08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Waldemar mateus

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Meio século por caminhos de Bauru

Ele conhece Bauru de ponta a ponta, afinal, há mais de meio século trabalha como taxista na cidade e é, hoje, o profissional ativo com mais tempo de trabalho. A entrevista de hoje conta a vida e as histórias de Waldemar Mateus, um taxista que pode ser considerado modelo, já que nunca levou uma multa sequer em décadas e décadas de caminhos percorridos.

A profissão herdada do pai teve início por acaso, quando Waldemar decidiu ajudá-lo (o pai) em visita a Bauru, na época o entrevistado morava em São Paulo com um irmão: "A saudade dos meus pais era muito grande e decidi ajudar meu pai na profissão".

Se hoje Waldemar conhece bem Bauru, no início não foi assim: "Os passageiros me guiavam e eu vivia pedindo orientação na rua, até que fui conhecendo toda a cidade", lembra-se.

Presidente do sindicato da categoria por mais de dez anos, entre ruas, avenidas e estradas, o taxista também acumulou histórias marcantes, como o dia em que fez um parto no banco de seu táxi. Esta e outras histórias você confere, a seguir.


Jornal da Cidade ? Como começou a sua história de taxista?

Waldemar Mateus ? Eu morava em Jaú quando terminei o Tiro de Guerra. Naquele tempo, meu pai não deixava os filhos saírem de casa. Até deixava, mas o horário máximo para voltar era às 22h. Quando entreguei o certificado de reservista para ele, ele me disse que eu era o dono da minha vida e que ele já tinha me explicado como as coisas funcionavam. Naquele momento, o que ele quis dizer era que eu estava livre para escolher meus caminhos. Fui para São Paulo, onde trabalhei como marceneiro por quase um ano e morei com um irmão casado. Contudo, a saudade de meus pais era impressionante. Meu pai havia se mudado para Bauru, ele era taxista desde Jaú e me disse que nenhum de seus dez filhos o ajudava na profissão. Vim passar o Ano Novo aqui e disse que o ajudaria, mas não conhecia nada na cidade.


JC ? Não deve ter sido nada fácil ser taxista em uma cidade até então desconhecida?

Waldemar ? Então, eu não conhecia nada mesmo. Meu pai trabalhava no ponto da estação da Machado de Mello. Era um movimento imenso. Meu pai me disse para pegar os passageiros que eles me explicariam como chegar até os destinos. Foi o que aconteceu, mas, na volta, eu sempre me perdia (risos). Naquele tempo não havia muitos acessos ao Centro. Eu perguntava o que fazer e as pessoas achavam aquilo estranho, imagine um taxista pedindo informação de caminhos. Foi assim até que aprendi e decidi ficar por aqui.


JC ? Teve apoio do seu pai?

Waldemar ? Meu pai fazia gosto e até disse que compraria um carro melhor se eu voltasse. Bom, fui para São Paulo pedir demissão do meu emprego, o que não foi nada fácil, pois com quatro meses eu já era gerente da firma e o patrão não queria que eu saísse, mas a saudade de meus pais falou mais alto. Voltei e comecei a trabalhar com meu pai. Depois que peguei o jeito, ele trabalhava durante o dia e eu, à noite.


JC ? Enfrentou muitos perigos com o trabalho noturno?

Waldemar ? Naquela época já era perigoso trabalhar como taxista. Nesse meio século de profissão, eu calculo que já perdi cerca de 25 colegas assassinados em Bauru. Eu acho que naquele tempo, quando comecei, o perigo de morte era maior. Hoje ainda há muitos assaltos, mas os motoristas preservam suas vidas não reagindo a eles. Também há os espertalhões que tentam dar golpes e não pagar a conta. Na década de 1960, um japonês vendia estátuas para cemitérios e depois as roubava dos túmulos. Ele ficou conhecido por dar golpes em taxistas, também. Certa vez, esse sujeito me pediu para levá-lo até Cafelândia. Lá chegando, disse que iria até a rodoviária comprar uma passagem, foi quando me dei conta de que aquele japonês era o dos golpes. Fui atrás dele e o fiz pagar a corrida na marra. Pouco tempo depois, fiquei sabendo que ele havia sido preso em Duartina.


JC ? Já passou por grandes apuros?

Waldemar ? Eu graças a Deus nunca passei por grandes apuros. Já passei por algumas situações perigosas, mas nada que tenha me oferecido risco real. Nunca fui assaltado. Acho que o segredo é não ser um motorista "valente". Ninguém quebra um malandro no pau, o ladrão já entra no seu carro com a intenção de te matar, caso você reaja. Também nunca fui dedo duro, mas já tive colegas que morreram sendo. E tomo cuidado para não rodar por lugares suspeitos. Nunca me acidentei, nem tive multas. Sempre dirijo dentro da velocidade recomentada pela sinalização ou até mesmo abaixo dela. Deus me ajudou e continua me ajudando muito em minhas saídas por essas estradas. Já levei passageiros por todo o estado de São Paulo, Paraná, já fui para Brasília e Santa Catarina.


JC ? E quais são as situações perigosas que o senhor cita?

Waldemar ? Por exemplo, uma vez peguei um passageiro que me pediu para tocar até Ibitinga. Peguei as malas e as coloquei no porta-malas. No meio do caminho ele começou com uma conversa estranha perguntado se eu não tinha medo de ser assaltado, dizendo que podia ser um bandido perigoso e tudo mais. Eu disse para ele parar com aquilo, porque se ele tentasse algo eu iria atirar nele. Eu era moço e tinha porte de armas, então puxei o revólver e disse para ele não falar mais nada porque daria um tiro nele. Fui dirigindo até Ibitinga, parei em uma praça e falei para ele pagar a corrida e descer.

JC ? E o que ele fez?

Waldemar ? Foi até a delegacia e registrou queixa contra mim. A polícia veio atrás de mim dizendo que o delegado estava me esperando. Contei tudo à polícia e disse parem uma olhada na bagagem dele, que estava cheia de contrabando. O delegado me dispensou e o malandro ficou lá prestando esclarecimento sobre a muamba. Outra vez, no Bela Vista, um cara me parou e pediu para levá-lo até Botucatu. Eu conversava com ele e ele não respondia, virava a cara. Achei estranho, mas continuei. Quando chegamos perto de São Manuel, a polícia me parou, mostrei os documentos e disse que estava indo para Botucatu. Fizeram a mesma pergunta ao passageiro, mas ele não respondeu, não quis mostrar as malas e foi bruto com o policial. A polícia o levou para a delegacia para averiguações. Ele me olhou e disse que um dia acertaria as contas comigo. Voltei e disse para acertamos na mão livre, mas a polícia o levou e nem sei o que ele escondia.


JC ? Chegou a salvar a vida de alguém?

Waldemar ? Olha, já fui até parteiro (risos). Estava de madrugada no ponto da estação quando um libanês chegou gritando para eu buscar a esposa dele e levar para Agudos. Antes de chegar ao destino, ela começou a gritar que o bebê estava nascendo, o marido não parava de gritar e dizer que a mulher estava morrendo (risos). Forrei um pano e fiz o parto no banco do carro. A criança estava nascendo e ajudei. Na hora fiquei anestesiado, precisava fazer aquilo. Depois terminamos de chegar na maternidade. Outra vez, na entrada do Santa Luzia, vi o atropelamento de um menino. Peguei um guarda na rua, pegamos o menino, liguei os faróis e desci a Rodrigues Alves buzinando até o hospital. Aquela foi uma as situações mais difíceis que já passei. O acidente foi sério e o menino ficou com sequelas.


JC ? O senhor deve ter acompanhado pessoalmente boa parte da história de Bauru.

Waldemar? Ah, sim. Lembro-me dos doentes pobres que chegavam em Bauru para o tratamento no Lauro de Souza Lima. Eles me perguntavam quanto era a corrida até lá. Lembro-me deles contando o dinheiro que não dava nem para pagar o táxi. Aquilo me cortava o coração, e não havia ônibus circular para lá na época. Então eu terminava de atender os clientes da estação e voltava onde tais pacientes estavam e os levava até o Lauro. Nem sei quantas vezes eu fiz isso, parece que Deus me dava em dobro depois.


JC ? O senhor já foi presidente do sindicato da categoria, certo?

Waldemar ? Sim, por mais de dez anos. Precisei sair porque estava ficando doente do estômago por causa do nervoso que eu passava. Eu gostava do que fazia, mas optei por seguir as recomendações médicas. Também fui perito de trânsito, examinador, membro da Jari, do recurso de multas, membro do conselho de saúde da Prefeitura, membro do conselho de trânsito, da Comotran, entre outras atividades.


JC ? Por que a nota dez para o prefeito Rodrigo Agostinho?

Waldemar ? Nós que andamos em Bauru e conhecemos a cidade de pon ta a ponta, podemos dizer que há muitas vilas e ruas em que podemos andar sossegados. Ele está melhorando o asfalto, isso sem contar com os viadutos da Vila Falcão e Nuno de Assis, mas ainda falta asfaltar a Rodrigues Alves. Não vou dizer que os outros prefeitos foram ruins, porque nenhum mexeu com a gente, mas ele até colocou a lei da troca de pontos, algo que estávamos precisando muito. No passado, as ruas eram muito ruins, com o ex-prefeito Alcides Franciscato as coisas passaram a melhorar. A cidade cresceu, não o Centro, mas as vilas e bairros. De tudo o que vi e vejo, acho que a cidade precisa desenvolver mais as indústrias.


JC ? A vida de taxista é...

Waldemar ? Uma vida muito boa. Se eu tivesse de voltar no tempo, certamente escolheria ser taxista outra vez. Gosto mesmo dessa profissão e vou trabalhar até Deus permitir. Graças a Deus tenho saúde, nunca bebi, nunca fumei... Procuro me cuidar. A profissão mudou bastante durante esses anos. Falta respeito no trânsito, as pessoas não respeitam os mais velhos como fazíamos antes. Fiz muitas amizades com minha profissão, o que entristece mesmo é a falta dos amigos mortos no trabalho.


JC ? E quanto ao hobby cantar?

Waldemar ? (Risos) Sou católico praticante e canto nos corais das igrejas São Judas Tadeu e Nossa Senhora de Fátima. Ao todo, cantamos há 20 anos em casamentos, apresentação de corais...Já cantei por duas vezes pela São Judas na Rede Vida...


JC ? Por onde gostaria que a estrada da vida o levasse?

Waldemar ? Para o céu. Procuro fazer o bem na terra para alcançar as bençãos de Deus. Graças a Deus devo muito a ele, que sempre me protegeu nas estradas. Sou muito feliz por ter uma família unida. Sou casado há 44 anos, dançamos muito em bailes, passeamos...Tivemos dois filhos e temos cinco netos. São nossas alegrias.