09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: André Luiz Banhos

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Superar os desafios que a vida coloca no caminho, aceitar-se, adaptar-se à realidade e ser feliz. O discurso, pregado por muitos, foi colocado em prática por André Luiz Banhos ao longo da vida. Menino ativo e com muitos amigos, ele, que passou a infância correndo e brincando pelas ruas de Bauru, nasceu com uma grave lesão óptica e enxergava bem apenas como o olho esquerdo. "Mas isso não atrapalhou meus dias de menino, eu tive uma infância livre e até construía meus próprios brinquedos quando meus pais não podiam comprá-los", recorda-se.

O tempo foi passando, o menino crescendo e o problema de visão se agravando aos poucos até que, quando André tinha cerca de 20 anos de idade, perdeu a visão. Nesse momento, o sofrimento foi inevitável e o jovem que estava acostumado a andar pela cidade, estudar, trabalhar e jogar futebol, sentiu-se perdido.

"Mas eu precisava me adaptar e vencer. Fui convivendo com outras pessoas, entrei no Lar Escola Santa Luzia Para Cegos, voltei a estudar e consegui viver normalmente outra vez".

Retomada as atividades, André aproveitou todas as oportunidades que apareceram, fez cursos, estágios e conseguiu um emprego de telefonista e comunicação interna na Beneficência Portuguesa, onde trabalha há quase 28 anos.

Muito conhecido por seu trabalho no hospital e bastante comunicativo, o entrevistado de hoje fez e faz grandes amigos por onde passa. Aliás, ficar parado não é de suas atividades preferidas, a não ser quando para refletir e ouvir músicas que falam de Deus.

Fé e família também fazem parte da entrevista que você lê, a seguir.


Jornal da Cidade - Você é bastante comunicativo e, inclusive, o seu trabalho exige isso. A sua facilidade em conversar com as pessoas é uma característica nata?

André Luiz Banhos - Gosto muito de conversar, desde criança. Estudei em várias escolas e, no antigo ginásio, os professores me colocavam para dar aulas de história e geografia justamente por essa facilidade de comunicação que eu tenho. Esse meu jeito de conversar facilita muito a minha vida no cotidiano, até mesmo para resolver problemas.

JC - Foi um menino "tagarela"?

André - Não fui um menino muito arteiro, mas tive minhas travessuras. Tinha muitos amiguinhos, brinquei muito na rua... Quando meus pais não podiam comprar brinquedos, eu os fazia com madeira e barbante. Foi uma infância livre e repleta de brincadeiras.

JC - Fale sobre sua visão...

André - Eu enxergava apenas com o olho esquerdo, pois nasci com uma lesão grave no nervo óptico que, com o tempo, chegou à atrofia. Antes disso, eu até que enxergava razoavelmente. Eu andava no mato à noite com lanterna, frequentava escolas nas fazendas, jogava futebol, estudava, trabalhava... Até que, paulatinamente, comecei a ver manchas, as ruas pareciam fazer curvas e fui perdendo a visão aos poucos até ficar cego, isso por volta dos 20 anos de idade.

JC - Como foi se adaptar à nova realidade?

André - Sofri muito. Não pude andar livremente pela cidade sozinho como eu fazia antes porque ainda não estava adaptado a isso. Comecei a entrar em desespero mesmo. Até que fui convivendo com outras pessoas na mesma situação que eu e voltei a estudar. Meus pais não tinham dinheiro para pagar escolas particulares, então estudei em escolas do governo e aproveitei todas as oportunidades e cursos que tive.

JC - Seus pais o incentivaram a prosseguir?

André - Sim, eles sempre estiveram ao meu lado. Minha mãe me ajudava muito, estava comigo em diversos momentos. Meu pai também, mas a mãe quase sempre é mais carinhosa, né!? Tenho muito o que agradecer a eles.

JC - Então é possível dizer que você transformou limitação em estímulo?

André - Então, eu entrei no Lar Escola Santa Luzia Para Cegos e isso foi muito importante para mim. Aprendi muitas coisas nos quatro anos em que lá estudei. Aprendi a dominar o sistema braile, a fazer vários tipos de artesanato, como tapetes, empalhamento de cadeira, entre outros... Foi lá que dei meus primeiros passos em matéria de educação, cultura e conhecimentos gerais. Voltei a frequentar a escola regular e terminei o ensino médio. Nessa fase, já estava adaptado e voltei a ter uma vida comum. Por exemplo, a casa em que moro foi feita por mutirão e ajudei muito nisso. Eu frisava paredes, lixava portas e venezianas para receber pintura, além de muitos outros trabalhos sem dificuldades.

JC - A sua voz é uma das mais conhecidas no hospital Beneficência Portuguesa. Trabalha lá há quase três décadas, certo?

André - Antes disso, fui estagiário no Centrinho, Liceu Noroeste, Divisão Regional de Ensino e na própria Beneficência Portuguesa. Foi quando surgiu uma vaga nessa última instituição para trabalhar como telefonista no horário da noite. E eu já tinha feito cursos de comunicação na Associação Comercial e Industrial (Acib). Assim, trabalho há cerca de 28 anos no hospital. Trabalho com telefonia e a comunicação interna. Faço anúncios, chamo médicos e funcionários...Como se fosse um locutor de rádio (risos).

JC - São muitas histórias para contar, não é?

André - Ah, sim. Algumas tristes e outras alegres. Dar notícia de falecimento, por exemplo, é algo que me deixa triste. Muitas vezes, até peço para outra pessoa falar. Agora, também fiz muitas amizades com meu trabalho. Brincadeiras dos colegas, elogios pelo trabalho e superação... Graças a Deus são coisas que eu tenho e me fazem feliz.

JC - Você acredita que Bauru é uma cidade que acolhe bem pessoas com deficiências?

André - Acho que as coisas melhoraram nesse sentido, mas ainda é preciso evoluir bastante. Também acho importante que as pessoas se preparem para receber as oportunidades, com eu recebi. Eu estudei, me preparei e superei as limitações. Gosto de estar em contato com as pessoas. Minha deficiência visual complicou a minha vida e me atrapalhou em um determinado período, contudo, eu lutei e estou bem. Graças a Deus eu consegui me ajeitar bem na sociedade, mas houve um grande esforço pessoal.

JC - E qual seria o seu conselho para os "acomodados"?

André - Ah, não pode se acomodar. É preciso lutar para vencer. A superação vem do esforço pessoal e a pessoa precisa estudar, fazer cursos, preparar-se tecnicamente para o trabalho, seja ele qual for. Quem tem a possibilidade de cursar uma faculdade, por exemplo, não pode deixar de fazer. É fundamental enfrentar as dificuldades sem temer as derrotas.

JC - Você sempre cita Deus. É bastante religioso?

André - Sou, sim. Sou evangélico há muitos anos e acredito que ter fé e estar à disposição do bem é fundamental. O ideal seria que todos apenas praticassem o bem e não arrumassem confusões. Ao contrário, as pessoas precisam buscar soluções. Dessa forma, a vida é bem melhor. Você pode ter muitas dificuldades ao longo da vida, mas se acreditar em Deus, reunirá forças para enfrentá-las de cabeça erguida. Agradeço a Deus pelo que tenho. Acredito que as coisas mais importantes da vida são, em primeiro lugar, Deus, e depois, a família. Atualmente há muito divórcio, desamor... Acho que é preciso mais amor entre as pessoas para que superem as dificuldades.

JC - Você é realmente bastante comunicativo. Isso ajuda nas amizades?

André - Eu fico pouco parado, sabe. Às vezes gosto de ficar em paz e ouvir programas de rádio e músicas que falam de Deus. Por outro lado, gosto muito de conversar e tenho muitos amigos, sim. Trabalhei com muitas pessoas ao longo da vida e conheci muita gente por causa disso. Trabalhei em uma padaria por algum tempo, em chácara... Isso desde moleque. Como disse, quando não estou trabalhando, eu gosto muito de ouvir música e também de passear. Ando pelas ruas de Bauru sozinho, pego circular, faço de tudo! Também gosto muito de andar pela Batista de Carvalho acompanhado, na maioria das vezes, por minha bengala. Já fiz um pouco de cada coisa nessa vida, mas fiz mais coisas boas do que ruins, né? (risos)