08 de julho de 2026
Cultura

Caminhos do passado

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 4 min

Elas abrigam um imenso valor histórico, guardam a história de Bauru e de personalidades e se misturam em meio às edificações mais modernas, mas passam, em sua grande maioria, despercebidas pela população. Trata-se das edificações tidas como patrimônio histórico e cultural da cidade, que ficam na região central. Todos os dias, elas são vistas por centenas de pessoas que não sabem de seu valor histórico.

E, justamente pensando em resgatar a história de cada um desses locais, que foram tão importantes no surgimento e no desenvolvimento urbano da cidade, que o professor de história Fábio Paride Pallota, também membro do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac) de Bauru, levantou 12 pontos da região central, que são construções tombadas e devem ser preservadas e visitadas.

"A proposta é oferecer para a população este roteiro. Através dele, as pessoas teriam a chance de visitar as primeiras construções de Bauru e conhecer a história do município", apontou Pallota. "O roteiro foi idealizado e feito por mim. O professor Danilo Gomes mapeou estes pontos através do Google e os numerou", explicou.

A maioria dos imóveis e edificações mapeados é da década de 20 e 30 (veja os 12 locais através do infográfico ao lado). A Casa dos Pioneiros, também chamada de "Casas Geminadas" por exemplo, é um dos primeiros exemplares de residência da cidade. Como o Jornal da Cidade já publicou, o imóvel, que fica na rua Araújo Leite, carrega um valor cultural de extrema importância para a história do município, sendo considerado um verdadeiro testemunho do primeiro eixo urbano de Bauru. As casas eram chamadas de "geminadas", pois eram divididas e abrigavam mais de uma família.

Outro ponto identificado por Pallota é o Automóvel Clube, que fica na rua Primeiro de Agosto. Quem passa por ele nem imagina que ali se reuniam diversas autoridades, que tomavam decisões importantes sobre o município. Outro prédio que merece ser lembrado é o da Casa Ponce Paz. Construído na década de 30, o local chama a atenção pelas suas pinturas internas espalhadas pelos cômodos feitas pelos irmãos Ponce, artistas plásticos famosos da época.

"A expansão urbana de Bauru acontece a partir da Araújo Leite e depois se espalha em direção à ferrovia, à estação central. Os pontos mapeados são os primeiros exemplares de ocupação urbana de Bauru", aponta Pallota. "A estação central, por exemplo, traduz o que Bauru é hoje. Ela também marca o poder de Getúlio Vargas e sua influência no Interior de São Paulo. Inaugurada em 1939, podemos dizer que a obra era algo grandioso para a época. Cabia a população inteira dentro da estação", afirma Pallota, que ministra aulas no Ensino Médio e disciplinas na Universidade do Sagrado Coração (USC), ligadas à história e patrimônio histórico. "Sempre utilizei este roteiro com meus alunos. Passamos pelas construções e explico a importância de cada uma delas", comentou o docente.


?Falta cultura de preservação?

Para serem valorizadas e reconhecidas, as construções que são tidas como patrimônio precisam ser preservadas. "No Brasil, não temos uma cultura de preservação do patrimônio, mas todos nós queremos preservá-lo, só que a partir do Poder Público. Os proprietários desses imóveis precisam preservar a fachada e o interior, assim como a população", salienta o professor de história Fábio Paride Pallota, que também é membro do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac) de Bauru.

"Dentro disso, acredito que seja uma tarefa dos órgãos de comunicação mostrarem a importância desses patrimônios à população. Porque o que não se conhece não se respeita", frisa. Para estimular a preservação por parte do proprietário, existe um projeto de lei municipal. Trata-se do projeto nº 006/11, que concede isenção parcial no imposto predial e territorial urbano (IPTU), para os imóveis tombados no município de Bauru.

"Essa lei possibilitaria isenção de 50% a 75% no IPTU para o proprietário que fizesse a conservação adequada do imóvel tido como patrimônio", discorreu Pallota. O projeto de lei já foi encaminhado à Câmara de Vereadores, mas foi devolvido à prefeitura em fevereiro do ano passado após receber parecer com pedido de informações e adequações ao texto assinado pelo vereador José Roberto Martins Segalla, integrante da Comissão de Justiça, Legislação e Redação.

Agora, após longa tramitação interna em várias pastas na Prefeitura, como o Departamento Jurídico, Finanças e Cultura, o projeto deverá ser reencaminhado à Câmara no mês que vem. Pelo menos essa é a expectativa do secretário municipal de Cultura, Elson Reis. "A longa tramitação deveu-se à necessidade de adequação aos vários pareceres. Falta encaminhar ao Codepac para que o conselho elabore os critérios técnicos relativos à proposta e, posteriormente, o prefeito Rodrigo Agostinho possa reenviar ao Legislativo até fevereiro, antes do início das campanhas eleitorais", ressaltou o secretário.