Botucatu – Com um número considerável de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) à espera de transplantes ósseos, o Hospital das Clínicas (HC) de Botucatu (100 quilômetros de Bauru) não consegue atender a essa demanda em razão de dificuldades na obtenção deste tipo de material. Sem contar com um banco de tecidos próprio, o hospital depende da boa vontade e da disponibilidade de tecidos ósseos em municípios como Marília e São Paulo para realizar cirurgias do gênero em pacientes das regiões de Jaú, Bauru, Avaré e Botucatu.
A "escassez" de ossos para transplantes fez com que o HC realizasse apenas quatro cirurgias do tipo nos últimos dois anos – duas em 2010 e duas em 2011. "O único hospital da região que tem condição, hoje, de fazer o transplante ósseo é o HC da Faculdade de Medicina de Botucatu", ressalta o professor Fábio Fernando Eloi Pinto, médico-assistente da disciplina de Ortopedia e Traumatologia do hospital.
Segundo ele, esse procedimento é necessário em cirurgias de quadril e em casos de tumores músculo-esqueléticos e lesões ósseas, quando a cavidade do osso precisa ser preenchida com material enxertado. "Nessas áreas, assim como na cirurgia do joelho, a gente acaba necessitando do enxerto ósseo, do tecido ósseo, para fazer reparações de algumas estruturas e alguns defeitos que acabam sendo criados ao longo das lesões", explica.
Apesar dessa "exclusividade" na realização dos transplantes ósseos, a falta de um banco de tecidos na unidade, de acordo com Pinto, faz com que atuação do HC se torne restrita, já que existe uma dependência de Botucatu em relação a municípios que contam com as equipes de captação de tecidos. "Muitas vezes, a gente acaba substituindo por próteses de metal quando poderíamos colocar um osso, que teria uma vida útil melhor", desabafa.
Em alguns casos, de acordo com ele, os pacientes conseguem, através de contatos pessoais, que um banco de tecidos da região disponibilize tecidos ósseos para um caso de emergência. "Mas nos casos que são de rotina, que são eletivos, como os de pacientes que têm uma prótese de quadril que gastou, soltou, que estão com perda óssea e precisam usar o enxerto para restaurar o estoque ósseo, ele praticamente vai ficar sem ter a cirurgia porque não vai ter (osso) disponível para ele".
O professor ressalta que manter uma equipe de captação de tecidos demanda investimentos altos em treinamento de pessoal e transporte e acondicionamento do material, além de requerer o cumprimento de uma série de Protocolos Operacionais Padrão (POP). "A captação do tecido ósseo é feita pelas organizações de procura de órgãos de cada hospital", conta. "Depois, esse tecido vai ser armazenado em determinado lugar, que a gente chama de banco de ossos ou banco de tecido ósseo".
De acordo com ele, existem apenas três bancos desse tipo em todo o Estado de São Paulo – no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP de São Paulo, na Santa Casa de Misericórdia da USP e em Marília. "A gente vai tentando junto a esses bancos aqueles que possam atender as nossas necessidades", diz. O problema, segundo ele, é que as equipes desses hospitais fazem a captação dos tecidos nas suas regiões, o que resulta em uma quantidade reduzida de material.
"Teoricamente, todo paciente que é doador de fígado, rim, pâncreas, enfim, também é doador de osso. Oferta existe", afirma. "O problema é que quem capta o tecido é aquele que vai processar. Então, você tem uma captação, na minha opinião, aquém do que você poderia ter. Você poderia ter mais equipes captando e, aí, você teria mais osso sendo armazenado e tratado para poder ser usado". Para equacionar essa questão, na opinião do médico, seria necessário investir em novas equipes.
"Hoje, até existe a possibilidade da criação das equipes satélites, que são equipes que não têm banco, que captam tecido em determinado hospital e encaminham para o banco que eles têm na referência, mas isso não está funcionando ainda", declara. "Nós, do HC, tentamos vincular isso com o Hospital das Clínicas de São Paulo. Num primeiro momento, não conseguimos dar andamento, mas continuamos tentando".
Como contrapartida pela manutenção de uma equipe satélite no município, o HC de Botucatu quer garantir o direito a uma parcela maior de tecido ósseo para a realização de transplantes em pacientes da região. Além disso, o hospital também luta para ter um banco de tecidos próprio. "Esse é um objetivo, um projeto da Faculdade de Medicina, do qual eu tenho feito parte", conta. "A gente gostaria muito de poder ter um banco nosso para poder atender a população local de forma mais adequada".