09 de julho de 2026
Articulistas

Qualidade total foi para a cucuia?

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Quando o artesanato chegou ao seu amadurecimento máximo, criando as obras de arte que definiram um período histórico, o Renascimento, o conhecimento científico começou a mostrar o seu lado prático, com aplicação na fabricação de ferramentas, construção de máquinas e no domínio de novas formas de energia - vapor e eletricidade. Num primeiro momento, esse novo conhecimento, que veio a chamar-se tecnologia, serviu para a melhoria da produção artesanal, mas acabou por substituí-la pela produção mecanizada em fábricas, dando início à Era Industrial. A principal característica do produto artesanal, que não deve ser confundido com o atual artesanato folclórico, era a qualidade, a perfeição. O aprendiz levava anos para tornar-se artesão e só se tornava um mestre, podendo ter aprendizes, quando conseguia produzir uma obra perfeita, sem defeitos - uma "obra-prima".

A produção artesanal, preocupando-se muito com a perfeição, pouco ligava para o tempo e para o custo. Se não fosse o surgimento da tecnologia a produção não teria a-companhado o aumento da população. Faltariam produtos na quantidade necessária para suprir as necessidades humanas. As fábricas vieram para resolver o problema da quanti-dade e do preço, mas não podiam oferecer a mesma qualidade do produto artesanal. A troca da qualidade pela quantidade tem sido a característica do início da industrialização em todos os lugares. O Japão começou produzindo coisas de péssima qualidade, melho-rando e chegado ao que é hoje somente após a ajuda americana. Aqui, no Brasil, levou tempo para a aceitação do produto nacional. Até o automóvel nacional foi chamado de carroça pelo presidente Collor.

Os recursos, cada vez mais aperfeiçoados, oferecidos pelas máquinas e materiais, graças ao desenvolvimento da tecnologia, permitem, hoje, fazer produtos melhores e muitos, impossíveis no artesanato. O problema está em criar a cultura da qualidade, a preocupação, o empenho e o orgulho de fazer coisa de boa qualidade, como havia no artesanato. Mas a cultura não é tecnológica, é sociológica. Encher um prédio de equipamentos de última geração não garante a qualidade, a menos que as pessoas estejam capacitadas e com vontade de fazer a coisa bem feita. E também não é um treinamento de última hora que vai resolver o problema. As pessoas têm que ser formadas para produzir com qualidade. Ao ser criado, em 1942, tendo por parâmetro o ensino racional suíço/alemão, o Senai estruturou as suas séries metódicas de ofício com três itens de qualidade básicos: precisão, tempo de execução e acabamento. Fazer peças com as medidas corretas, aproveitar bem o material e o tempo e dar um acabamento esmerado, realçando o aspecto estético, devem fazer parte da formação profissional.

A segunda metade do século passado ficou marcada não só pelo enorme avanço da tecnologia, mas também pelos estudos da qualidade. Livros, artigos, palestras e cursos foram feitos em profusão. Qualidade Total, Círculos de Controle da Qualidade (CQC), Gestão da Qualidade Total (GQT), Kaizen, just in time e quejandos. Palestras e cursos viraram moda e muitos assistiam porque tinham vergonha de ficar por fora. Surgiu a certificação ISO 9000 e as suas derivadas: 9001, 14000, 20000 e 27000. Chegou-se ao requinte de estabelecer a meta de 99,9997% de acerto ou 3,4 erros por milhão de unidades produzidas, proposta pelo método Seis Sigma, criado pela Motorola e aperfeiçoado pela GE, na administração de Jack Welch. Tudo isso foi muito bonito e trouxe grandes resultados, mas, e agora, o que dizer da Chevrolet despachando mais de 4 mil veículos de seu novo modelo, o Sonic, sem colocar as pastilhas do freio dianteiro, só percebido quando uma locadora reclamou a garantia? E das 40 milhões de unidades de fermento Royal recolhidas por defeito de vedação da embalagem? Ou do achocolatado Toddynho com resíduos de detergente, que queimou a boca de crianças no RS?

Segundo o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, os recalls de produtos alimentícios tiveram um aumento de 142,8% em relação a 2010. E os recalls de veículos, as reclamações das concessionárias de telefonia e energia? Será que tudo foi perdido, que a Qualidade Total foi para a cucuia?

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras