08 de julho de 2026
Geral

Mortes por raios alertam: cuidado

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

"Ele era um cara centrado, ia cursar o último ano da faculdade agora, era uma pessoa que frequentava a igreja, amiga de todos e se dedicava muito à família", lembrou José Francisco Lopes da Silva, 35 anos, primo de Ellivelton Miranda do Nascimento, morador do Parque Jaraguá, que morreu na noite de anteontem após ser atingido na região da cabeça por um raio, em Piratininga.

Também no final da tarde desta terça-feira, Deivid Oliveira Sandim, 27 anos, morreu após ser atingido por um raio em Bofete (135 km de Bauru). Ele trabalhava em uma fazenda e estava se preparando para ir embora quando o raio o atingiu. Segundo um colega de trabalho, ele segurava uma ferramenta no momento do acidente.

O caso do jovem Ellivelton divulgado pelo JC na edição de ontem comoveu as pessoas e chocou amigos e parentes da vítima, surpresos com a morte trágica do rapaz de apenas 20 anos. O acidente aconteceu por volta das 19h30 em uma chácara, com acesso na altura do km 360 da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros.

Ellivelton e alguns amigos de seu trabalho jogavam uma partida de futebol em um campo aberto quando um raio atingiu o local e acabou acertando a cabeça do jovem, que acabou não resistindo aos ferimentos.

No momento do acidente, segundo relatou a irmã da vítima, Simone Miranda de Araújo, 25 anos, ele estaria em campo com mais 16 rapazes, que também foram ao chão nos instantes do ocorrido.

Dois dias antes do acidente, Ellivelton e sua esposa, Mariana Regina da Costa do Nascimento, 20 anos, haviam completado quatro anos de união entre o namoro e o casamento. Segundo a irmã da vítima, o rapaz nutria por Mariana um amor que surgiu ainda na infância. Do relacionamento do casal nasceu um menino, que completará 1 ano e 1 mês nos próximos dias. Ainda de acordo com a irmã dele, o rapaz, que trabalhava em uma empresa de peças automobilísticas, havia sido promovido há pouco tempo.


Comoção

A tragédia abalou toda a família do rapaz. Ellivelton, segundo os familiares, estava no 4º período da faculdade de administração. "Ele era muito esforçado. Dividia a vida entre a família, a igreja, os estudos, o trabalho e o futebol com os amigos", lamentou o primo José Francisco.

"O hobby dele era futebol. Chegamos a brincar juntos algumas vezes, ele era bom de bola. Inclusive, tinha um jogo de futebol de salão marcado para hoje (ontem)", afirmou o vizinho e amigo do rapaz Adenivaldo Costa Brito, 33 anos.

O caso de Ellivelton Miranda é mais um entre os vários registros de mortes provocadas por raio na região. Para o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, é preciso que a população se atente aos riscos trazidos por essa época de chuvas. "Não existe tecnologia para prever onde um raio irá cair. Ao perceber a formação das nuvens de chuva, o melhor a fazer é ficar recolhido em um local seguro e coberto. Há alguns anos, em um bairro próximo ao Jardim Estoril, um raio atingiu uma dona de casa que correu para recolher as roupas do varal de sua casa e acabou morrendo", lembrou Brito.

Para Brito, é importante também lembrar que morar próximo a um para-raios não significa proteção. "Aquelas pessoas que moram perto de caixas d?agua, de escolas e lugares que, geralmente, possuem para-raios, acham que estão protegidas, mas isso não é verdade. Ele protege apenas aquele local no qual está instalado, o papel dele é atrair os raios e mandar para debaixo da terra. Nada impede que um raio possa atingir as proximidades", apontou o coordenador da Defesa Civil.


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São Paulo é recordista em óbito por raio, diz Inpe

As mortes de Ellivelton Miranda do Nascimento e Deivid Oliveira Sandim somam-se a uma realidade trágica vivida há alguns anos por todo o Estado de São Paulo. Em 2010, um jovem de 21 anos, mototaxista, também morreu vítima da descarga elétrica em Bauru. Na ocasião, chovia forte e Luiz Carlos Almeida dos Santos estava a caminho de uma corrida no Parque Roosevelt. O rapaz acabou sendo atingido pelo raio e não resistiu após uma parada cardiorrespiratória fulminante.

De acordo o Inpe, São Paulo aparece como Estado recordista em mortes provocadas por raios no País. Em pouco mais de 10 anos foram mais de 230 registros. Entre 2000 e 2010 foram quase 1.400 mortes por conta dos raios em todo o Brasil. O número de feridos por essa mesma causa, segundo o instituto, não foi registrado, mas chega a ser em média três ou até quatro vezes maior que o número de mortes.

Em casos de acidentes envolvendo raio, a médica intervencionista do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Carmen Arroyo, ressalta que a primeira coisa a ser feita é entrar em contato com o serviço médico de urgência ou resgate.

Segundo a médica, para os casos em que houver uma parada cardiorrespiratória, é importante a realização de uma massagem cardíaca na vítima, até que o atendimento especializado chegue. Entretanto, para esse procedimento, é recomendável que a pessoa seja um profissional treinado e saiba o como realizar a massagem, que deverá seguir 30 compressões no tórax por duas respirações boca-a-boca. Para descobrir se a vítima está sofrendo uma parada cardíaca é preciso checar os batimentos do coração no pulso ou no pescoço.

No caso da vítima apresentar lesões, o melhor a fazer é recolhê-la a um local seguro e aguardar o serviço de urgência, ou dirigir-se a uma unidade médica mais próxima.


Intensidade

De acordo com o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a chuva de anteontem - durante a qual o jovem Ellivelton Miranda do Nascimento morreu após ser atingido por um raio - registrou, curiosamente, poucas descargas elétricas. "Foram apenas 30 raios que atingiram o solo da cidade. Já os raios dentro das nuvens, que não causam danos, chegaram a mais de 300", considerou o grupo.

Na região Sudeste, segundo o último ranking de cidades divulgado pelo Inpe, Bauru aparece na 549ª colocação em todo o Estado de São Paulo. A cidade, caracterizada com índice de média incidência, chega a registrar aproximadamente 5 raios por km² ao ano. O Inpe é considerado um dos principais centros de pesquisa sobre raios do mundo, sendo uma referência na área

Uma pesquisa realizada pelo Elat também constatou crescimento de 11% na frequência do fenômeno em cidades com população acima de 200 mil habitantes no País. As cidades com maior incidência de raios são Porto Real, no Rio de Janeiro, com 27 raios por km² ao ano e São Caetano do Sul, em São Paulo, com 22 raios por km² ao ano.

Um dos principais fatores para o aumento de raios, segundo o Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe é o aumento da temperatura local devido à urbanização e desenvolvimento dos centros urbanos.