O estádio mais famoso do mundo e o futebol brasileiro estão de luto. Faleceu na quarta-feira, aos 84 anos, Isaías Ambrósio, funcionário mais antigo do Maracanã.
Com número de matrícula 0009, a história de Isaías se encontrou com a do estádio em julho de 1948, antes mesmo do início da construção do grande palco do futebol brasileiro. Nascido em Bauru, quando não passava dos 20 anos de idade mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como pedreiro na construção do Maracanã, telefonista e segurança antes de se tornar o guia da visitação ao estádio. Sua relação era tão intensa com o estádio que até seu segundo casamento foi celebrado nas dependências do "Maraca", onde trabalhou até 2004. Atualmente vivia em Niterói. Em 2000, na ocasião do cinquentenário do estádio, recebeu o título de Cidadão do Estado do Rio de Janeiro e a Medalha Pedro Hernesto.
O corpo de Isaías foi velado na 1ª Igreja Batista de Vila Kennedy, no Rio, e o enterro ontem, no cemitério Jardim da Saudade, em Paciência. O "Senhor Maracanã" deixa, além de lembranças registradas e contadas por ele mesmo enquanto guia, seis filhos.
Figura conhecida
A importância da figura do bauruense Isaías Ambrósio está registrada nas páginas dos mais importantes veículos de imprensa brasileiros. Em uma delas, na Revista Placar de 28 de dezembro de 1979, a história do "encontro" entre o personagem e o estádio é lembrada em uma reportagem especial sobre o Maracanã. Como não poderia ser diferente, a matéria da revista que trazia como capa a celebração do tricampeonato brasileiro conquistado pelo Internacional de Paulo Roberto Falcão, dedica um espaço ao homem que passou boa parte da vida ao lado do que ele mesmo chamou de "monstro".
"Domingo à tarde, jogo no maior estádio do mundo. Torcidas em guerra, o grito arranhando a garganta...Nessa hora, o Maracanã se transforma numa cidade. Uma cidade que explode a cada drible, a cada gol. A capital de fato do país do futebol", diz as primeiras linhas da matéria "Explode, Maracanã".
No trecho dedicado ao bauruense, a revista relata a história do "guia turístico e o anjo bom": "E há os anônimos operários que veem no estádio a chance de realização de grandes sonhos. Isaías Ambrósio, por exemplo. Há mais de 30 anos, quando os vereadores discutiam a viabilidade da construção do estádio, Isaías era servente de pedreiro no centro do Rio. E não pensava em outra coisa: ?Quero trabalhar lá?. O convite veio, ?um bom anjo apareceu? e, já no Maracanã em suas fundações, Isaías prometeu a si mesmo: ?Vou ser guia turístico deste monstro?. É o que Isaías, com seu sotaque paulista do interior, faz agora".
?Ele chorou quando falamos de Bauru?
Morador de Pederneiras, o aposentado Josino Ismar de Conti Pereira, 73 anos, relembra da figura carismática que conheceu em apenas um único encontro. "No ano de 1985 viajei ao Rio de Janeiro com minha mulher e três filhos e fiz questão de levá-los para conhecer o Maracanã. Nos juntamos a um grupo de turistas que acompanhavam atentos as histórias contadas por um homem simpático e sorridente, que parecia falar do estádio como se fosse parte dele".
Após passear pelas dependências do estádio, a família de Ismar se dispersou do grupo. "Foi o momento que encontramos de falar com aquela figura. Ele, pelo nosso jeito, afirmou que não éramos do Rio e questionou de onde vínhamos. Me lembro de ter dito: ?Você não vai conhecer de onde viemos, somos de Pederneiras, cidade vizinha a Bauru, no interior de São Paulo?. Nesse momento percebemos que seus olhos encheram de lágrimas e, em meio a sorrisos de satisfação e lágrimas que escorriam em seu rosto, ele nos surpreendeu ao dizer: ?Se eu conheço Pederneiras? Se conheço Bauru? Claro que conheço. Eu sou de lá também?. Para nós foi uma grata surpresa".