09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Maria Helena Carvalho Rigitano

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 10 min

Ela se diz tímida, mas essa não é a impressão que passa, principalmente quando o assunto é Bauru e seus variados detalhes e caminhos. Arquiteta da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) há mais de 30 anos, Maria Helena Carvalho Rigitano se despede do trabalho com a sensação de dever cumprido: "Acho que trabalhei bastante, às vezes, até em prejuízo da família. Quando eu era secretária, chegava em casa à noite e ainda levava pacotes de processos para resolver. Mas acho que valeu a pena", afirma.

Com lágrimas nos olhos ao responder boa parte das perguntas, Maria Helena fala sobre algumas de suas principais obras como arquiteta na Prefeitura Municipal e lembra como tudo começou: "Eu fazia estágio como o Jurandir Bueno quando surgiu a oportunidade de trabalhar na prefeitura da cidade". Formada em arquitetura pela Universidade de São Paulo (USP), o intuito da recém-formada era continuar em São Paulo, cidade que apresentava oportunidades e onde pode vivenciar os movimentos do fim da Ditadura Militar: "Mas estava namorando com Antônio Carlos, amigo de meu irmão e também um bauruense que sonhava em voltar para a casa. Resolvi repensar minha vida. Voltamos e nos casamos", conta. Com três filhos e apaixonada por fotografia, Maria Helena, é professora de arquitetura na Unesp, e não abre mão de viagens e fazem parte do roteiro de sua vida depois da aposentadoria: "Quero fazer cursos de fotografia, pintura, caricatura e dedicar-me à família". A seguir, a entrevista.


Jornal da Cidade - A menina Maria Helena já projetava a arquitetura?
Maria Helena Carvalho Rigitano -
Sempre que eu via o seriado "A Feiticeira", eu tentava desenhar a casa dos personagens. Meu pai, quer era engenheiro, me via desenhando e um dia disse que eu levava jeito para arquitetura. Fiquei com aquilo na cabeça desde então e não me arrependo da minha escolha. Fiz faculdade na Universidade de São Paulo (USP), com um pouco de resistência do meu pai que não queria que eu fosse morar fora. Mas fui. No início da carreira eu trabalhei com arquitetura de edifício em um escritório que montei em Bauru, mas logo fui para a prefeitura, onde minha área de atuação foi praticamente toda voltada para o urbanismo.

JC - Guarda boas lembranças da USP?
Maria Helena -
Morei cinco anos em São Paulo, sempre com primas. Foi uma experiência fantástica, tanto que fiz questão que meus filhos estudassem fora para ter a vivência de saber controlar e pagar contas. Isso ajuda a amadurecer. Sempre fui muito tímida e enfrentar algumas coisas sozinha foi ótimo. Foi no fim da Ditadura Militar, então eu vi muitos movimentos sociais. Era sempre muita tensão. Acompanhei com uma certa distância, até pelo meu temperamento tranquilo. Eu participava das assembleias e estava sempre por dentro do que estava acontecendo, mas nunca participei das passeatas. Contudo, eu vivi esse movimento de mudanças e de luta pela liberdade, um período bem marcante em minha vida. Vi o Lula aparecer e nunca imaginei que um dia ele seria o presidente do Brasil. Gostei tanto de São Paulo, por causa das oportunidades, que meu intuito era não voltar a Bauru.

JC - E o que a fez mudar de ideia?
Maria Helena
- Eu passei a fazer um estágio com o Jurandir Bueno no período de férias. Quase no último ano, ele sugeriu que meu trabalho de graduação fosse sobre Bauru. Assim, passei a frequentar também a prefeitura para pegar informações para o trabalho. E o Jurandir, por gostar do meu trabalho, eu fiz um levantamento histórico da cidade, disse que eu teria a possibilidade de trabalhar na prefeitura. Por outro lado, eu comecei a namorar o Antônio Carlos, que era daqui, trabalhava em São Paulo, mas tinha vontade de voltar. Comecei a repensar minha proposta de vida e vim trabalhar na prefeitura, mesmo sem contrato, na elaboração da Lei de Zoneamento, que está em vigor até hoje. Depois de um tempo fui contratada pelo município e, como tal trabalho me consumia muito, acabei fechando o escritório tempos depois.

JC - E como teve início a sua história de amor?
Maria Helena
- Meu irmão sofreu um acidente muito sério e passei a vir com mais frequência para a cidade. Foi nessas visitas que conheci meu marido, que era amigo do meu irmão. Começamos a sair como amigos, começamos a namorar e nos casamos. Tivemos três filhos, o Henrique e as meninas, que são gêmeas, Laura e Luísa. Meu marido foi muito participativo e me ajudou muito. Era ele quem fazia supermercado e praticamente cuidava da administração da casa e das crianças, porque eu trabalhava muito mesmo. Mas acho que conseguimos fazer um bom trabalho juntos (risos).

JC - Você também tem uma história como professora universitária.
Maria Helena
- Sim. Depois de uns cinco anos trabalhando na prefeitura, eu passei em um concurso para lecionar no curso da Universidade de Bauru (UB), hoje da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A decisão de dar aulas veio com a vontade de vencer a timidez. Já faz 25 anos que leciono e também gosto muito dessa profissão.

JC - Você foi praticamente uma das fundadoras da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), certo?
Maria Helena
- Estou na Secretaria desde a sua origem. Fui secretária quando o Nilson Costa foi prefeito. Esse foi um período de valorização dos funcionários públicos, embora tenha sido difícil politicamente. Trabalhamos com o orçamento restrito, mas produzimos muita coisa. Investimos onde não precisávamos de muito dinheiro. Organizamos os camelôs do Centro da cidade e a reforma das fachadas das lojas, retirando os letreiros e caixas que as escondiam. Outro exemplo é o plano de macrodrenagem e várias obras que executadas, hoje, com recursos federais têm os projetos feitos naquele período.

JC - Em relação ao atual Plano Diretor, o que já foi feito e o que ainda precisa ser concluído?
Maria Helena
- Então, acredito que tivemos uma atuação muito grande na área da habitação, mesmo sem ter uma secretaria específica para tal área. Atuei em muitas áreas dentro da Seplan. Coordenei o Plano Diretor de 1996 e o atual, que foi aprovado em 2008. Quando terminamos o trabalho do atual plano, em 2006, vimos que tínhamos uma grande deficiência de projetos na área de habitação. Então fomos fazer um levantamento e cadastro das favelas da cidade, verificando o que era área pública, particular e o que precisava ser feito. O governo federal exigiu que os municípios tivessem planos de habitação para destinar verbas. Recebemos o recurso, preparamos o material e entregamos na Caixa, recentemente. O plano de habitação prevê 15 anos para seu término, mas ações foram e estão sendo realizadas, como o programa "Minha Casa, Minha Vida", por exemplo. Entre o que ainda falta, temos a revisão da Lei de Zoneamento, onde alguns conceitos revistos.

JC - Na sua visão, qual é o maior problema urbanístico de Bauru?
Maria Helena -
Temos um pouco de problema de drenagem, não tão sério como a gente vê em outras cidades que inundam e fica tudo arrasado. Mas temos a Nações Unidas construída sobre um rio canalizado. Na década de 1970 as pessoas acreditavam que para sanear uma cidade era preciso canalizar o córrego que recebia esgoto. Não podemos fazer uma crítica ao Jurandir, porque na época não existia essa legislação ambiental de hoje e canalizar o córrego era a recomendação. Nos primeiros anos foi a solução, mas a região cresceu e foi urbanizada, impermeabilizada... A água corre para onde tem o córrego e transborda, não tem para onde ir. Há a proposta de drenar a avenida e jogar a água no Vitória Régia, que inundaria na hora da chuva e escoaria normalmente por canal. Mas a questão é polêmica por mexer com o cartão postal da cidade e até hoje ninguém teve coragem de executar. É preciso um novo estudo para uma outra solução.

JC - Você acredita que Bauru está "estrangulada" e não tem para onde crescer?
Maria Helena
- Temos um problema ambiental muito grande. Há grande área de cerrado ao sul, e é uma vegetação que precisa ser preservada. De repente, a gente elimina e a vegetação tem, por exemplo, a cura do câncer. A gente não sabe, pois ainda há muito o que pesquisar sobre o cerrado. Temos Áreas de Proteção Ambiental (APA) no rio Batalha e cerrado, além das nascentes ao norte que precisam ser preservados. O município é cortado por rodovias que criam uma certa barreira para a expansão. De imediato, o município pode crescer internamente, onde há vários vazios urbanos. Ele também pode crescer verticalmente, há potencial para isso. E a expansão gradativa precisa ser muito bem pensada. A gente não quer que o crescimento pare, mas é preciso muito cuidado e controle por causa da preservação da água e da mata.

JC - Você sai da Seplan com a sensação de dever cumprido?
Maria Helena
- Eu saio, sim. Acho que trabalhei bastante, às vezes até em prejuízo da família. Minhas filhas são gêmeas e quando elas eram muito pequenas, eu era secretária e chegava somente à noite, quase não as via, e ainda levava pacotes de processos para resolver em casa. Mas acho que valeu a pena, mesmo assim.

JC - Disseram-me que você gosta de fotografar tudo e todos. Como é essa história (risos)?
Maria Helena
- Ah, então (risos). Desde pequena eu gosto de fotografar. No meu aniversário de 10 anos o presente que eu pedi foi uma máquina fotográfica. Não que eu seja uma grande fotógrafa, mas eu gosto muito dessa coisa de registrar o momento. Você não faz ideia da quantidade de álbuns que eu tenho, e tudo organizado por ordem cronológica. A máquina vive na minha bolsa. Esqueço o batom, mas ela, não (risos). Tive várias, fiz curso de fotografia na faculdade, aprendi a revelar e tudo...É uma atividade que pretendo desenvolver agora, com a aposentadoria.

JC - E já fotografou o mundo?
Maria Helena
- Uma coisa que eu amo de paixão é viajar. Mesmo com toda a intensidade de trabalho eu sempre dei um jeito de viajar com as crianças ao menos duas vezes por ano. Demos uma boa volta pelo Brasil e conhecemos praticamente todas as capitais. No primeiro momento priorizamos viagens que pudessem enriquecer as crianças, cidades com museus, por exemplo. Depois do Brasil, as capitais da América Latina foram os próximos destinos. Agora o restante do mundo será o destino. Antes de ter o Henrique viajamos pela Europa, Canadá, Estados Unidos, México...E viajaremos novamente para esses países. Nas viagens pelo Brasil, eu sempre dava um jeitinho de passar nas prefeituras para saber o que eles estavam fazendo nas secretarias de planejamento. Isso até virou piada na família (risos).

JC - Então as viagens fazem parte dos projetos para a aposentadoria!
Maria Helena
- Com certeza e com frequência. Eu só não estarei mais livre porque continuo mais cinco anos na Unesp. De imediato vou para a Itália ver minha filha que está por lá. Temos uma fazenda e quero organizá-la, fazer uma horta...Também quero fazer cursos de fotografia, pintura, caricatura...Meu marido também esta prestes a se aposentar, então, muitas viagens virão (risos).


Perfil:

Nome: Maria Helena Carvalho Rigitano

Idade: 54 anos

Local de Nascimento: São Paulo

Signo: Sagitário

Marido: Antônio Carlos

Filhos: Henrique, Laura e Luísa

Hobby: Gosto de cultivar, principalmente árvores com flores

Livro de cabeceira: "Cem anos de solidão", de Gabriel Garcia Marques

Filme preferido: Gosto de romance histórico

Estilo musical predileto:v MPB

Para quem dá nota 10: Aos colegas da Seplan, que se dedicam para transformar Bauru em uma cidade melhor, em especial ao Adelmo Bertussi, nossa referência

Para quem dá nota 0: Aos que jogam lixo na rua

E-mail: rigitano@faac.unesp.br