09 de julho de 2026
Polícia

Visitas são suspensas após fuga

Mariana Cerigatto com Murillo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Quinze detentos abandonaram o Centro de Progressão Penitenciária 3 (CPP3, antigo IPA), na noite da última sexta-feira, e isso resultou na suspensão de visitas de familiares aos internos durante este fim de semana por ordem da direção do presídio. Apenas um foi recapturado e 14 continuavam fora da instituição prisional até ontem.

Na Penitenciária 2, localizada no quilômetro 353 da rodovia Marechal Rondon, também teve fuga de dois detentos na sexta-feira no mesmo horário em que foi registrada a evasão dos sentenciados do antigo IPA. A informação foi confirmada ontem pelo JC em boletim de ocorrência no plantão policial.

Como consequência da fuga dos detentos, a direção do antigo IPA suspendeu as visitas. A medida gerou protestos por parte de 60 pessoas, entre esposas, mães e outros parentes, inclusive crianças de colo parentes de reeducandos, que ficaram do lado de fora do CPP desde o início da madrugada de ontem após chegarem de suas cidades de ônibus. Até o fechamento desta edição, permaneciam no local na tentativa de conseguir ingressar na entidade para visitar os maridos, irmãos e filhos, que cumprem pena na unidade, que é de regime semiaberto.

O JC conversou com pessoas que vieram de diversas cidades do interior paulista e da capital do Estado. No momento da entrevista, esses visitantes já estavam há mais de 10 horas aguardando do lado de fora. Eles alegaram não ter como voltar para casa ou passar a noite em hotéis da cidade.

Além desta situação, os próprios reeducandos entraram em contato por telefone com o JC para denunciar supostos maus-tratos e coações que estariam sofrendo. "Nós estamos sem colchões, sem lençóis, sem roupas para trocar e não deixam nossos parentes entrar", queixou-se o reclamante, sem revelar o nome completo. "Além de nos ameaçarem, dizendo que o ‘choque’ (unidade da PM) vai entrar, estão mandando de volta coisas que nossos familiares enviam por correio", completou.

A Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) informou por meio da assessoria de imprensa que a medida da suspensão das visitas é disciplinar e de competência da diretoria aplicá-la. O abandono de um grupo de 15 reeducandos, segundo BO, ocorreu na unidade prisional por volta das 20h40 na sexta-feira. Para deixar o local, os internos teriam saltado os alambrados da praça de esportes. De imediato, foi dado o alarme e comunicado os fatos à chefia de vigilância, mas não foi possível evitar a fuga.

No entanto, agentes penitenciários conseguiram impedir a saída de um dos reeducandos, identificado por Robert Christian Frigo Grella, de 26 anos, sendo reconduzido ao estabelecimento. Mas outros 14 conseguiram escapar. A primeira informação atendida pela polícia após ligação do próprio IPA foi de que seriam 17.

Durante contagem dos detentos, os agentes do CPP 3 constataram que uma das grades das janelas do banheiro que integram alojamentos estava serrada.

 

Varredura

O Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) foi acionado pela unidade por volta das 21h no dia da evasão. Entretanto, segundo o JC apurou no local, a ausência dos condenados já teria sido percebida no final da tarde, por volta das 18h.

A SAP foi questionada ontem para responder se houve atraso na comunicação da ocorrência à Polícia Militar, mas informou em nota que deve responder este e outros questionamentos apenas amanhã.

A PM acionou dezenas de policiais nas buscas e utilizou o helicóptero Águia para fazer varredura nas imediações, mas não conseguiu localizar na sexta-feira os detentos.

 

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Indignados, parentes ficam sem ter acesso

A cena por volta das 10h30 de ontem, defronte ao portão principal de CPP, era de total indignação. Cerca de 60 pessoas, vindas de outras cidades, muitas delas da Capital, mesmo depois de enfrentarem horas de viagem, ficaram desde as 2h da manhã no local, "acampadas" no chão. Muitas mulheres, nem todas jovens, estavam com bebês de colo. Um deles, de apenas quatro meses, dormia em um colchão, no chão.

Em meio ao calor e sem se alimentar, a situação era de indignação e desespero. "Nós viemos porque hoje (ontem) é dia de visita e nada nos foi avisado sobre esta suspensão. Nós chegamos aqui de ônibus no início da madrugada de sábado sem saber o que estava acontecendo", relatou a enfermeira Michele de Oliveira, de 29 anos, vinda de São Paulo para visitar o marido.

"Gastamos o que não poderíamos gastar e não nos foi permitido entrar na unidade. Trouxemos alimentos, roupas, carregamos tudo isso até aqui para ficarmos do lado de fora", disse. "É uma humilhação. Não temos onde ficar em Bauru", afirmou a enfermeira, que chegou a chorar diante o "beco sem saída".

A auxiliar de secretária Agne Assunção, 22 anos, também veio de São Paulo para visitar um familiar. "Gastei R$ 400,00 e estou com minha filha de dois anos, Mirela. A gente chegou a entrar para fazer revista, mas de repente fomos avisados de que a visita estava suspensa."

"Não é justo. Uma parte se evadiu, mas outra parte, não", disse inconformada a designer de interiores Viviana Freitas, de 38 anos.

 

Reclamação de maus-tratos

A fuga pode ter sido motivada por suposto maus-tratos que os internos estariam sofrendo no CPP 3 alegam familiares dos detentos. As denúncias recaem sobre a diretoria da unidade, que ontem não foi localizada pelo JC.

"Nós estamos sem colchões, sem lençóis, sem roupas para trocar e não deixam nossos parentes entrar", queixou-se um dos internos, que preferiu não se identificar. "Um dos reeducandos, inclusive, teve as pontas dos dedos de uma das mãos cortadas em um acidente de trabalho. As condições são péssimas", denunciou uma mulher. "Estão criando verdadeiros monstros. Por isso mesmo acho que um grupo resolveu se evadir", apontou a enfermeira Michele.

A irmã de um dos reeducandos ligou para o JC de sua residência, em São Paulo, para afirmar que iria fazer uma denúncia formal contra as condições do CPP e supostos maus-tratos. "Estou denunciando o antiga IPA de Bauru (atual CPP 3) por trabalho escravo," declarou.

 

P2 também tem registro de fuga

A Penitenciária 2, localizada no quilômetro 353 da rodovia Marechal Rondon, também registrou evasão de dois presidiários na última sexta-feira - e também por volta das 20h40 (mesmo horário em que foi registrada a evasão dos sentenciados do antigo IPA). João Genésio dos Reis, de 30 anos e Helber Ramos dos Santos, de 23 anos, cumpriam pena na unidade mas fugiram do local escalando o alambrado, utilizando uma corda artesanal, segundo descrito em boletim de ocorrência (BO).