Tomar um chá de cadeira após horas de preparo - que incluem embelezar pele, cabelo e unhas, além de caprichar na escolha do vestido e de um poderoso salto alto - não é o desejo de nenhuma dama em um salão de festa. Mas dá para evitar tal decepção se atirando na onda do personal, que se consolida cada vez mais no País (hoje é possível encontrar personal trainer, styler, shoppers, entre muitos outros tipos de auxiliares).
No caso da dança, são os personal dancers a atração do momento. Tal profissional é contratado para acompanhar uma dama ou mesmo um grupo em bailes e encontros dançantes. Procurados normalmente por senhoras viúvas, solteiras ou mulheres cujos maridos não sabem ou não gostam de dançar, os dançarinos de aluguel se apresentam às damas bem vestidos, educados e atenciosos.
Além de rodopiar com elas pelo salão, sentar-se à mesa com as senhoras e ter um bom papo são exigências fundamentais para ser um bom personal dancer. "Estou sempre bem vestido e apresentável. Roupa social é fundamental para um personal dancer", ressalta Victor Rafael Alves Prado, 28 anos. Segundo ele, em Bauru, há cerca de 30 rapazes que se dispõem ao trabalho de personal dancer, além de atuarem também como monitores, ou seja, ficarem à disposição de todas as damas dos salões, contratados pelo organizador da festa.
"Comecei dançando forró e, depois, como monitor de vários ritmos trabalhando para clubes que realizam festas. Gosto muito de dançar e é um prazer quando me chamam como personal, acho que isso é uma forma de reconhecimento do meu talento para a dança".
Para ter a companhia exclusiva de um personal e dançar a noite toda, a dama deve pagar a entrada da festa, a conta da mesa e desembolsar algo em torno de R$ 50,00, valor do cachê cobrado por noite, normalmente, pelo par de aluguel. Mas tal valor pode ser dividido entre as amigas. Mas, contudo, neste caso o par também será dividido ao longo do baile.
"Elas dançam e inventam moda"
Dupla para lá de unida, as aposentadas e viúvas Nelcy Silva dos Santos e Hevanyz Hernandes Bernardi são amigas inseparáveis há uma década. Muito ativas e dispostas, passeios, viagens, aulas de inglês e, é claro, a dança, são programas por elas compartilhados. E assim, com um bom salto alto, vestido de festa e todo o preparo digno de grandes celebrações, elas se divertem nos principais salões de Bauru.
E como quem gosta de dançar quer mais é saber de rodopiar pelo salão e não de ficar sentada esperando um convite, as amigas, frequentadoras assíduas de bailes e serestas, tiveram a ideia de "contratar" um monitor de dança somente para elas, ou seja, um personal dancer.
Segundo as "dançarinas", elas gostam mesmo é de dançar até cansar e, embora seja hábito os clubes contratarem monitores para bailar com as presentes, eles são disputados pelo grande números de mulheres nos bailes.
"Pedimos a indicação para uma professora de dança e acredito que fomos as primeiras na cidade. E olha, acho que nosso personal se cansa primeiro que nós. Chegamos aos bailes por volta das 22h e vamos embora lá pelas 2h da madrugada", diz Hevanyz com bom humor.
Entre tango, mambo, forró, soltinho, bolero, e muito mais, elas se divertem e dançam mais de 90 passos diferentes e, como gostam de dizer, esquecem da vida: "Dançar é um exercício maravilhoso", completa Nelcy.
Surpresa
Comum, principalmente nas grandes cidades, a presença de um personal dancer ainda é novidade nas mesas dos salões do Interior. "Acho até que as pessoas têm um certo preconceito ao ver um rapaz sentado e dançando com senhoras. No início, percebíamos a expressão de surpresa de muita gente. Mas, agora, acho que se acostumaram com a novidade, tanto é que algumas senhoras já nos pedem o telefone do nosso personal", comenta Hevanyz.
Mas, sem se preocuparem com preconceitos, elas contam que a ideia de contratar um rapaz para acompanhá-las em bailes deu tão certo que até indicam o mesmo para as amigas e a turma do baile: "O bom é pedir indicação para alguém, porque o moço precisa saber dançar e conduzir bem a dama pelo salão. Antes, até dançávamos uma com a outra, mas não é a mesma coisa. Quando o cavalheiro conduz, a dança fica até mais bonita", lembra Nelcy.
Pelo prazer
Antes de ser personal dancer, Cláudio Fabiano Peroti é coordenador em uma escola estadual e garante ser um "dançarino de aluguel" pelo prazer da dança: "Além de acompanhar duas senhoras em bailes, eu dou aulas para elas. Ver a evolução delas na dança é muito gratificante, além disso, meus passos também estão em constante evolução".
Cláudio, que veio para Bauru após ter passado em um concurso público, sempre foi apaixonado pela dança e começou a ter aulas na cidade. Indicado por uma professora, ele passou a acompanhar Hevanyz Hernandes Bernardi e Nelcy Silva dos Santos (Leia mais no texto, abaixo), em serestas e bailes da cidade.
Há três anos bailando pelos salões como personal nas horas vagas, Cláudio acredita que tem incentivado outras pessoas e até salões: "Ninguém quer ir a um baile e ficar sem dançar, percebo que até os clubes estão contratando mais monitores".
Normalmente, os personal dancers são homens jovens. E tal característica, segundo Cláudio, é vista com um certo ar de preconceito por algumas pessoas: "Tem gente que não conhece e acha suspeito um jovem dançar ou acompanhar pessoas mais velhas. Alguns acham que é exploração ou algo assim, puro preconceito de quem não sabe o que fala", finaliza.