08 de julho de 2026
Geral

Em briga familiar, rua vira refúgio

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

Conflitos familiares cada vez mais se consolidam como motivos agravantes da situação de miserabilidade em Bauru. Só no mês passado, o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Creas Pop) atendeu 438 pessoas que alegaram perambular sem destino por conta de problemas com a família. Algumas, vieram da região. Drogas, álcool e depressão pioram o quadro ? antes e depois da rua virar refúgio. Desse total, 70 pessoas reconhecer ter problemas com drogas ou bebidas.

Carlos tem 48 anos e uma história de vida que demonstra essa triste realidade. Técnico de refrigeração, ele conta que tinha um negócio próprio em Rio Preto (400 quilômetros de Bauru). Divorciado e pai de dois filhos, afirma ter perdido tudo, inclusive o contato com a família, após entrar no mundo do álcool e das drogas.

"Eu saí de uma relação conturbada no casamento e acabei me separando de toda a família. Depois disso veio a fraqueza... comecei a beber demais e usar drogas", lembra Carlos, que conta estar há três meses sem beber ou se drogar.

Sem conseguir um emprego, Carlos, atualmente, se soma à legião atendida pelo Creas Pop e pelo Albergue Noturno da cidade. Essas pessoas, geralmente, buscam ajuda para superar a falta das condições básicas de sobrevivência fora do lar.

De acordo com a Secretaria do Bem-Estar Social, responsável pelo Creas Pop, a situação exige atenção redobrada. "Essas pessoas passaram por lá na maioria das vezes por conflitos familiares ou até mesmo por conta da bebedeira. Nesses casos, acionamos os familiares", afirma a secretária do Bem Estar Social, Darlene Tendolo. No Creas Pop, a primeira assistência é oferecida até encaminhamento ao albergue, mas que muitos recusam.


?É para mendigos?

Há alguns meses morando em frente a um estabelecimento comercial abandonado, localizado na quadra 28 da avenida Castelo Branco, o casal Cleusa e Adão (só os primeiros nomes foram divulgados) conta que veio da cidade de Apucarana, no Paraná, para Bauru.
Segundo Cleusa, eles tomaram a decisão de viajar após serem roubados e terem cortado relações com a família. Alegam estar na cidade à procura de uma neta, que hoje moraria com um sogro.

"Eu não topava com minha nora e acabei me afastando do meu filho, que era mais próximo. Nossa situação era difícil e cada filho meu acabou indo morar num canto do estado. Eu até sei onde eles estão, mas não quero procurar ninguém", ressaltou a mulher.

Cleusa explica que ela e o marido não tiveram estudo e, para se sustentarem, trabalham carpindo quintais e recolhendo recicláveis pela cidade. Entretanto, devido a um problema de saúde que atingiu o casal, não estão mais trabalhando. Cleusa e Adão atualmente dormem ao relento e procuram coberturas de lojas das redondezas da avenida para se esconder em dias de chuvas.

"Quando chove, deixamos tudo aqui e vamos dormir em outro lugar. O pessoal está alugando essa loja e, quando isso acontecer, teremos que sair. Queria apenas uma casa para morar", apela a moradora em situação de rua.

Uma vizinha em frente ao estabelecimento em que o casal adotou como "lar" afirma que, por várias vezes, ofereceu ajuda. "Já ofereci banho e até para ela lavar as roupas, mas é difícil eles aceitarem", enfatizou Júlia dos Santos, 28 anos.

A vizinha diz estar desempregada, mas alega ajudá-los, sempre que pode, com alimentos. "Ofereço o que posso para eles, mas na minha situação não posso fazer muita coisa. Eu sinto uma tristeza muito grande porque eles já têm uma certa idade e ficam dormindo na rua".

Ao ser questionada pela equipe de reportagem do JC sobre a possibilidade de frequentar casas de ajuda ou um albergue, a moradora de rua apresentou resistência. "Albergue? É só para mendigos, isso nós não somos. Eu quero uma casa para morar e, depois, um emprego", ressaltou Cleusa.

A titular da Sebes, Darlene Tendolo, afirmou saber da situação do casal e ressaltou que agentes da secretaria já foram tentar ajudá-los. Entretanto, segundo Darlene, a ajuda teria sido recusada. "Nós já fomos até o local e insistimos, mas eles são pessoas resistentes. De vez em quando, aceitam uma roupa. A maioria dessas pessoas que não aceita nossa ajuda não quer enfrentar o fato da coletividade ou não quer esperar, mas temos regras no atendimento. É preciso paciência."


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?Eu acabei ficando na rua e sem nada?, lamenta mulher de 41 anos

Magali, 41 anos, morava em Agudos (13 quilômetros de Bauru), era casada e teve duas filhas, que ficaram com o pai após a separação. Ela conta que saiu de casa e logo teve depressão.

Após conhecer uma pessoa, com quem iniciou um relacionamento, Magali acabou vindo morar em Bauru. Segundo ela, após dois anos de namoro, acabou não resistindo e entrando no mundo das drogas.

Daí para frente, a mulher conta que acabou vendendo todos os móveis da casa em que morava e até mesmo as roupas do corpo para consumir o crack. Diferentemente de Carlos, Magali ainda tem contato com a família e se emociona ao lembrar dos filhos.

"Eu acabei ficando na rua, sem nada. Consigo ficar no máximo quinze dias sem o crack, mas acabo bebendo e volto para a droga. Estou na luta tentando largar, mas é difícil, dói admitir o vício. Minhas filhas ficaram muito tristes porque eu perdi muito peso depois que entrei nas drogas", desabafa a mulher.

Há três dias Magali conta que teve uma recaída e foi buscar a droga novamente. "Fiquei por dois dias no mato me escondendo da chuva em alguns túneis perto da favela São Manuel, fazendo uso de crack junto com minha companheira", revela. "Eu não posso ter nada na mão que eu fumo. Se comprar uma calça, a calça vai embora. Se comprar um celular, também fumo ele", completou Magali, que hoje depende do atendimento do Albergue Noturno e do Creas Pop.


Serviço

O que é: Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua

O que faz: Atende durante o dia na rua Cussy Junior, 13-75

O que oferece: Alimentação, vestuário, banho e orientação psicológica, entre outras atividades.