08 de julho de 2026
Polícia

Polícia flagra ?call center? do bicho

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 3 min

Uma nova artimanha usada por bicheiros para escapar da polícia foi detectada na tarde de ontem pela Polícia Civil de Bauru por meio da Delegacia de Investigações Gerais (DIG). Trata-se da "modalidade" que garante a contabilidade dos valores das apostas e a recepção dos jogos com o uso do telefone chamada de "call center" ou "telemarketing" do jogo do bicho. O esquema foi descoberto na tarde de ontem enquanto a polícia desmantelava um local em Bauru apontado como central de apostas.

A tática é uma estratégia para escapar das autoridades, segundo explica o delegado titular da DIG, Kleber Granja. Na ocasião, o cambista, quem recebe os dados e valores das apostas, liga para a central, onde funciona o escritório, também chamado de banca. Por telefone, é passada a relação de apostas que foram feitas no dia. Tudo é gravado e registrado em fitas.

Antes, os cambistas recolhiam as apostas em dinheiro e guardavam em envelopes. Ao invés de ligar, esse valor era levado até a banca e, nesse trajeto, a polícia agia. "O cambista, que geralmente é motociclista, antes passava no estabelecimento para arrecadar o valor apostado e levá-lo até a banca. Justamente neste trajeto é que era feita a abordagem e apreendido o dinheiro, assim como o material da banca", explica Kleber.

"Com as ações que a Polícia Civil vem desenvolvendo para coibir o jogo do bicho em Bauru percebemos que agora os bicheiros estão tendo o cuidado de dar uma destinação diversa para o dinheiro, que não fica mais na banca e é contabilizado através daquilo que chamamos de ‘telemarketing’ ", revelou.

 

De pai para filho

O esquema de "telemarketing" foi descoberto justamente enquanto a polícia desmantelava um local apontado como central de apostas. O fato ocorreu por volta das 14h de ontem, quando equipes da DIG entraram em um escritório localizado na quadra 10 da rua Rio Branco, um imóvel sobrado alugado. O escritório funcionaria na parte superior. "Essa banca se chama Zoolandia e foi fundada em 1957. O fundador já se aposentou e repassou para os filhos, que estão sendo investigados", informou o delegado.

Durante a abordagem no local, a polícia constatou como funcionava o esquema. Telefones estavam com gravadores acoplados e as fitas apreendidas continham gravações com dados e valores das apostas. "Além de escapar da ação da policia, essa é uma forma de garantir a contabilidade e também assegurar que as apostas que estão sendo feitas estão sendo apuradas e pagas", indicou Kleber Granja.

Três pessoas foram autuadas em flagrante, mas, conforme previsto em lei, terão direito a responder ao processo em liberdade. O dono da banca não estava no local no momento da abordagem, mas já foi identificado.

Desde novembro passado já foram desmontadas cinco bancas de jogo do bicho. Em última matéria divulgada pelo JC, no dia 26 de janeiro, máquinas de cartões de crédito usadas para realização de jogos do bicho em foram apreendidas pela DIG.

 

Cadê o dinheiro?

Apesar de ter recolhido as mídias com as gravações, aparelhos de fax, telefônicos, aparelhos de modem, blocos de apostas, cartões de instrução e até "livros de sonhos", ou seja, todo material que dava funcionamento ao escritório, o dinheiro das apostas não foi localizado.

A suspeita é que o valor estaria sendo destinado para outro lugar. "O cambista, que geralmente é um motociclista, antes passava no estabelecimento para arrecadar o valor apostado e levá-lo até a banca. Justamente neste trajeto fazíamos a abordagem e o dinheiro das apostas era recolhido. Porém, com este novo esquema de ‘telemarketing’, suspeitamos que o dinheiro esteja sendo destinado a outro lugar".

Além de aplicar a lei, outro objetivo da Polícia Civil, segundo o titular da DIG, é identificar para onde vai o dinheiro dos apostadores. "Este valor pode estar sendo encaminhado para compra de droga pode estar sendo usado para lavagem de dinheiro, para aquisição de imóveis, tráfico de armas ou até para pagamento de propina para policiais corruptos".

Arrecadação

Apesar de ser ilegal, o jogo do bicho ainda coleciona muitos apostadores. "Mas o dinheiro arrecadado com este tipo de aposta não entra para arrecadação de impostos do Estado e por isso mesmo é ilegal", enfatiza o delegado titular da DIG, Kleber Granja.