09 de julho de 2026
Regional

?Vila Del Capo? é viagem no tempo e no bom gosto

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 8 min

Garimpar peças antigas é uma arte. Nem tudo que se encontra é vendável e, em alguns casos, não é comprável. Herdeiros de grandes fazendas sabem que peças em louças, móveis, pratarias e todo tipo de decoração que remontam histórias do passado têm grande valor. O mercado de antiguidades está em alta, segundo os especialistas. Os novos ricos procuram mesclar na decoração de casas, apartamentos e escritórios o contemporâneo e o antigo.

O antiquário Luiz Catena de Borebi (45 quilômetros de Bauru) diz que o mercado é bom para quem tem boas peças. "Eu tenho paixão por antiguidades, vivo disso. A nossa região já foi farta em peças históricas. Em Jaú ainda tem muitas peças de Zanini Caldas, que era designer carioca e vendia muito para fazendeiros da região.

A paixão por antiguidades também contagiou José Antônio Zopollatto, chamado carinhosamente de Zeca, que ao se aposentar montou o antiquário Vila Del Capo, na divisa de Brotas e São Pedro.

O antiquário Vila Del Capo é uma viagem no tempo. No acervo, bicicletas, aviões, taças de cristal, louças, rádios, gramofones, móveis, esculturas, máquinas registradoras e de escrever, fogão a lenha de ferro, panelas de ágata, livros, revistas, peças de prata, vitrolas e uma infinidade de coisas que só vendo para crer.

O sítio, comprado nos anos 80, possui um orquidário e um espaço com mais de duas mil árvores. O clima não poderia ser melhor, ameno e bom para quem quer qualidade de vida. O antiquário nasceu da necessidade do proprietário e arrumar uma ocupação para a depois da aposentadoria. "Eu tinha a propriedade que era só uma área de lazer. Trabalhei 30 anos numa empresa francesa e cuidava da parte de recursos humanos. Percebia que quando os funcionários iam aposentar não sabiam o que iam fazer. A partir disso, decidi que comigo ia ser diferente. Anos antes comecei a listar o que poderia fazer assim que me aposentasse. À época viajava muito para a Europa, pela empresa. Na lista coloquei plantas, coisas antigas etc."

Mas a vida lhe reservou uma surpresa que precipitaram as coisas. "Fui com meu filho a uma exposição de relógios antigos em Campinas. Quando vi o acervo do antiquário, disse a ele que era uma coisa que gostaria de fazer quando aposentasse. O dono das peças ouviu e tentou me vender todos os relógios. Acabei comprando tudo antes mesmo de aposentar."

As peças foram guardadas num barracão na propriedade que hoje abriga o Vila Del Capo. "Guardei e procurei um arquiteto para um fazer o projeto do antiquário. Ele foi inspirado em obras da Toscana, Itália. Tive sorte de arrumar um bom pedreiro e fizemos tudo a meu gosto. Depois da obra pronta, chegaram as carpas para ocupar o pequeno lago na entrada." Na próxima semana, o JC traz um antiquário de Jaú.

 

Antiquário cravado na serra tem de avião a bicicleta

Uma propriedade rural cravada na serra do Itaqueri, divisa de Brotas com São Pedro, encanta desde a chegada. O bom gosto na escolha da arquitetura somado à disposição das peças antigas e um cardápio nada tradicional fazem do local um espaço especial, capaz de agradar os olhos e estômago. A Vila Del Capo tem nove anos e muitas histórias.

O misto de antiquário e restaurante é a realização de um sonho do proprietário, José Antônio Zopollatto, um descendente de italiano que encontrou na paixão por peças antigas uma maneira de curtir a aposentadoria fazendo aquilo que gosta.

"Tudo aqui tem valor sentimental. Toda vez que vendo uma peça acho que fiz besteira. Penso que não vou achar outra igual e que não deveria ter vendido naquela condição. Sou um apaixonado por antiguidades. A gente nunca encontra uma peça igual a outra. Compro aquilo que gosto. Se vender, melhor", confessa.

Já o restaurante nasceu de uma necessidade. Como a propriedade de três alqueires fica num local retirado, os visitantes precisavam de se alimentar. "Inicialmente, abrimos um bar, mas os visitantes queriam comida, não petiscos. Minha mulher fez aulas no Senac para desenvolver o cardápio baseado na culinária italiana."

A busca por peças antigas que represente uma época é feita pelo próprio proprietário, conhecido por Zeca. "Eu não procuro nada específico, não procuro coisas vendáveis. Minha busca é por peças que eu gosto e que se encaixem no espaço que tenho. O avião, por exemplo, me interessou porque consegui vê-lo dependurado onde está, naquele exato lugar. Ele foi comprado em São Paulo, de uma importadora."

Mas a peça, dentre as muitas que tocam o coração do antiquário, é o leão de madeira maciça avaliado em mais de R$ 30 mil. "Ele pesa mais de mil quilos e foi confeccionado a partir de uma única árvore única. Imagina a árvore capaz de gerar um leão de um metro e pouco de diâmetro. Essa peça guarda muita história."

 

Para não comprar gato por lebre

Antes de adquirir um móvel antigo, observe detalhes para descobrir se não é uma réplica, ensina o antiquário Luiz Catena de Borebi. Segundo ele, algumas características dão garantia para que você não compre gato por lebre.

A madeira brasileira antiga é escura e pesada, geralmente imbuía, marfim, jacarandá baiano, canela enquanto que os móveis que chegam da Argentina e do Egito são leves e claros.

"Asas de andorinhas nas laterais das gavetas é outra característica. São os encaixes, não tem prego, são todas encaixadas, tem os quadradinhos que encaixam na madeira", ensina. E móveis da época do império não tem dobradiça são sistema de pinos.

Os móveis mais antigos são carraras brancos, e o imperialíssimo são os de mármores cinza e o branco. O uso do mármore rosa veio depois dos anos 20.

Móveis dourados são os egípcios. Há muito em antiquários. Eles são confeccionados recentemente, não são antiguidades. São réplicas, alguns possuem tecido adamascados.

 

Garimpando móveis antigos por toda região

Luiz Catena é um apaixonado por peças antigas. Vive disso. Há 30 anos, garimpa em propriedades rurais ou em residências louças, móveis, utensílios domésticos e tudo o que já fez parte da história dos brasileiros. Para isso, ele conta com a ‘ajuda’ de ‘olheiros’, pessoas que ele conhece e que indicam onde estão as peças. Ele compra, em alguns casos ‘recauchuta’ e vende a partir de Borebi.

A venda direta para o consumidor é o ‘trajeto’ que ele menos faz. Normalmente, comercializa seus produtos com antiquários e profissionais que trabalham na área de decoração. "Estou em Borebi e pouca gente me procura aqui. A maior parte das antiguidades vai para Presidente Prudente. Eu garimpo e vendo para ele. Tenho clientes em Bauru, Lençóis Paulista. Compro muito e vendo muito."

Ele calcula que em um mês compre pelo menos 20 peças. "Eu viajo a semana inteira de Marília a Piracicaba. Depois de muitos anos tenho contatos que me ligam. Numa semana eu compro e na outra, vendo. A venda é certa quando temos peças boas, realmente antigas. Tenho um caderno que anoto o que as pessoas desejam. Procuro as peças que elas querem e depois ligo avisando que já encontrei."

Os aparelhos de jantar em louça, jogos de sofá, poltronas são as peças mais procuradas comenta Catena. "Eu tenho paixão por antiguidades, procuro tudo, mas as peças mais vendidas são essas. Os jogos de chá e café, aparelhos de jantar ingleses e toalhas da Ilha da Madeira também têm comércio."

As telas de pintores famosos, difíceis de serem encontradas têm valores altos e são bastante comerciais. "Eu cheguei a vender um Volpe que comprei em uma fazenda de Jaú, logo no começo da carreira. Tive uma tela de Benedito Calixto que comprei em uma fazenda da região."

A região de Borebi já foi uma farta de fazendas centenárias e consequentemente de móveis antigos. "Aqui em Borebi havia propriedades rurais de fazendeiros ricos que tinham móveis de designers famosos. Tive peças do coronel Leite, Rodrigues Alves que tinha fazenda aqui. Em São Manuel também tinha muita fazenda cafeeira, ainda tem muita coisa boa por lá. Em Garça tem muita antiguidade também. Os herdeiros despertaram para o valor desses bens e hoje é muito difícil adquiri-los. Hoje, ninguém quer trocar armário antigo por um novo. Todo mundo sabe que madeira tem valor. Eu compro muito porque ando muito."

As louças azul borrão, as mais antigas do Brasil, segundo Catena, também são valiosas. "Hoje são peças raras. Elas têm história. Eu tenho duas peças, uma travessa que vale algo em torno de R$ 800,00 e um prato avaliado em pelo menos R$ 300,00."

Sobre as louças, o antiquário explica que à época elas vieram para o Brasil, país em desenvolvimento, após serem fabricadas na China e decoradas na Inglaterra. "Isso foi no século 18, quando não se pintava a louça. Elas eram fabricadas pelos chineses e iam para a Inglaterra onde eram decoradas com decalques."

O antiquário de Borebi possui peças em madeira originais e raras. "Tenho uma namoradeira vitoriana de época e uma marquesa, um tipo de sofá. A namoradeira é toda em jacarandá da Bahia, do século 19, ambas valem cerca de R$ 2 mil, cada uma. A peça mais cara do antiquário, no entanto é uma vitrine de loja em madeira, vidros e bronze que chega a custar R$ 3,5 mil."