suas canetas para o bem, assegurando direitos básicos e a Justiça aos que dela necessitam. Contudo, há certos juízes que ? infelizmente ? pontuam sua trajetória profissional pela corrupção. O desejo é que no ano que se aproxima o país continue valorizando os magistrados que atuam honestamente e, reitera-se, eles compõem a maioria da classe. Ademais, temos no país um controle externo de suma relevância, de modo que cumpre à imprensa o encargo de, munida de sua arma mais letal ? a caneta livre de influências ? manter-se alerta e sempre atenta com relação aos atos que possam refletir em desvios de condutas e mostrar ao país aquilo que deve ser melhorado e investigado. Votos de que 2012 seja o ano que o Judiciário encontre consigo mesmo, valorizando a Justiça e punindo com canetas pesadas aqueles que se permitam corromper pelas ilusões da ilegalidade.


O autor, Renan dos Reis M. Chaves, é colaborador de Opinião