09 de julho de 2026
Geral

A liberdade na Confraria das Vicentinas

Heliana DeWeese,Especial para o JC
| Tempo de leitura: 5 min

Engana-se quem acha que a vida fica sem graça aos 60 anos ou que acaba a motivação. Deixando de lado as dores lombares, os calores da menopausa ou o ranger da artrite nas juntas, é mais do que possível curtir o que a vida reserva de melhor para esta fase: liberdade. Filhos criados, aposentadoria e tempo livre para dedicar-se a si mesmo. Quem consegue chegar a esta etapa como a irmandade das ?Vicentinas? não pode reclamar de solidão.

Elas já chegaram aos 60 ou estão prestes a chegar lá. São em 15 e estão juntas desde 1986, portanto, já se vão 26 anos de amizade, companheirismo, solidariedade, muitas gargalhadas e diversão. Quem são elas e o que tem em comum, além de serem mulheres? Tudo.

Mas o que tem de especial esse grupo de amigas que se conheceu através da educação? Todas são professoras. Hoje a maior parte delas está aposentada, mas o especial fica por conta da atitude. Fazer a vida ficar mais leve, encontrar beleza na simplicidade dos pequenos gestos e maximizar momentos de alegria fica muito mais fácil em boa companhia.

Maricy, Mazé, Neusa, Cinyra, Rosa Espanhola, Tetê, Elô, Ana Maria, Heloise Helena, Ana Francisca, Renata, Catatao, Ju, Susu e a Cida Comadre são as protagonistas de uma história comum que ficou diferente. O grupo começou pequeno e foi aos poucos se juntando, a princípio para o chopinho da sexta-feira. Os encontros foram ficando frequentes e quando se deram conta, estava formada a confraria, que acabou batizada por Ayrton Pereira Mendes, marido de Cinyra, de ?Vicentinas?, em alusão à casa de idosos da conhecida Vila Vicentina. Conta ela que um dia ao sair para um dos encontros, disse ao marido: "vou sair com as meninas", ao que ele emendou "estão mais para vicentinas do que para meninas".

Na mesma noite, entre gargalhadas e um chope e outro, sacramentou-se o nome do grupo, que se formou naturalmente, diante da leal amizade que consolidou um compromisso.

Desde então, os encontros mensais acontecem infalivelmente onde tiver boa música, comida saborosa ou outra atração interessante. Essas meninas estão sempre em busca de um novo cenário para se reunirem. São mais de duas décadas de convivência, fortalecendo os laços das amigas que estão presentes na vida uma da outra para o que der e vier. "É como um casamento", definem elas. Na tristeza e na felicidade, na alegria e na dor. Juntas passaram por bons e maus momentos. Viram os netos nascer, trocaram ideias sobre a vida, resolveram problemas e se deram as mãos. Acometida por um câncer, Mazé atribui com certeza, grande parte de sua recuperação ao apoio e ao carinho das fiéis amigas, que se revezavam na assistência e se desdobravam com desvelo, ajudando-a a passar pelo difícil pedaço.


Inusitadas

Inusitadas e sem preocupação com o tempo que já se foi, o compromisso das ?vicentinas? é viver o presente, buscando desfrutar com simplicidade da plenitude da maturidade na solidez de uma longa amizade. Juntas já fizeram muitos passeios, viajaram aqui dentro e lá fora e a próxima aventura será a Europa, excursão que planejam para março próximo.

As amigas entraram 2012 retomando uma proposta que o grupo vem adiando há anos. Querem doar o tempo também para outros grupos e propõem fazer isso levando alegria e conforto para quem precisar. Isto quer dizer uma programação anual de visitas periódicas, que pretendem fazer às instituições assistenciais, hospitais e entidades da cidade que de alguma forma desenvolvem programas sociais.

Vaidosas como toda mulher, mas de bem com a vida e com elas próprias, apreciam sem exagero a aparência. O batom não pode faltar no trato geral, mas o que elas querem mesmo é diversão. Quando se juntam é para curtir bons momentos de descontração. Gostam de dançar, de contar piadas e conhecer um barzinho novo está sempre no roteiro.

Diferenças, com certeza aparecem vez ou outra, mas que sempre se resolvem na hora. O trato é nunca se despedirem com pendências. Reside-se aí o segredo da união de largo tempo. Em resposta uníssona, todas elas atribuem ao respeito a longevidade do relacionamento.

Faz bem para o coração

Amizade faz bem ao coração. O cardiologista João Quialheiro confirma que "manter laços de amizade e relacionamentos verdadeiros, atenuam a possibilidade de depressão, que está associada ao aumento do risco de desenvolvimento de doença cardiovascular e também à maior mortalidade nos casos onde a doença já se desenvolveu".

Segundo o médico, "as pessoas solitárias tendem a ser mais depressivas e estressadas, ao contrário daquelas que se sentem queridas e amparadas por amigos e familiares. Como se sabe, o estresse é considerado um dos principais fatores de risco para eventos cardiovasculares, independentemente da presença dos chamados e reconhecidos fatores de risco clássicos, como hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia, diabetes e tabagismo. Sem dúvida, viver bem, com alegria, rir bastante e dançar fazem bem ao coração", salienta o cardiologista.

"Os benefícios emocionais são grandes aliados da boa saúde", confirma o geriatra e reumatologista Antonio Carlos Paschoal Jr. "A convivência harmoniosa em grupo é com certeza muito importante, especialmente na travessia da meia idade, quando o ser humano tende a ficar mais vulnerável e até amedrontado ao aproximar-se do envelhecimento e das possíveis limitações que podem vir pela frente", diagnostica o médico. "Outro fator relevante e muito benéfico das atividades em grupo é que ocorre nos participantes, o aumento da produção da serotonina, o hormônio da alegria e neurotransmissor da relação humana", aponta o geriatra.

Para a psicoterapeuta Roseli de Souza, cuja especialidade é tratar de pacientes na terceira idade, que ela chama de jovialidade avançada, "dividir experiências comuns e divertir-se com amigos de longa data é também construir uma história de vida. Nesta fase, as pessoas querem realizar os sonhos que não puderam realizar no passado e a convivência em grupo possibilita a confirmação das afinidades e os participantes se sentem aceitos e não apenas inseridos. Amizade e apoio mútuo deixam as pessoas mais seguras e mais dispostas a enfrentar a vida e o passar dos anos; e o que é mais saudável para a auto estima é consequentemente também melhor para o emocional. A confraria das vicentinas tem feito isso naturalmente," elogia.