A colisão traseira seguida de capotamento na rodovia comandante João Ribeiro de Barros, sentido Jaú/Bauru, conforme noticiou o JC na edição de ontem, provocou uma verdadeira tragédia na região nordeste da cidade onde moravam as três vítimas fatais, todos jovens. Duas delas morreram no local, na noite de sábado, e a terceira morreu na manhã de ontem. Um dos mortos viajava com os dois sobrinhos.
O acidente aconteceu por volta das 21h15, no quilômetro 230 mais 50 metros a dois quilômetros do Zoológico de Bauru. O Astra, placas DWF 3200/Bauru, conduzido pelo engenheiro Cícero Henrique Thomazella seguia sentido Jaú/Bauru. No local, por motivos a serem apurados, colidiu na traseira do Palio, placas CEN 5226/Bauru, dirigido pelo eletricista João Vitor da Silva.
Com o impacto, o Palio capotou. Os ocupantes do banco traseiro do veículo, que possivelmente não usavam cinto de segurança, foram lançados para fora do carro. Dois deles morreram no local: Antoniel Ferreira de Almeida, 21 anos e Riovan Wesley Leme, 18.
O pedreiro e eletricista Valmir Bezerra da Silva, 38, que também ocupava o banco traseiro do veículo sofreu ferimentos graves. Chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos e morreu na manhã de ontem. De acordo com a família, com o impacto, ele teve seu pescoço quebrado. Era divorciado e morava sozinho.
O motorista do Astra sofreu ferimentos na cervical e hematomas em função do "tranco" do cinto de segurança. Foi socorrido ao Hospital da Unimed e ontem pela manhã teve alta e já está em sua casa, segundo informou seus familiares.
O condutor do Fiat Palio, João Vitor da Silva, sofreu ferimentos e foi socorrido ao PSM central. Na manhã de ontem foi liberado do atendimento médico.
Lucas Vinícius da Silva Silvério, 16 anos, que ocupava o banco ao lado do motorista do Palio, sofreu ferimentos na cabeça. Foi atendido no Hospital de Base e posteriormente transferido para o Hospital da Unimed. A família informou que ele fez uma série de exames e estava aguardando alta. Não corre risco de morte.
"Vai com papai do céu..."
A mãe de Antoniel Ferreira de Almeida, 21 anos, entrou no cemitério Cristo Rei amparada por uma amiga e pelo marido Antonio Fernandes de Almeida. Baixinho, quase gemendo, dizia para o filho acompanhar o papai do céu. A tragédia deixará marcas profundas nessa família que perdeu o segundo dos cinco filhos.
"Meu filho ajudava nas despesas da casa. Meu marido era ajudante e ele assentava pisos e azulejos. Não sei o que vamos fazer sem ele. É uma perda muito grande," desabafou a mãe.
Tio viajava com dois sobrinhos
O pedreiro Valmir Bezerra da Silva, 38, era tio de João Vitor da Silva, o motorista do Palio e de Lucas Vinícius da Silva Silvério, um dos passageiros. Para a mãe de Lucas, Elenice Bezerra da Silva, a tragédia foi mais marcante. "Meu irmão morreu, meu filho e meu sobrinho ficaram feridos. Os dois já foram liberados do atendimento médico."
Mesma situação viveu a mãe de João Vitor da Silva, Amélia Bezerra. Ele sofreu com o filho ferido no hospital e com a notícia da morte do irmão. "Meu filho foi liberado do hospital ontem."
Última pescaria entre amigos e fim com aplauso
Antes da colisão, os ocupantes do Palio curtiram a última pescaria. Eles eram amigos, irmãos, como disse o pai de Riovan, Edenilson Aparecido Leme. "A turma era coesa. Sempre foram amigos, todos moravam nessa região da cidade."
De acordo com o pai, por volta das 15 horas de sábado, o filho falou com ele sobre uma pescaria que poderiam fazer juntos. "Eu decidi que ia com meus amigos e ele com os dele. Fui pescar e, por volta das 23 horas, meus companheiros me convidaram para voltar para casa. Retornamos e fiquei sabendo da morte do meu filho."
O amigo de Riovan, Levi Santos, contou no velório que na tarde de sábado foi procurado pelos amigos para pescar. "Eles estavam felizes. O Riovan era irmão, bacana e chegou a insistir para eu ir. Mas eu não fui. Eles estavam com a grelha e o botijão pequeno de gás porque iam pescar e comer no local, um rio perto de Jaú."
A namorada de Levi, Natália Carolina Teixeira, 17, diz que conhecia muito Riovan e que ele era muito inteligente, educado e não costumava beber. "Eles gostavam de pescar e comer o peixe. Vai fazer muita falta."
Sereno, mas com lágrimas nos olhos, o pai de Riovan faz questão de frisar que foi uma fatalidade. "O João Vitor não teve culpa e o motorista do Astra com certeza não fez isso premeditado. Foi uma fatalidade. O sonho de Riovan era ser jogador de futebol, esteve em Curitiba e Cuiabá tentando o espaço no esporte."
O corpo dele foi velado na paróquia de Santo Expedito, no bairro Bauru 1 e o enterro será hoje, às 10 horas no cemitério da Saudade. Professores, amigos do bairro e da escola se aglomeraram para apoiar a família. Riovan fazia parte da comunidade católica. O corpo foi recebido com uma salva de palmas e muitas lágrimas.
Susto trouxe esquecimento
Comum em casos como este, os dois sobreviventes do Palio estão em estado de choque. Segundo familiares do adolescente, Lucas Silvério se lembrou apenas de uma parte da tragédia, aquela que envolvia o tio, companheiro de pescaria, Valmir Bezerra da Silva, irmão de sua mãe. Ele teria contado que o tio pedia para ele acionar o Samu porque estava com uma intensa dor no pescoço. Porém, nada mais ele lembrava do acidente.
O motorista do Astra, engenheiro Thomazella, também chegou a ficar em estado de choque, segundo sua mulher, Flávia Piton Thomazella. Para ela, ele teria dito que retornava de Itapuí . No local, fez a ultrapassem de um terceiro veículo e, ao retornar à direita, deparou com o Palio que trafegava sem lanternas traseiras acesas. Como já era noite, ele não teria enxergado o carro e colidido em sua traseira. Na tarde de ontem, Thomazella dormiu sob efeito de medicamento.
Versão do motorista do Astra é uma
Segundo informações da família Thomazella, Cícero saiu de casa com os dois filhos menores, um de um ano e outro de seis, no sábado. "Ele levou nossos filhos para Boracéia, casa de meus pais. No retorno, passou em Itapuí para visitar familiares dele. Só então retornava para Bauru," comentou a mulher, Flávia Thomazella.
De acordo com ela, após o impacto, o marido ? motorista do Astra de Bauru - ficou desacordado. "Ele contou que o Palio estava com as lanternas traseiras apagadas e que transitavam abaixo da velocidade normal, enquanto ele trafegava na velocidade permitida."
Versão do motorista do Palio é outra
O condutor do Palio, João Vitor da Silva, disse ontem ao JC que a alta velocidade do Astra provocou o acidente. "Ele apareceu do nada. Estava a pelo menos 140 KM/h. Os faróis e lanternas do meu carro estavam acesos. Eu estava na velocidade permitida." O condutor explicou que ia entrar no acesso da Fundação Casa para levar os meninos.
"Eu havia pedido para os ocupantes do banco traseiro usarem cinto de segurança. Não sei se eles usavam. Eles não foram lançados para fora do carro. Eles saíram do carro. Todos estavam vivos."
Ele lembrou que o tio pedia socorro porque doía o pescoço. "Um casal de moto parou e acionou ajuda."