08 de julho de 2026
Geral

Do benzedor ao cientista, uma só fé

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 6 min

No fundo da casa simples na região do Jardim Terra Branca, emerge de um pequeno cômodo, com paredes de madeira, um exemplo de devoção que, apesar da humildade ao redor, resiste ao tempo.

Até hoje, desde o tempo de nossos avós, os populares benzedores e benzedeiras sempre foram o alento tanto para religiosos quanto para quem não frequenta muito a igreja, mas, a exemplo dos mais fervorosos, utiliza algo fundamental para a cura: crer.

É nessa "ciência" em que "seo" Mathias Rodrigues de Miranda, 94 anos ? 82 deles dedicados às orações e ao preparo de chás com ervas curativas ? se baseia para, garante ele, "fazer somente o bem".

É no pequeno quartinho ao fundo da casa que seo Mathias se concentra e louva junto a um altar com dezenas de imagens sacras em prol das pessoas que, volta e meia, faça chuva ou faça sol, batem ao se depararem com o pequeno portão que guarda a casa.

Em frente à residência, uma bandeira de pano com três cruzes vermelhas lado a lado, pendurado na área evidencia que ali mora alguém com habilidades especiais.

Nascido em Juazeiro, na Bahia, Mathias veio ainda menino trabalhar nas lavouras de Marília. Desde a infância no Nordeste aprendeu a se conectar com santos e com Deus, garante, insistindo: "apenas para fazer o bem", reitera.

A vocação trazida para Bauru, assegura o velho benzedor, já surtiu em curas milagrosas de diversas doenças, até mesmo, diz Mathias, o que ele acredita ser os sinais do incurável até hoje pela ciência em duas jovens. "Em duas meninas foi curado o HIV. Uma das meninas estava um palito de fósforo de magra", descreve Mathias, que garante: "Aprendi sozinho. Para fazer o bem", insiste, perante as imagens "ecumênicas", envolvendo desde o Padre Cícero, São Jorge até Nossa Senhora Aparecida.

Concentrado, Mathias pede aos céus a cura do joelho de João Roberto, motorista do carro da reportagem, que aproveitou a deixa para benzer a perna, operada há dois anos.

Desconfiado do repórter desde o início (só topou dar entrevista em consideração ao repórter fotográfico Malavolta Jr., a quem diz estimar de longa data), o velho benzedor pede para que o motorista retorne na próxima semana, para buscar um preparado a ser utilizado no tratamento do joelho. "Você volta semana que vem aqui, mas não para fazer reportagem", pede.

Após alguns minutos de conversa, no entanto, seo Mathias abre o coração e sorrisos para todos. Agradece a atenção do jornal e justifica a desconfiança de início, com direito a cadeado no portão e negativas de entrevista. "Terão muita inveja de mim com isso", acredita.

Mathias, no alto da fé, que, garante ele "pode fazer tudo", se diz perseguido por representantes de outras crenças, que, segundo o benzedor, querem o mau.

Ele não disfarça o sofrimento que alega sentir, como se o velho benzedor absorvesse todos os males de quem o procura e, como toda esponja que fica com a sujeira de quem se banha, também precisa se "retorcer" sobre a água, se limpar.

Quem conhece o benzedor de outras épocas jura: já o viu cair no chão após "transes" violentos em benzimentos por curas. Mathias alega já ter ajudado a tirar espíritos de pessoas "carregadas", mas, no fundo, garante, o processo é simples, mas não menos poderoso do que qualquer outro ritual. "Tenho que receber o que Deus manda. A fé pode tudo. Não vim ao mundo por acaso", sintetiza.


Passe livre para a fé

Independentemente ao sincretismo do benzedor ou ao aprofundamento no estudo da doutrina espírita, Bíblia Sagrada, sacramentos católicos ou nuances de qualquer outro dogma, a fé, para quem lida diariamente com os anseios de si mesmo e alheios, deve ser respeitada independentemente às crenças.

Richard Simonetti, escritor espírita e presidente durante mais de 30 anos do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), é um dos estudiosos que assegura o poder curativo da fé. "Jesus curava apenas com a imposição das mãos", detalha, justificando os passes nos centros espíritas. "É a transmissão de energia magnética. Contamos com a ajuda dos espíritos", confia. "A fé é importante para que a pessoa esteja aberta, estabeleça uma sintonia", acrescenta.

Já o padre Luiz Antônio Lopes Ricci, pelo lado católico, além de também louvar o poder de Cristo junto aos enfermos, valoriza também as habilidades humanas na busca pela cura. Afinal de contas, salienta o clérigo, a ciência também é fruto da intervenção divina. "Essa visão fundamentalista que separa fé e ciência é errada. Temos a ciência a favor da vida e precisamos utiliza-lá, mas com o olhar da fé", ressalva.

O padre pondera apenas sobre a questão do sincretismo religioso (mistura de crenças em determinados rituais). Para ele, o amadurecimento "refina" a fé. "Não me refiro a uma ou outra crença em específico", garante. "O sincretismo é algo inerente à própria cultura brasileira", compreende o padre.

O clérigo acredita que, conforme a fé se amadurece, uma ou outra vertente religiosa torna-se mais forte, com a "mistura" de crenças diluída gradativamente.]


A convicção salva vidas

Acreditar, independentemente às diferenças nas convicções religiosas, ou até mesmo aos limites em que a medicina ainda tem a superar, é a receita para superar os desafios impostos pelos males.

Para o psicólogo cognitivo Arnaldo Vicente, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC) de Bauru, o pensamento, por si só, gera movimentos, com reações emocionais e biológicas.

Utilizada de formas positivas, a mente pode tornar as pessoas acometidas por algum problema de saúde menos vulneráveis às doenças que sofrem. "Em primeiro lugar, é preciso lembrar que religião não se discute", observa o terapeuta.

Experiente no tratamento auxiliar de pessoas que lutam contra o câncer, ele atesta que o pensamento positivo é um instrumento poderoso no combate às doenças. "O tipo de atitude perante os problemas torna o corpo tanto mais quanto menos vulnerável", salienta.

O psicólogo embasa o raciocínio ao citar uma das mais reconhecidas obras que enfatizam o poder do pensamento positivo, seja qual for a religião de quem está na luta pela cura, contra as doenças.

No livro "Podemos dizer Adeus mais de uma Vez", o médico norte-americano David Servan-Schreiber conta como contrariou colegas de jaleco que lhe davam, no máximo seis meses de vida ao ser diagnosticado com um tumor agressivo no cérebro.

Ele sobreviveu por mais 19 anos, estudou intensivamente para descobrir como poderia contribuir para a própria cura e criou um programa anticâncer baseado em evidências científicas, transformadas em livro, premiado internacionalmente pelo sucesso no ganho de tempo contra a devastadora doença e transmissão de esperança. "É preciso crer para ver", desvenda o padre bauruense Luiz Ricci.