08 de julho de 2026
Articulistas

Espaço para crescer

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A sinalização do Banco Central de que continuará perseguindo o objetivo de reduzir
a taxa de juros básica a um dígito este ano deixou perplexos alguns analistas financeiros
e muito mal humorados comentaristas que haviam apostado no aumento da inflação (cujos índices estão em queda!) e "obrigatória" retomada da elevação das taxas de juro. O mais recente "argumento" utilizado nas análises foi a divulgação do IBGE mostrando a queda dos níveis de desemprego em 2011, abaixo de 6% da força de trabalho. Na visão desses profetas da atátrofe uma situação dessas, praticamente de pleno emprego, despertará reivindicações trabalhistas por mais salários, produzindo infl ação. Isso me fez lembrar uma cena de noticiário de TV americana há muitos anos,
que mostrava um operador da Bolsa de Nova Iorque levando as mãos à cabeça, em visível desespero, ao tomar conhecimento dos números que mostravam uma elevação importante do índice de emprego nos Estados Unidos. Para certos tipos de especulação fi nanceira, dependendo da ponta em que está o agente, a proximidade do pleno emprego pode se revelar, mesmo, um "desastre"...

Há, no momento, preocupação com os efeitos na economia brasileira de uma piora da crise européia, a ponto de desmontar o sistema do Euro. Minha visão é que diminuiu a perspectiva de uma crise imediata de grandes proporções no sistema bancário europeu, desde a entrada de Mário Draghi no comando do Banco Central Europeu.

Ele fez o banco retomar o seu verdadeiro papel como emprestador de última instância, reduzindo o nervosismo no mercado financeiro. A probabilidade de acontecer
algo mais dramático e destruir a zona do Euro diminuiu muito nas últimas semanas.

Espaço para crescer. Embora a crise esteja longe de terminar, melhorou a percepção dos europeus quanto ao custo insuportável da issolução do sistema:ele seria muito maior, em termos humanos, de destruição da economia e do equilíbrio social que tantos países vêm mantendo precariamente.

O que importa para o Brasil é que nós hoje dependemos muito mais de nós mesmos, de nosso mercado interno e que esse mercado interno oferece espaço para continuar crescendo 3,5% ou 4,5% nos próximos quatro ou cinco anos. Atrazar os investimentos só vai prejudicar as próprias empresas e indiretamente o crescimento do Brasil.

O governo está agindo. Tem uma política iscal sólida, uma política monetária muito interessante que está reduzindo a taxa de juro real e continuará a reduzí-la ainda ais. Vai prosseguir trabalhando junto ao sistema bancário brasileiro para que não só mantenha as linhas de crédito às empresas, como as ampliem. Seguramente nós vamos ver os bancos estatais ampliarem também seus volumes de crédito. Não há nenhuma razão para imaginar que vai haver uma queda de demanda interna brusca e menos oferta do crédito à produção, a não ser que haja uma queda ainda maior das exportações do setor industrial. Esta seria, seguramente, a influência mais negativa dos problemas externos no Brasil.

Estamos convivendo com mais essa crise no momento em que existe uma enorme possibilidade de investimentos no Brasil, que apenas esperam que o governo procure a iniciativa privada para induzir as empresas a se engajarem.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-

-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura
e do Planejamento e articulista do JC