Com um rico convívio familiar, Rodrigo Ohtake soube desde os 12 anos, quando viajava com o pai para ver prédios pelo mundo, que seria arquiteto ou designer - ou as duas coisas. Filho do também arquiteto Ruy Ohtake e neto da artista plástica Tomie Ohtake, ele demonstra essas duas influências no projeto do seu apartamento, na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo.
Rodrigo encontrou o imóvel de 90 m² do jeito que qualquer profissional gostaria: sem pintura, nem revestimento. "O arquiteto prefere criar do nada a ter que desfazer estruturas prontas", explica ele, que apesar dos poucos 26 anos está envolvido neste mundo desde cedo. Embora não exerça a profissão, sua mãe também é arquiteta. "Meu pai nunca me perguntou o que eu queria ser. Foi tudo muito natural", lembra. Formado há três anos, Rodrigo diz estar em busca do seu traço e não se intimida em pedir conselhos ao pai, com quem trabalha diretamente meio período do dia. Na outra parte, ele se dedica aos próprios projetos. Tanto que, depois de usar o lado arquiteto para abrir um dos quartos para a sala, para poder receber mais amigos em seu apartamento, Rodrigo aproveitou o talento de designer para criar um móvel único. Feito pela Marcenaria Temapark, ele começa como uma mesa e termina como sofá (ou vice-versa), compondo o espaço. "Demorei dois meses nele. Fiz maquete de papel de alumínio porque não conseguia representá-lo num desenho. Olhando, até parece simples. É uma fita torcida, mas para fazer foi complexo", explica. No fim, ele pediu a opinião do pai. "Ele disse que ficaria bonito, mas sugeriu: ?por que você não faz na diagonal??Fiz e ficou melhor", conta ele, satisfeito. Aliás, essa é uma das vantagens, segundo Rodrigo, de ser filho de Ruy: poder vê-lo criando o tempo todo. "Ele tem sacadas geniais, é muito rápido e nunca está satisfeito", diz Rodrigo, que só vê aspectos positivos em fazer parte dessa família. "Lido bem com isso. Vejo como um desafio, um motivo a mais. Eles elogiam, mas também criticam. Tomo café com meu pai e já começamos a falar de arquitetura. É uma convivência super-harmônica." É claro que há influências da avó e do pai, mas elas acabam se misturando e formando o estilo próprio de criar. A intuição - que Rodrigo acredita ter herdado da avó - é aplicada na hora de escolher as cores, por exemplo. E ele adora colorir paredes - nesse aspecto entra a influência paterna. Para isso, porém, a disposição tem que ser bem pensada, ainda mais nesse projeto com um móvel marcante logo de cara. Para não haver disputa do que olhar, a parede da janela permaneceu branca. "Mas quando você contorna o móvel, a atenção se vira para as cores, inclusive o amarelo gema do sofá." A parede colorida de roxo e marrom prova sua teoria de que as cores, na maioria das vezes, combinam. "Cor é fundamental. Às vezes, é uma briga provar isso ao cliente, mas elas se harmonizam. O importante é ousar, não dá para ser tímido na hora de colorir", acredita. Para não gerar uma poluição visual com recortes de tons, Rodrigo esticou a cor da porta principal até o teto, criando uma faixa marrom. E para completar essa atmosfera quente, a estante de MDF recebeu apenas uma demão de óleo de peroba para ficar escura. O lado intuitivo do jovem arquiteto voltou à tona quando Rodrigo resolveu tirar a porta da cozinha para integrar os ambientes. Foi quando percebeu que, trazendo o vermelho da parede lateral, ganharia um efeito visual interessante. Além, é claro, de dar mais vida ao lugar.
Todos os projetos no papel
Além de cores - principalmente as secundárias - e curvas, o arquiteto Rodrigo gosta de movimento. Para criar um detalhe diferente, que não atrapalhasse o cenário já marcado por móvel e cores, ele desenhou medidas irregulares para o piso de cimento desempenado, desenvolvido pela OTK Construtora. "Todas as juntas variam de tamanho. Modelo regular, todo certinho me incomoda", conta Rodrigo.
Para completar essa linguagem misturada e meio despojada, muitas obras de arte - entre telas da avó, é claro, e presentes de amigos - e móveis espalhados. Em volta da mesa há duas cadeiras Filó, da Baraúna, uma diretor e um modelo Vienense, da Thonart. É ali onde ele cria seus projetos, todos no papel - "não consigo criar nada no computador", diz. Alguns vão parar na grande lousa ao lado.
A criatividade nata de Rodrigo também aparece em outras intervenções pelo apartamento, como a gravura de Tomie Ohtake, que foi colocada no teto e acabou "virando" uma luminária, numa forma de atestar que o dom artístico da família só vai ganhando novos ares, funções e formas.