08 de julho de 2026
Articulistas

Indústria e empregos

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Discute-se muito no Brasil a questão da política industrial, sem que segmentos importantes de nossa sociedade aceitem plenamente o fato que não há desenvolvimento que se sustente num país do tamanho do Brasil sem uma indústria altamente sofisticada e capaz de enfrentar a competição externa. A economia brasileira, no seu conjunto, passa por uma fase de desaquecimento (pelas razões atribuídas à necessidade de defesa ante os efeitos da crise financeira mundial), mas ainda assim terminou o ano crescendo, enquanto a indústria enfrenta um processo de estagnação: em São Paulo, o setor deixou de criar empregos em 2011 e ainda cortou 50 mil vagas, segundo revela estudo do Departamento de Pesquisa Econômica da Fiesp, coordenado por seu diretor, dr. Paulo Francini.

É fato que o crescimento econômico não depende simplesmente da indústria. É um processo muito mais rico que envolve a atividade comercial, a expansão dos serviços em geral e a modernização dos setores mineral e agropastoril. É evidente, no entanto, que o desenvolvimento só será satisfatório se for apoiado num setor industrial altamente sofisticado, com absorção da moderna tecnologia que rapidamente se desenvolve no mundo globalizado. A estagnação da produção na indústria torna-se um problema da maior gravidade, pois o Brasil não pode se dar ao luxo de ver cair a oferta de empregos, nem hoje nem no futuro próximo.

Temos uma situação em que o consumo dos brasileiros continua crescendo e a produção interna diminuindo. Significa que estamos suprindo com importações a expansão do mercado interno de consumo. Não é um mal em si e se sustenta por que a economia agrícola brasileira alcança índices de alta produtividade e como existe uma demanda importante de alimentos no mundo, as relações de troca melhoraram dramaticamente. São situações que não vão durar para sempre e apontam para um problema de maior relevância para a economia: enquanto o consumo cresce depressa e a produção cresce mais lentamente, a indústria tem a tendência de diminuir a sua produtividade.

Seguramente nenhum país é autosuficiente. Devemos inclusive facilitar as importações desde que o câmbio esteja na posição de equilíbrio, desde que tiremos de nossos empresários os impostos corretos e desde que entreguemos ao nosso setor privado, aos consumidores, à sociedade enfim, a taxa de juros correta. Neste último aspecto estamos caminhando no bom sentido, conforme mostrou esta semana a decisão do Conselho de Política Monetária do Banco Central.

O problema da sobrevalorização cambial continua sendo o maior entrave ao desenvolvimento industrial brasileiro. Precisamos insistir na construção de uma verdadeira política industrial (como se está tentando fazer) que leve em conta as mudanças profundas que acontecem na produção manufatureira nesse processo de globalização. Elas exigem uma participação muito mais ampla da diversificação do setor produtivo e o Brasil é um dos poucos países que tem um mercado interno da dimensão suficiente para almejar a construção de uma indústria sofisticada, forte e basicamente integrada dentro de seu território.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC