07 de julho de 2026
Cultura

Recordar é viver

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 4 min

Quem não se lembra de ter assistido à "Lua de Cristal", com Xuxa Meneghel, ou mesmo "Titanic", com Leonardo Di Caprio, o filme dos Trapalhões e muitos outros que marcaram a década de 80 e 90? Nesta época, esses eram alguns dos filmes que "bombavam" as telas do período de auge do Cine Bauru. Mas, agora, quem passa pelo cruzamento da rua 13 de Maio com a Cussy Júnior, se depara com o antigo cinema da cidade praticamente demolido por completo.

No último domingo, um guindaste interditou o local para auxiliar na derrubada da cobertura de madeira. O processo de derrubada ocorre desde meados de dezembro. Agora, o que restaram são lembranças e saudades de uma época que ficou marcada na história da cidade.

O antigo e tradicional Cine Bauru já foi programa preferido de muita gente. Apesar da demolição, as memórias de quem freqüentou o antigo cinema da área central da cidade sobrevivem. "Era sempre o mesmo programa: a gente ia ao cinema, comprava os ingressos. Aí era só comprar aquela Coca-Cola com pipoca e assistir ao filme. Depois, ao sair do cinema e para completar o passeio, bastava tomar um sorvete na Creola, que ficava bem em frente", recorda a atriz e diretora de teatro Madê Corrêa.

Ela, assim como várias outras pessoas, vinham da região para prestigiar o cinema de Bauru, que era o programa "do momento". "Eu vinha de Agudos. Na época, meu filho era pequeno. Lembro-me que a gente não perdia um desenho da Disney: toda vez que lançava um, a gente corria para assisti-lo no Cine Bauru. Era a mesma coisa com os filmes da Xuxa, dos Trapalhões. Ir ao cinema, naquela época, era o dia de festa, o programa principal da semana", conta.

As filas para conferir os filmes em cartaz dobravam a esquina. "Às vezes, era preciso chegar uma hora mais cedo. Havia até um estacionamento do próprio cinema, que era baratinho", relata Madê. O estilo de "cinema antigo" também não sai da memória. "Me lembro daquela cortininha que tinha. O prédio era parecido com os grandes cinemas de São Paulo, era bem tradicional", aponta. "É uma tristeza imensa ver que o local foi demolido. O prédio poderia ter sido comprado pela prefeitura, poderia ter sido utilizado para fins culturais", lamentou Madê.


Mais lembranças

Outro frequentador assíduo do antigo Cine Bauru foi o próprio secretário de Cultura, Elson Reis. "A minha iniciação do cinema foi naquele prédio do Cine Bauru. Tenho várias boas lembranças de lá", conta o secretário. Elson discorre sobre o tempo de auge do Cine Bauru, em que o estabelecimento promovia semanas temáticas de filmes, como de terror e aventura. "Nas férias, eu me lembro de ter ido na "Semana do Terror". Houve uma vez em que assisti sozinho ao filme "O Exorcista". Difícil foi voltar para casa depois", brincou.

O estabelecimento também chegou a ser utilizado pela Casa da Cultura, que promovia sessões alternativas de filmes cult, segundo Elson. Na década de 90, conforme explica, a chegada de um shopping na cidade e novas salas de cinema teriam contribuído para enfraquecer o Cine Bauru. "Começou uma certa competição com o shopping. A facilidade de assistir filmes em casa, a disseminação de fitas VHS também contribui para a queda da popularidade do cinema. Hoje, com a facilidade de acesso que temos aos filmes em casa, muita gente deixou de freqüentar o cinema", alegou.

"Agora o que fica é a saudade. Quando tínhamos um cinema na área central, era muito fácil das pessoas chegarem, era mais acessível", finaliza a atriz e diretora de teatro Madê Corrêa.


Inauguração foi em novembro de 1980

Segundo o jornalista Luciano Pires, o Cine Bauru foi inaugurado em 22 de novembro de 1980. Mas o primeiro cinema de Bauru funcionou na rua Primeiro de Agosto e surgiu na cidade no ano de 1938. "Lembro-me dos filmes que passavam em forma de capítulos, os seriados, assim como os filmes de destaque", recorda Luciano. "Quando encerraram as atividades, fizeram uma sessão gratuita. O Cine Bauru na Treze de Maio veio bem depois", explicou.

O prédio que abrigava o Cine Bauru é propriedade privada e, apesar do JC não ter conseguido falar com o proprietário do local, sabe-se que ele quer vender o terreno, já que os possíveis compradores interessados no imóvel não levaram a ideia adiante em virtude dele ter sido construído especificamente para o cinema, o que demanda gastos para reformas adicionais. Isso justificaria a demolição.