08 de julho de 2026
Geral

Falta de laqueaduras gera drama da espera

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

O planejamento familiar é direito de todos os cidadãos brasileiros, garantido por lei federal. A laqueadura é um procedimento cirúrgico contraceptivo realizado em mulheres que não desejam mais ter filhos. No entanto, ele não vem sendo realizado em Bauru na Maternidade Santa Isabel, para onde é encaminhada toda a demanda da rede básica municipal de Saúde. O resultado é o aumento de uma fila que já era grande e que ninguém sabe precisar a dimensão.

O ginecologista e obstetra Sérgio Henrique Antônio, que é diretor técnico de planejamento familiar da Maternidade, afirmou que não foram feitas cirurgias de laqueadura no mês de janeiro em função da decisão de suspender as cirurgias eletivas por parte da equipe interventora da Associação Hospitalar de Bauru (AHB). A medida foi tomada em razão da situação caótica instaurada na Maternidade e no Hospital de Base, acompanhada pelo Jornal da Cidade.

No mês de maio, a Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp) deve assumir a Santa Isabel. No entanto, o médico garante que vai retomar as tratativas junto à atual diretoria da AHB para que os procedimentos de laqueadura sejam retomados o quanto antes.

De acordo com Sérgio Henrique, é "humanamente impossível" atender a todos os pedidos de laqueadura em razão da grande demanda. No entanto, ele afirma que não tem dados referentes ao ?tamanho da fila?. A Secretaria municipal de Saúde, por sua vez, diz que apenas encaminha os pacientes interessados em procedimentos de esterilização e, portanto, também não tem este controle.


Quatro por mês

Apesar da suspensão de laqueadura em janeiro, e mantida até então, Sérgio Henrique Antônio garante que, até dezembro de 2011, as cirurgias estavam sendo realizadas normalmente. No entanto, isso significa, segundo o médico, quatro procedimentos ao mês.

O número assusta até mesmo em função da grande demanda citada pelo diretor técnico do planejamento familiar, mas Sérgio pondera que nem todos os casos estão enquadrados no protocolo estabelecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para que pacientes sejam submetidas à laqueadura.

A análise é feita pela equipe multidisciplinar de profissionais que atende às famílias interessadas. "Existem pacientes que estão prontas para serem operadas. Nossa equipe atende a cerca de 20 novas pacientes por semana. Nem todas podem ser submetidas à laqueadura", explicou.

O procedimento só é permitido, por exemplo, a mulheres com mais de 25 anos ou com, pelo menos, dois filhos vivos, a não ser em casos de doenças capazes de provocar risco à sua saúde ou do bebê ? como diabetes descompensada e hipertensão. Além disso, a lei define que a paciente assine um documento que apresenta os riscos e implicações da laqueadura.


E esperando, Cássia virou até avó

Enquanto as cirurgias de laqueadura não são realizadas em Bauru, muitas famílias vivem o drama da espera. É o caso de Cássia Regina Araújo Félix da Silva, de 38 anos. Em novembro de 2008, ela deu à sua última e terceira filha. Durante a gestação, fez o pedido para que se submetesse ao procedimento, mas até agora não foi atendida. Nesse meio tempo, já se tornou até avó, com o nascimento da filha de sua filha mais velha, que, em breve, vai completar quatro de idade.

O sentimento de Cássia é de revolta, pois entende que deveria ter sido operada já no momento do parto de sua filha caçula. "Não é normal esperar tanto tempo e conheço outros casos parecidos. Se eu não me cuidasse, não sei quantos filhos eu já teria. Meu organismo não reage bem a comprimidos anticoncepcionais", lamenta.

O pedido para a laqueadura foi feito no Posto de Saúde do Parque Vista Alegre, onde, frequentemente, Cássia recorre para saber se será atendida. "Sempre me dizem que a fila é grande e o problema está na Maternidade", pontua.

O diretor técnico de planejamento familiar, Sérgio Henrique Antônio, diz que, apesar da grande demanda, o caso de Cássia pode ter sido alvo de um erro no encaminhamento por parte do município. "Não é normal esperar por quatro anos. Já fiz cirurgias em pacientes que fizeram o pedido até em 2010", garante.


O que é

A laqueadura, também conhecida como ligadura de trompas, é um processo cirúrgico que tem como objetivo impedir que mulheres voltem a engravidar.

Nesse procedimento, as tubas uterinas são obstruídas, cortadas e/ou amarradas, impedindo o encontro entre o óvulo e o espermatozoide.

O Brasil é campeão em laqueaduras, apresentando cerca de 40% das mulheres, em idade reprodutiva, esterilizadas. O problema é que, em inúmeros casos, a mulher deseja novamente ter condições de engravidar.

Além de existirem poucos centros de saúde capazes de realizar o procedimento reverso, essas cirurgias podem ser feitas apenas em metade dos casos, nem todas com sucesso. Como nem sempre a laqueadura é reversível, as mulheres podem optar por outros métodos contraceptivos, como o DIU e as pílulas.