Com apenas 1 hora a mais, o governo de São Paulo "aumenta" de 17% para 33% o tempo de trabalho do professor fora da sala de aula, na correção de avaliações, planejamento de atividades, atendimento aos pais, reuniões com colegas e coordenação pedagógica, e outras atividades onde não haja interação com alunos.
Essa "mágica" aconteceu com o governo revogando uma resolução de 2006, que equiparava cada 50 minutos de aula a 1 hora de trabalho, considerando esses 10 minutos que se somam a cada uma delas. Pela sua importância estratégica para a nação, a educação não deve ser partidarizada. Espero que essa pendenga judicial tenha um desfecho onde a educação saia ganhando. Pela grandeza de importância que a educação tem, é um dever do Estado, da família e da sociedade e um direito do aluno. Assim está no texto constitucional.
O direito do aluno é a uma boa aula, que lhe prenda a atenção, que desperte a sua curiosidade, que amplie as suas ferramentas intelectuais, que tenha materiais de referência complementar, que o estimule a buscar mais informações após as aulas...
Sinto muito, sr. governador! Mas isso não se conquista com a sua "mágica", e sim com avaliação, planejamento e realização, em um ciclo infinito, em uma espiral ascendente de construção de capacidades e habilidades com e em nossos alunos. É um processo que acontece dentro e fora da sala de aula.
Contudo, Vossa Excelência não deseja ver pagas essas horas de atividades fora da sala de aula. Essa é uma diferença fundamental, que caracteriza o trabalho docente. Somos possivelmente os únicos profissionais no mundo contemporâneo que atuam nos três campos da atividade: planejamento, execução e avaliação.
Há outras diferenças que dividimos com outros profissionais. O senhor é o governador de São Paulo enquanto durar o seu mandato, que tem data de início e de fim. Médicos, juízes, sacerdotes e professores o são sempre, em horário de trabalho ou não. Os primeiros têm o reconhecimento financeiro e o reconhecimento social da importância dos seus trabalhos; o professor perdeu muito do reconhecimento social, redução paulatina dos seus vencimentos e agora a formalização do seu "trabalho escravo".
Mas continuo sendo professor, e em 1º de fevereiro estarei em sala com meus alunos, pronto para lecionar, sem em momento algum deixar de defender minhas convicções. No exemplo de vida, na postura, na manutenção da dignidade, e no trabalho docente sério, dentro e fora da sala de aula, se educa.
É no trabalho que espero receber o apoio dos alunos, dos pais e da comunidade.
A lamentar apenas o fato de que uma Lei de quatro anos atrás (11.738/2008) tenha sido desconsiderada no plano estadual de educação, e hoje, ao ver a necessidade de contratação de mais professores para lhe dar cumprimento, lançar mão da tucanagem aritmética.
Alberto de Carvalho Pereira Sobrinho ? professor de educação física e capoeira