09 de julho de 2026
Articulistas

No país da cracolândia

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Li em algum lugar que o auxílio-reclusão foi reajustado para R$ 915,01. Este 01 centavo revela a precisão com que as autoridades monetárias cumprem à risca a Constituição de 1988, que criou o benefício. O salário-mínimo, pago ao trabalhador honesto, é de exatos R$ 622 ? e reajustá-lo é sempre uma epopéia. Já a bolsa-bandido, concedida às famílias dos que cumprem penas, tem reajuste automático. Podemos concluir que, no Brasil, vale mais quem está preso do que quem trabalha. Este fato talvez explique porque são assassinadas 50 mil pessoas por ano neste país, ou 136 por dia, em média. No Iraque sob guerra de extermínio, ódio tribal e religioso, os homicídios entrem civis não passam de 35 por dia, segundo a ONU. No Brasil a marginalidade e a violência são subsidiadas pelo poder público. Isto é, remuneradas pelo contribuinte - por você, por mim, por nós. Falta o Supremo Tribunal Federal descriminalizar a maconha para que os índices de violências contra a pessoa e o patrimônio cresçam, sob os efeitos das drogas. Tivemos protestos recentes, inclusive de membros proeminentes do PT em defesa da Cracolândia. Fala-se em falta de compaixão, de espírito público e de solidariedade. Internações compulsórias para tratamentos antidrogas, para os críticos, violam o princípio da liberdade de ir e vir. Os argumentos vão por aí. Podem até ser aceitos desde que antes analisemos uma questão importante. Há anos esses drogados se empilham num quadrilátero em pleno centro de São Paulo, em cômodos insalubres, dividindo banheiros imundos entre homens, mulheres e crianças. Ninguém nunca se preocupou em dar a esses miseráveis habitações decentes, oportunidades de educação, formação profissional para habilitá-los a empregos. A atual Cracolândia, já nos anos 1960 era conhecida como "Boca do Lixo", assim chamada por ser zona de prostituição. Teve momentos de glória nos anos 1980 quando abrigou várias produtoras de cinema marginal. Cineastas como Rogério Sganzerla e Júlio Bressane ali se instalaram para produzir filme pornô, com roteiro de escracho e esbórnia. É evidente que dispersar dependentes químicos com balas de borracha e spray de pimenta nada tem de civilizado. Os policiais estavam cumprindo o papel determinado pelas autoridades do judiciário mediante mandados peticionados pelo Executivo. No fundo, o Estado está de olho apenas na valorização imobiliária. O problema social (fumadores de crack) é apenas transferido ou disperso. O modelo perseguido é o do shopping center e não o pequeno e vivo comércio de rua ou o boteco de esquina, organizado e legalizado.

Em São José dos Campos algo semelhante ocorreu com base na questão imobiliária. Uma grande área foi ocupada há oito anos por famílias que não tinham para onde ir. Construíram barracos em terrenos de um famoso especulador do mercado financeiro, o aventureiro Naji Nahas, que não paga impostos. A polícia, mais uma vez cumpriu mandado judicial. Também não precisava ser na madrugada de domingo, sem dar tempo ao povo de correr com os seus pertences. As autoridades ? o governador e o prefeito de São José são do PSDB ? objetivam a valiosa área urbana e o quanto ela pode render sem os invasores. O modelo quer os pobres fora do centro, mesmo com edifícios abandonados nas áreas que já foram nobres e hoje estão deterioradas. Aqui em Bauru mesmo, já temos edifícios desabitados na Av. Rodrigues Alves e na Batista de Carvalho. De repente, uma família que não tem para onde ir encontra-se com outras sem eira e nem beira e decidem em conjunto invadir o prédio que ninguém quer. Para elas haverá de ter boa utilidade. Pode ser até uma velha estação ferroviária. Conflito à vista. Algo que poderia ser evitado com uma política de pressão sobre os proprietários que não podem infinitamente manter imóveis sem utilizá-los. Vamos de encontro às velhas teses dos sociólogos de esquerda, como Althusser, críticos da pretensão imobiliária colocada acima do interesse social, na produção do espaço urbano. A tautologia - o uso de palavras diferentes para expressar a mesma ideia - deságua sempre no confronto entre os ricos, com seu poder, muitas vezes tirânico, e a resistência dos pobres. Lula declarou certa vez que os governos, em geral, se elegem com os votos dos pobres, mas atuam em benefício dos ricos. Ou, conforme constatação clássica, o poder é como o violino, pega-se o instrumento com a esquerda, mas se toca com a direita.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC