08 de julho de 2026
Nacional

Obras eram polêmicas antes da queda


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Rio - Apontada por especialistas e dirigentes do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ) como uma das possíveis causas do desabamento do Edifício Liberdade, as obras promovidas pela Tecnologia Organizacional (TO) no terceiro e no nono andares do prédio eram fonte de polêmica muito antes da tragédia. O condomínio já havia pedido explicações à TO sobre as intervenções que estavam sendo realizadas. Havia preocupação em relação ao entulho e ao peso que o material de construção guardado nas salas da empresa exercia sobre a estrutura do prédio.

Contratado pela TO, o engenheiro calculista Paulo Sérgio da Cunha Brasil elaborou um laudo limitando-se a informar ao síndico Paulo Renha que os quatro sacos de cimento armazenados no terceiro andar não apresentavam risco à estrutura. Ele negou tem qualquer participação na obra e disse que não foi contratado para fazer avaliações no nono andar.

"Havia um questionamento do síndico se aqueles quatro sacos de cimento poderiam provocar dano à estrutura. Eu falei que esse era o peso equivalente a duas pessoas se cumprimentando. Pensei até que era brincadeira. Isso não pode, evidentemente, causar nenhuma avaria", explicou o engenheiro. Cada saco de cimento pesa 50 quilos.

Cunha Brasil destacou que não chegou a identificar um engenheiro responsável pela obra no local. Ele também disse ter achado estranho que Renha não tenha apresentado questionamentos sobre uma parede que ele viu sendo erguida no terceiro andar. "Isso o síndico não questionou. E a parede é mais pesada que os sacos de cimento", disse.

Ainda segundo o engenheiro, todos os pilares do Edifício Liberdade eram externos. Não havia pilares ou vigas no meio das lajes do prédio. A eventual remoção de parede interna, portanto, não provocaria abalo na estrutura do edifício. "Todos os pilares são externos. No meio da laje, não tem pilar e não tem viga. Era uma laje plana", explicou.

Procurado, o advogado Geraldo Beire Simões, que representa o síndico do edifício Liberdade, não retornou as ligações. À TV Globo, ele informou que o laudo sobre as obras no nono andar ainda estavam sendo aguardados.

Em entrevista coletiva concedida ontem, Sérgio Alves, um dos sócios da TO, alegou que as obras no nono andar tinham começado há apenas oito dias e reconheceu que o laudo pedido pelo síndico não tinha sido entregue, pois o engenheiro Cunha Brasil precisou resolver problemas pessoais.

O sócio disse que o síndico foi comunicado e que recebeu uma autorização verbal para iniciar a reforma e entregar o laudo em até 15 dias. Segundo ele, começou então o trabalho de derrubada de paredes divisórias de um banheiro e de retirada de entulho - 80% do material já havia sido removido.

Alves reafirmou que o tipo de reforma realizada era de adequação e que não interferiam na estrutura e na fachada do prédio e que, por isso, não havia necessidade de autorização da Prefeitura.

"O andar é sustentado pelas pontas. Praticamente todos eram vãos livres", afirmou o sócio da TO. Ele reconheceu, no entanto, que foi feita uma abertura de janela do 10.º andar, o que não é permitido, argumentando que outros condôminos já haviam feito o mesmo - inclusive o síndico.

"Nós éramos os inquilinos mais caprichosos. Não quero ser injusto, como acho que estão sendo comigo", disse ele, após citar que havia outras obras em andamento no prédio.

Também ontem, o auxiliar de pedreiro Alexandro da Silva Fonseca, que ganhou notoriedade por ter sobrevivido ao colapso do prédio se escondendo dentro do elevador, confirmou ter derrubado quatro paredes para a realocação dos banheiros no nono andar do edifício.

Fonseca destacou, no entanto, que os pilares e as estruturas de concreto do andar foram mantidos de pé.

O delegado titular da 5.ª DP (Centro), Alcides Alves Pereira, que dirige o inquérito criminal sobre a tragédia, informou que os responsáveis pelo colapso dos prédios vão responder por desabamento qualificado, cuja pena vai de dois a quatro anos.

 

Mortos localizados

Rio - O décimo quinto corpo foi localizado pelos bombeiros nos destroços dos três edifícios que desabaram na noite da última quarta-feira, no centro do Rio.

Apesar da chuva, que começou a cair com mais força por volta das 20h de ontem, o trabalho prossegue sem interrupção. À noite os bombeiros localizaram o que seria o subsolo do Edifício Liberdade, onde estava o corpo de uma das vítimas. O 15.º corpo foi encontrado minutos depois, no local onde estava o edifício Colombo, de dez andares, que possuia uma agência bancária no térreo.

Na parte da tarde, foram encontrados diversos cofres, que seriam dos caixas-eletrônicos. Apesar de ter transcorrido 48 horas do acidente, ainda há fumaça no local. O trabalho dos bombeiros deve se estender até amanhã quando a área será liberada para a prefeitura.

 

TJRJ suspende prazos processuais para advogados

Rio - O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) vai suspender os prazos processuais das causas dos advogados que trabalhavam e mantinham escritórios nos três prédios que desabaram. Grande parte das mais de 60 salas funcionava como escritório de advocacia.

Em nota, o TJRJ explica que quer evitar mais prejuízos aos profissionais da área, além da perda de documentos e outros pertences. A medida também vale para os advogados que comprovarem que têm escritórios nas áreas interditadas próximas ao local do desastre. Nesse caso, a suspensão de prazos vale apenas para o período em que a interdição continuar, o que, segundo o TJRJ, não pode durar mais do que 30 dias.

Ontem, secretário de Conservação do Município do Rio, Carlos Roberto Osório, disse que a Guarda Municipal e técnicos da prefeitura estão se reunindo com síndicos dos prédios vizinhos aos que desabaram para definir as prioridades para quem precisar entrar nos edifícios e recuperar documentos ou equipamentos.

 

Desabamento e Copa-2014

Rio - O secretário Carlos Roberto Osório (Conservação dos Serviços Públicos) classificou de "estapafúrdia" a relação que a imprensa internacional está fazendo entre o acidente no Rio e a suposta falta de infraestrutura da cidade para sediar grandes eventos, como a Copa e as Olimpíadas de 2016.

Jornais como o "New York Times" disseram que o "acidente mostra a incapacidade das autoridades em melhorar a infraestrutura da cidade para a Copa e as Olimpíadas". A "BBC" de Londres também seguiu a mesma linha do jornal americano. "Não tem nada a ver. O que ocorreu aqui foi um acidente com um prédio", afirmou Osório. De acordo com ele, a cidade está totalmente preparada para os grandes eventos internacionais.

O local onde desabaram os três prédios passou a ser rota turística para alguns grupos de estrangeiros.