09 de julho de 2026
Geral

Redes sociais fazem vítimas em ?casa?

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Numa era em que o analógico cede lugar ao digital em quase tudo, o nebuloso campo da infidelidade, ou da falta de segurança na rede, também está mais do que inserido num universo de bites, bytes e beijos. A disseminação das redes sociais acompanha o processo e acaba responsabilizada, em muitos casos, até mesmo por litígios de divórcios. Muitos casos vão parar na Justiça.

Um recente estudo, conduzido pela Universidade Loyola, em Chicago, nos Estados Unidos, apontou que em cada cinco divórcios naquele país, um deles tem como pivô o Facebook. Isto faz com que a principal rede social, ao lado do Twitter, seja utilizada como prova de traição em casos que são resolvidos após litígios judiciais.

Nos tribunais, os advogados apresentam geralmente fotografias e postagens que evidenciem o estilo de vida de quem é processado em processos que envolvem requisição de pensão alimentícia. "As redes sociais podem sim ser utilizadas para comprovar o que chamamos de riqueza aparente", confirma o advogado Olavo Pelegrina Júnior.

Coordenador da Comissão de Direitos da Família, Sucessões, Infância e Juventude da subsecção bauruense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o causídico acentua que, atualmente, 90% dos casos que resultam em divórcios têm nos meios eletrônicos a causa ou estopim.

No Brasil ou ainda em Bauru ainda não há divulgação de estudos semelhantes ao levantamento da universidade nos Estados Unidos. Entretanto, observa o advogado bauruense, existem diversos casos na cidade em que a parte requerente à pensão alimentícia conseguiu vitória no tribunal graças a documentos originários a partir de postagens em mídias sociais.

De acordo com o advogado, a internet ou qualquer outro meio eletrônico têm dupla faceta: tanto na causa da traição como na evidência a ser apresentada ao juiz. "Não temos números, é uma observação empírica", ressalva. "Mas a maioria dos casos em que atuamos tem algum tipo de meio eletrônico envolvido", acrescenta. "Quando toca meu telefone já imagino: alguém andou mexendo no MSN do companheiro", descontrai.

Edson Reis, advogado criminal mas também com atuação na área do Direito Familiar reforça que as mídias sociais atualmente são provas documentais quanto qualquer outra perante o juiz. "Nas redes, muitas vezes, as pessoas que alegam falta de condições de arcar com determinado valor de pensão, entram em contradição. Dizem não ter como pagar, mas postam fotos de viagens caras, exibindo um alto padrão de vida", ilustra.


Até que o ?face? os separe

Olavo Pelegrina Júnior testemunha que a ferramenta virtual, de tão poderosa, chegou a ser o estopim para o rompimento de uniões com mais de trinta anos de duração.

Foi o que aconteceu com o analista de sistemas E.B., de 38 anos. Nem mesmo o fato dos 14 anos de união e tampouco os dois filhos conseguiram segurar o casamento perante a força dos desentendimentos provocados pelas mídias sociais.

Escritor amador, E.B. conta que reúne contingente considerável de admiradores, seja no twitter ou facebook, algo que provocou as discórdias. "Claro que já havia um desgaste. Mas as redes foram a gota d?água", admite. "Chegou um dia em que ou eu saía das mídias, por onde tenho feedback com leitores, ou acabava o casamento. Estou divorciado há um ano e meio", contabiliza, recordando problemas no relacionamento desde a época do ICQ, antigo programa de conversação online.

Se conversas com outras pessoas fora do meio de convívio comum do casal, através das redes sociais, pode causar desconforto ou até ruptura de casamentos, o que dizer então de um simples namoro.

Aos 26 anos, a coordenadora de recuperação de crédito Jéssica (identidade fictícia da personagem que pediu para ter seu nome preservado) responsabiliza conversas virtuais do namorado às idas e vindas no relacionamento que já perduram três anos.

"Foram muitas brigas até que peguei a senha dele e exclui todas as mulheres. Ele ficou louco", conta ela, que capturou a palavra chave no computador do namorado através da instalação de programa espião. Hoje, conta ela, a solução foi o cancelamento das contas de ambos.

Quem acredita ter encontrado a solução adequada é a também coordenadora de equipe recuperadora de crédito Maysa Valéria de Souza Alves Oliveira, de 22 anos. Casada há cinco, ela e o marido Edson mantém uma conta conjunta no Facebook. "Foi a melhor solução", confia a jovem, que, ao mesmo tempo, fica longe de "obscuridades" virtuais mas sem estar desplugada.