A história de Léa é também a história de suas filhas Carolina e Juliana, de seus netos Marcela, João Francisco e João Henrique, de seus genros, de seus parentes e amigos e, muito em particular, de Carmo Chagas, seu marido e autor deste livro tão pessoal e tão coletivo - "Feliz de Outro Jeito, uma história de sofrimento e superação".
Não se assuste o leitor com a dor que todas essas pessoas viveram, porque Carmo Chagas, mineiro de Inhapim, cumpriu nas últimas páginas a promessa feita logo nas primeiras linhas. Anunciou que estava escrevendo uma história de amor com final feliz, adiantando o desfecho, aliás já presente no título - e fez exatamente isso.
Nada de suspense, porque em meio a tanta dor, aflição e lágrimas, a garantia de que tudo terminaria bem anima o leitor a compartilhar sentimentos e solidariedade, na certeza de que essa reportagem pungente traz uma mensagem de esperança e vida. Reportagem, porque Carmo escreveu como um profissional, com inevitável envolvimento emocional.
Nem poderia ter sido diferente. "Feliz de Outro Jeito" parece até escrito a quatro mãos, tamanha a identificação entre autor e personagem, como se Léa estivesse ditando cada palavra, revelando pensamentos, lembrando imagens recônditas, abrindo o coração para agradecer e comemorar uma vitória inestimável - Léa sorrindo na alegria de ter vencido a morte que passou tão perto dela.
Foram 66 dias de internação, uma retroca de válvula no coração, duas paradas cardíacas, uma semana de coma, duas amputações, mais de 40 dias na UTI, tudo isso nos últimos meses de 2007, passando o aniversário, o Natal e o ano-novo no hospital.
Quadro extremamente grave, cheio de sobressaltos, que Léa conseguiu superar porque, além da competência dos médicos, enfermeiras, fisioterapeutas e outros profissionais da área, ela tinha uma invejável reserva de saúde, como observou um amigo cardiologista.
Tinha também um otimismo inacreditável. Sabia e repetia que não ia morrer, mesmo nas horas difíceis, quando tudo a seu redor apontava para a pior das hipóteses - exames e aparelhos abalando perspectivas de recuperação. Ao recobrar a consciência no leito do hospital, Léa sorriu o seu belo sorriso, confiante e vitoriosa, na certeza de que a vida continuava.
"Até hoje fui feliz de um jeito. Daqui para a frente, vou ser feliz de outro jeito", disse Léa ao saber que ia amputar os pés. Essa frase, que inspirou o título do livro, resume bem a história de superação e retrata a disposição de uma mulher que não se deixou dobrar, mesmo quando a doença lhe aprontava surpresas como essa.
Confiança sem limites
Os três primeiros capítulos são pesados, descrição minuciosa dos dias de incerteza, entre uma operação e outra, os médicos realistas dando esperança, mas sem prometer a cura. Todos choram muito, sobretudo Carmo e as filhas, contando com o apoio de amigos e parentes que com eles misturam suas lágrimas. Todos, mas nem sempre Léa. Até nas horas mais críticas, ela era capaz de sorrir sob uma máscara cirúrgica, entre o quarto e a sala de operação.
O capítulo quarto é um respiro de alívio. Lembrando a comemoração de 40 anos de casamento, Carmo revela como descobriu Léa em 1968, paixão aos primeiros olhos. Começaram a namorar no dia 7 de junho, ficaram noivos em 7 de setembro, casaram-se na tarde de 7 de novembro. Carmo era o sétimo da fila de pretendentes de Léa, mas ganhou a corrida. "Vamos casar?", foi ela quem pediu a mão de Carmo.
Depois de muitos relatos emocionantes sobre o processo de recuperação de Léa - a cadeira de rodas, as próteses ortopédicas, os primeiros passos com a ajuda da bengala, os rodopios ao ritmo de uma tarantela na pista de dança, o pequeno milagre de voltar a usar colher e garfo para comer sozinha... - o final feliz culmina na última página, antes dos depoimentos de Juliana e Carolina, quando Carmo descreve a beleza da mulher caminhando a seu encontro numa estradinha de São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira.
"Você acha que eu ia ficar fechada naquele quarto? De jeito nenhum! Peguei minhas próteses, botei minha roupa e resolvi sair para encontrar você, na casa da Ju. Meu plano é ir andando até lá. Você vem junto?" Era Léa emocionando Carmo mais uma vez, andando de manhãzinha em direção dele "num vestido longo, de malha, a bengala acentuando a elegância natural do porte...".
O texto enxuto do jornalista comemora, na frase final, a alegria de estarem vivos, felizes, juntos - em circunstâncias cada dia mais promissoras. Segura de seus passos, Léa trabalha em sua loja de artigos brasileiros, coisas de Minas, com relativa independência e confiança sem limites. Nos próximos meses, voltará a dirigir - o prazer ao volante de um carro em percursos de curta distância.