10 de julho de 2026
Política

Férias e aposentadoria deixam núcleos de saúde sem médicos

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

Douglas Reis

Na Unidade Básica do Parque Vista Alegre cartaz avisa pacientes da falta de médicos no período

Os moradores do Jardim Bela Vista em Bauru convivem com uma antiga realidade quando necessitam de atendimento médico: a falta de clínicos gerais na Unidade Básica de Saúde. O desfalque é provocado por acúmulo de aposentadorias, o que não foi suprido com novas contratações, e um percentual insustentável de 21% de profissionais sem prestar atendimento, a maioria por estar em gozo de férias.


A própria Secretaria Municipal de Saúde atesta que a defasagem normal de profissionais por férias ou licenças é de 12% a 15%. “Há mais de 15 dias eu estou tentando ser atendido por um médico no Posto de Saúde do Bela Vista e não consigo”, afirmou o aposentado Luiz Tadeu Machado, 61 anos, morador do Jardim Petrópolis, que insistia, em vão, na busca de atendimento durante a última semana.


O aposentado afirma sofrer de pressão alta e ter recorrido ao posto médico para conseguir encaminhamento a um cardiologista, mas, com a falta do atendimento primário, acabou com o atendimento frustrado. Ao questionar a unidade quanto à falta de clínico geral, Machado afirma ter sido informado por um funcionário que o médico estaria em férias e nenhum outro teria sido recrutado para substituição.


A dona de casa Teresa Mello, 28 anos, estava na unidade do Bela Vista também nesta semana e foi mais uma vítima do desfalque na escala de profissionais. “Eu preciso que um clínico me encaminhe para um neurologista para que eu possa fazer alguns exames, mas pelo jeito vai ser difícil, sempre que venho não tem médico ou então tem muita gente e não dá tempo de ser atendido”, enfatiza a dona de casa, que há cerca de seis meses enfrenta enxaquecas constantes.


Hérnia de disco, problema na coluna cervical, artrose crônica e pressão alta são os problemas de saúde do metalúrgico Nivaldo Miranda, 53 anos. Ele também esteve na Unidade Básica tentando encaminhamento médico para realizar um exame com ortopedista.


“No ano passado eu cheguei a pagar R$ 650,00 por um exame, fora a consulta, mas agora estou sem dinheiro para pagar e preciso fazer pelo SUS, senão vou perder a perícia e não conseguirei me aposentar”, contou o trabalhador.


Para Machado, a situação é um descaso evidente. “Contribuí por quase 40 anos trabalhando e agora, que estou aposentado, não vejo retorno, quando mais preciso da saúde, não tem médico. É um descaso”, relata o senhor de 61 anos.



Lentidão na resposta


Ao ser questionada sobre a precariedade no atendimento, a Prefeitura de Bauru repete a tônica dos últimos anos, reconhecendo a carência mas acenando apenas com a promessa de resolução.


A administração menciona que a Unidade Básica do Bela Vista conta, atualmente, com apenas um profissional com carga de 12 horas semanais. Ainda segundo o próprio governo, o atendimento médico oferecido anteriormente pela unidade chegava a 64 horas semanais.


A prefeitura também ressalta o fato de que, nesta unidade médica, um clínico geral está com problemas de saúde e outro em processo de aposentadoria. Mas, se não consegue suprir nem a escala normal para outras unidades, quem dera ter condições de reposição para situações como aposentadoria e licença de profissionais.


Mas a prefeitura orienta que o usuário que não conseguiu atendimento com médico clínico geral em uma unidade seja encaminhado, pelo mesmo local, a outras Unidade Básica de Saúde.



Desfalque versus contratações


De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a rede de atenção básica conta hoje com um total de 89 médicos, mas desses profissionais 19 estariam em férias somente neste mês.


Esse número representa um desfalque de 21% sobre a equipe de saúde das Unidades Básicas. O número de profissionais que está sob licença ou afastamento não foi incluído na estatística fornecida pelo órgão.


Mas o secretário municipal de saúde, Fernando Monti (PR), argumenta que o problema na unidade do bairro Bela Vista não tem relação com o número de profissionais em período de férias.


Segundo ele, a porcentagem de médicos que chegam a tirar férias ao longo do ano alcança de 12% a 15% ao mês. Para ele, o aumento não representaria um problema para as unidades básicas.


“No final do ano sempre registramos um aumento nos pedidos de férias, afinal os médicos também são pais, mas isso nem chega a causar problemas pois o número de atendimentos também acaba reduzindo nesse período” ressalta o secretário.


Para Monti, o maior problema das Unidades Básicas é em relação aos processos de aposentadorias. “Muitos médicos se aposentaram e ainda não foram feitas novas contratações”, completou.


O secretário da pasta afirmou, ainda, que a Secretaria de Saúde do Município reconhece o problema da unidade no Bela Vista, principalmente, após a inauguração da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no mesmo bairro.  


“Além do problema causado pelas aposentadorias, fizemos alguns remanejamentos com a UPA e perdemos horas lá na Unidade Básica. Então, tudo isso só será resolvido após as contratações de médicos. Realizamos um concurso no ano passado, mas ele precisou ser anulado por conta do parentesco entre um aprovado e um membro da banca”, lembrou o secretário.


Segundo Fernando Monti, outro concurso será realizado ainda neste ano, provavelmente em março, para suprir a necessidade de médicos nessas unidades básicas de atendimento à população.



Outras unidades


Mas a deficiência não se restringe à região do Jardim Bela Vista. Na Unidade Básica de Saúde do Parque Vista Alegre, até pelo menos quarta-feira desta semana a população também não contará com médico clínico geral.


Segundo funcionários da própria unidade, um médico entrou em férias na última quarta-feira e outro retornará do descanso somente em meados de fevereiro. Apesar do desfalque, os funcionários alegaram que o atendimento estaria regular. Mas, na porta da unidade, os avisos para a população eram claros, alertando sobre os profissionais em férias e a necessidade de agendamento.


No Núcleo Geisel, dos quatro clínicos atuantes na unidade nenhum estaria em férias, segundo os funcionários. Entretanto, as atendentes alertavam que o atendimento também só poderia ser realizado mediante agendamento e para os próximos meses. Outra solução apontada pelos funcionários aos pacientes era: “aparecer lá por volta das 7h durante algum dia para tentar ser encaixado em desistência”.


Já a realidade observada na Unidade Básica de Saúde do Parque São Geraldo se diferencia de todos os outros postos. Havia vagas sobrando para atendimento com os três clínicos gerais. Nessa unidade, nenhum médico estaria em período de férias neste mês, segundo informou uma funcionária.



Recrutamento e melhorias


Enquanto o problema das contratações não é resolvido, o secretário Fernando Monti afirma que alertou sua equipe e, nas próximas semanas, pretende realizar remanejamento de médicos para atender o Bela Vista. Mas como também há falta de profissionais em outra unidade, o remanejamento poderá apenas deslocar o problema, ao invés de resolve-lo.


Além do recrutamento, o responsável pela pasta também adiantou que a Secretária de Saúde Municipal está a procura de um imóvel para instalação apropriada da unidade, que segundo ele, hoje funciona em um prédio antigo, com uma séria de inadequações.