Mulheres charmosas, cheias de atitude, que não se sentem envergonhadas em desfilar frente a milhares de pessoas com pequenas peças de roupa, minuciosamente trabalhadas na purpurina e nas plumas, e que, equilibradas em um salto altíssimo, tremelicam os pés e os quadris em um ritmo contagiante.
Não é preciso ter um grande repertório nem ao menos ser brasileiro para identificar que a descrição acima se refere a uma das principais figuras do Carnaval: a rainha das escolas de samba.
A reunião de características tão exuberantes fez com que as mulheres que vestem essa fantasia tornem-se uma espécie de personagem, capazes de despertar o desejo e o imaginário de quem assiste ao show de samba que elas dão.
Porém, o título de rainha poderia ser dado a elas por outros motivos, desconhecidos pela maioria das pessoas, ocultos pelo brilho típico do Carnaval. Motivos que fazem com que essas mulheres pouco tenham a ver com o personagem assumido na festa do Momo.
Elisângela Rufino Rodrigues, 30 anos, rainha da Mocidade Independente da Vila Falcão, por exemplo, precisa rebolar – no sentido figurativo da palavra – durante todo o ano para cuidar de seus quatro filhos. Divorciada, ela veio do Morro dos Macacos, no Rio de Janeiro, para Bauru fugindo da violência que tomava conta do bairro carioca. Agora, passa aperto em uma casa de dois cômodos, faz bicos como cuidadora de idosos, e pena para pagar o aluguel e satisfazer a vontade do quarteto de filhos.
Daniela Cristina Derencio de Lima, 31 anos, é outro exemplo de contradição entre a mulher e o mito. Ela samba durante o ano todo para dar conta do trabalho em tempo integral como professora, da educação da filha, da casa onde mora e dos cursos de especialização que se arriscou a se matricular. No Carnaval, os ensaios e o samba no pé são agregados à rotina.
"É corrido, mas faço por amor. Assumir como personagem uma Rainha de Carnaval é levar um pouco dessa festa maravilhosa por onde a gente passa", reflete Daniela.
Sendo assim, nota 10 para as Rainhas de Carnaval no quesito samba. Seja no sentido figurativo ou literal da palavra.
Rainhas das escolas de samba de Bauru contam o que precisam enfrentar quando no fim do Carnaval deixam de lado as plumas e paetês e voltam a encarar a vida real
A sensualidade da raça é um dom
A fina mistura entre o tom de pele e os traços do branco com o negro. Essa é uma das características que mais chamam a atenção nas rainhas das escolas de samba de Bauru. Exceto Valentina Pryns, rainha da Diversidade, todas as outras majestades podem ser chamadas de mulatas, daquelas autênticas, que agregam samba no pé e muita personalidade.
E o tom de pele é fundamental para alimentar ainda mais o imaginário de quem participa ou vê, mesmo que de longe, a folia do Momo brasileira. Muita gente pode não perceber, mas o fetiche despertado por essas mulheres tem raízes no Brasil da escravidão.
Filha do branco descendente dos portugueses com a negra trazida da África, as mulatas são fruto da mistura racial que marca o País e se tornaram símbolo da sensualidade e da permissividade.
"É comum as pessoas associarem as mulatas ao Carnaval. E acho mesmo que elas têm razão. A negra já nasce com o samba no pé. Já viu preto que não sabe sambar", questiona Elisângela Rufino Rodrigues, uma autêntica representante das mulatas.
Alteza de muita elegância
Mayara Serra da Costa Pinto, 18 anos, é um bom exemplo das contradições entre a mulher e os mitos que cercam as mulatas do samba. Nos ensaios da Escola de Samba Azulão do Morro, Mayara se comporta como um furacão. O intenso samba nos pés faz balançar o autêntico cabelo cacheado e sacode o corpo bem definido. Mayara arranca suspiros.
"Essa menina é um show. Desde o ano passado eu queria que ela representasse a Azulão. Mas por conta da idade, tivemos de adiar nossos planos", comenta Junior Ellero, carnavalesco da escola.
Difícil acreditar que a mesma Mayara sofre com a timidez. Fora da personagem de mulata sambista, é uma menina quieta, fala pouco. Se não fosse pela pele negra, seria possível notar suas bochechas avermelharem quando ela colocou a fantasia para posar para as fotos desta matéria. "Fico envergonhada", admite.
Natural de São Paulo, a morena veio para Bauru há dois anos. Assim que chegou conheceu alguns integrantes da Azulão e se identificou com a Escola. Deixou os estudos quando morava na Capital, parou no 1º Colegial.
"É que eu trabalhava e ficava difícil conciliar estudos, deveres de casa e trabalho. Mas quero voltar pra escola esse ano", justifica.
Enquanto isso não acontece, Mayara divide seu tempo entre o samba e os bicos que faz trançando cabelos.
Sangue de Rainha
Mulata, 31 anos, com um tufão nos quadris e um pandeiro de causar inveja a muitas mulheres. Esta é a descrição das características mais marcantes da carioca Elisangela Rufino Rodrigues, eleita por aclamação a rainha da Mocidade Independente da Vila Falcão.
Mas tecer uma descrição assim não é tarefa difícil, afinal, basta observar Elisangela por alguns segundos. Difícil mesmo é imaginar o que a mulata esconde por trás deste estereótipo marcado por tanta abundância e simpatia.
Nascida em Vila Isabel, no Morro dos Macacos, Rio de Janeiro, Elisângela tem muita história pra contar. Tanta história que daria um samba.
"Vim para Bauru com 18 anos porque meu pai dizia que Morro estava ficando perigoso demais para mim. Aqui me casei e tive quatro filhos. O maior tem 13 anos e o menor 5 anos. O tempo passou, me separei e tive de aprender a sambar de outra forma para sustentar a mim e a minha família", conta ela, arrastando os ‘esses’ como todo bom carioca.
Hoje, Elisangela mora em uma quitinete com dois cômodos na Vila Nova Esperança. No quarto, espaço apenas para um beliche e uma mesa com um computador, que tem como fundo de tela a foto dela com as crianças. Para sobreviver, conta com a pensão e com o trabalho esporádico como cuidadora de idosos. Samba agora, só mesmo em época do Carnaval.
"Quando eu era menor costumava sair de casa escondido e ir para a rua 28 de Setembro, onde as pessoas brincam o Carnaval lá no Rio. Quando voltava, apanhava do meu pai. Não adiantava: no dia seguinte, fazia a mesma coisa", lembra ela, que deixou a molecagem de lado por conta das gravidezes sucessivas e da mudança de estado civil.
A mulata voltou a sentir o poder de um salto alto e a emoção de sambar ao som da batucada de uma bateria há poucos dias, quando foi convidada a assumir o trono da rainha da Mocidade. Não pensou duas vezes, aceitou o convite e incorporou as caminhadas e os ensaios a sua já corrida rotina.
"Está no sangue. Sou apaixonada por Carnaval. Tá na raça, tá na cor. Vale qualquer sacrifício", justifica.
Musa de personalidade
Para ser rainha é preciso personalidade e pulso firme. Requisitos que sobram para a jovem Thais Raquel, 17 anos, detentora do trono do Bloco Pé de Varsa.
Apesar da pouca idade, Thais é escolada em Carnaval. Desfilou pela primeira vez aos 14 anos, no Guarujá, onde morou por dois anos, e participa da festa do Momo em Bauru desde que a folia no Sambódromo foi retomada, há 3 anos.
Além disso, quando tinha 6 anos, morou no Rio de Janeiro com o pai por um ano e meio. Foi na Cidade Maravilhosa que aprendeu os primeiros passos de samba e a malandragem que é preciso ter quando se participa dos bastidores da folia.
"Nesse meio tem muita inveja. O que não falta é gente cobiçando o meu posto. Por isso, fico esperta e evito me expor. Prefiro ensaiar em casa, com meu pai, que é um sambista de mão cheia, e me resguardar para avenida", afirma ela, que recusa qualquer oferta que parte de quem quer embelezá-la para a hora ‘h’. "Eu, hein, vai que a pessoa quer me sabotar!", desconfia.
Tanta personalidade tem um preço. Thais precisa rebolar mesmo é para segurar o namorado, que sente ciúme da exposição pública dos atributos da mulata.
"Eu me empolgo e às vezes passo dos limites. Meu namorado é ciumento e isso gera algumas brigas. Mas ele sabe que tem de me aceitar como sou", defende.
Fora a temporada de Carnaval, Thais leva uma vida pacata. Divide seu tempo entre os estudos e o trabalho como cabeleireira, no salão do pai, no Jardim Redentor
Dancing queen
Na teoria, Valentina Pryns nunca poderia ser Rainha do Carnaval. Registrada no cartório como sendo do sexo masculino, Valentina percebeu, aos 11 anos, que havia nascido com a alma presa no corpo errado e decidiu que a palavra nunca não faria mais parte de seu dicionário.
"Quando eu era criança, percebia que era diferente dos outros meninos. Sempre fui mais delicada... Não dá pra viver uma vida que é uma farsa, por isso me assumi gay. Aos 20 anos comecei a me transvestir para ir para as baladas e há 3 meses iniciei meu trabalho como Drag Queen", conta.
Apaixonada por samba, a morena usou e abusou de seus 67 quilos muito bem divididos em 1,82 metros de altura – com salto, é claro – para conquistar o título de Rainha da Diversidade 2012. A tática deu tão certo que quem disse que Valentina nunca poderia ser Rainha do Carnaval cometeu um grande equívoco.
Com a faixa de rainha e a simpatia que lhe é característica, ela continua quebrando tabus.
"Fui no Festival de Verão do Núcleo Mary Dota e me senti muito bem. As crianças se impressionam com minha altura, com minha postura, querem chegar perto... Isso é muito legal", avalia.
Majestade do samba
Quem nasce para o samba, nunca o abandona. Esse poderia ser o lema de Thais Alessandra Pereira de Assis, 24 anos, Rainha do Bloco Unidos do Jardim Petrópolis. O ritmo quente tipicamente brasileiro corre pelas veias da morena desde que ela nasceu.
"Meu avô fundou uma das primeiras escolas de samba da cidade, a Voz do Morro. Por isso, cresci neste meio. Lembrar de seus ensinamentos e do orgulho que ele sentia ao me ver sambar fazem com que eu não troque o Carnaval por nada", explica Thais.
Por nada mesmo. Nem por namorados. Por conta disso, Thais sofre de solidão anualmente. É só o Carnaval ser anunciado para que os relacionamentos da mulata rolem água abaixo.
"Não tem jeito. Toda mulata é muito cobiçada nesta época de Carnaval. Meus namorados nunca aguentam o assédio dos outros homens e acabam me pedindo pra escolher entre eles e o samba. Aí não tem jeito, fico com o samba", conta ela, que ganhou o apelido de Diaba por conta do comportamento provocativo.
Mas Thais não é diaba o tempo todo. No dia a dia, ela se vira como pode para cuidar dos três filhos, frutos de um relacionamento que sobreviveu por sete anos.
A pose de "mulher objeto de desejo" também sai de cena quando ela se lembra do avô e da irmã, já falecidos.
"Eles me ajudavam e me apoiavam em tudo. Quando chegava o Carnaval, colocavam um livro em minha cabeça e me faziam desfilar pela sala para ajustar minha postura. Tenho saudade", revela, emocionada.
Simpatia soberana
Daniela Cristina Derencio de Lima, 31 anos, é o que se pode chamar de mulher moderna. Professora, mãe, rainha da Escola de Samba Tradição da Zona Leste e divorciada, ela tem de rebolar para conquistar seus objetivos. Por isso, diariamente, sai de casa logo cedo.
A primeira parada é na escola onde ela dá aulas de arte e onde a pequena Yasmin Gabrielly de Lima Ferreira, 9 anos, estuda. Depois, as duas vão para a casa almoçar. No período da tarde, Daniela retorna ao trabalho enquanto a filha participa de um projeto no Serviço Social do Comércio (Sesc). No fim do dia, as duas vão juntas para o ensaio da escola de samba.
"É realmente uma correria. Mas com jeitinho consigo dar conta de tudo. Nessa época, melhoro minha alimentação, faço exercícios regularmente e ainda enfrento sessões de drenagem", conta Daniela.
Só por isso a morena já merecia título de rainha, mas Daniela vai além: esbanja simpatia, charme e samba no pé. Talento para o samba está no sangue, herdou da família.
"Aqui em casa, todo mundo participa do Carnaval. Somos uma equipe. Nessa época, nos envolvemos desde os ensaios até a confecção das fantasias. É uma delícia", explica a professora.
Realeza delicada
Passar um Carnaval sem desfilar pelo Sambódromo é uma hipótese jamais cogitada por Fernanda Cristina Barbosa da Silva, 28 anos, Rainha da Escola de Samba Águia de Ouro. É que para ela a festa do Momo é sagrada.
"Amo o Carnaval e amo o samba. Herdei essa paixão de minha mãe. Sei que não poderei ser Rainha para o resto da vida, mas, enquanto puder, ocuparei esse trono. Depois, quando eu for mais velha, quem sabe, sairei como baiana...", cogita a morena, que aponta a determinação e a vontade como principais características de uma majestade.
Mas ao contrário de muitas Rainhas, Fernanda não corta toda e qualquer caloria de sua alimentação para manter o corpo em dia e sair bela na folia. Pelo contrário, há anos ela faz uma dieta de engorda.
"Tenho 1,59 e 48 quilos. Magrela, né?! Por isso, há anos travo uma luta para engordar. Nessa época só tomo um pouco mais de cuidado. Procuro comer bastante fruta e verdura para que meu corpo responda positivamente", revela ela, que colocou aplique no cabelo para chamar ainda mais a atenção no dia do desfile. "Rainha tem de ter cabelão", brinca.
Mas nem tudo é folia. Casada e mãe de uma menina de 6 anos, Fernanda divide seu tempo entre a família, um comércio de sua propriedade em Agudos, os ensaios para o Carnaval e ainda encontra tempo pra sonhar.
"Queria desfilar pela Grande Rio, do Rio de Janeiro. Me identifico com a escola pela superação que eles sempre tiveram, inclusive no ano passado, quando o barracão pegou fogo e mesmo assim eles fizeram um belo desfile", avalia