Contas, fórmulas, tabuada, raiz quadrada. Para a maioria dos alunos de Bauru, estas são expressões que pertencem a um universo desconhecido e difícil de se tornar palpável: o da matemática. Segundo estudo divulgado ontem pelo Movimento Educação Para Todos, apenas 16,4% das crianças matriculadas no último ano do ensino fundamental sabem o mínimo esperado sobre a disciplina para esta etapa de ensino.
O número alarmante, entretanto, está pouco acima da média nacional, de 14,8%, e se equipara à estadual, de 16,3%. "São dados extremamente negativos", aponta a coordenadora da Organização Não-Governamental (ONG), Andréa Bergamaschi.
O levantamento inclui as redes públicas e particulares e revela ainda que, nos anos iniciais do ensino fundamental, a situação é um pouco melhor, embora não chegue a ser tranquilizadora. Do total de alunos de 4ª e 5ª séries, 43,3% atingem o conhecimento considerado minimamente adequado.
Já em língua portuguesa, os percentuais são menos desanimadores. Entre os alunos de 8º e 9º ano, 33,5% obtêm o aprendizado desejado, enquanto, entre os mais novos, este índice chega a 43,7%. A escala foi estabelecida pelo movimento a partir dos resultados obtidos nas provas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), aplicadas pelo Ministério da Educação (MEC) em 2009.
Desde cedo
De acordo com Andréa, os números refletem a baixa qualidade do ensino oferecido nas escolas, que é consequência direta da deficiência na formação de professores na área de exatas. "Esta diferença de aprendizado entre português e matemática já é percebida desde a fase de alfabetização das crianças. Mais do que uma dificuldade para aprender, existe uma dificuldade para ensinar a matéria", pondera.
Como resultado, alunos como Matheus Leonardo Martins, 12 anos, continuam a não "entender nada" sobre a disciplina. Matriculado no 7º ano de uma escola estadual de Bauru, ele diz estudar o suficiente para passar "raspando" na matéria.
"Na verdade, nem estudo direito para prova. É muito difícil, muita conta. Sou melhor em português, mas prefiro mil vezes as aulas educação física", comenta ele, que pretende ser jogador de futebol.
Reforço
A mãe, comerciante Ana Cristina Martins, 31 anos, ainda tenta ajudar em casa, mas sabe que Matheus dificilmente se tornará um apaixonado por matemática. "Ele nunca gostou. Até o ano passado, ele fazia reforço na escola, o que o ajudava a conseguir nota nas provas. Eu também ajudo nas tarefas, dentro do possível, a partir do que lembro da época de escola", observa.
A coordenadora da ONG aponta que, nos últimos 10 anos, o Brasil conseguiu ampliar a proporção de crianças matriculadas nas escolas mas este ganho não foi acompanhado pela melhoria na qualidade do ensino, em especial o de matemática.
A consequência é que, quanto mais anos de estudo o aluno possui, pior se torna seu desempenho na disciplina. As estatísticas do ensino médio não foram divulgadas por município, mas, os dados gerais do estudo nos últimos dez anos mostram que 89% dos estudantes no segundo grau não conseguem aprender o mínimo esperado.
Caso políticas públicas não forem traçadas para transformar este panorama, a existência de alunos como Bruno Santiago Deusdará será cada vez mais rara.
Com apenas 10 anos, ele se diz fã de matemática e já sabe o que quer ser quando crescer: engenheiro mecatrônico. "Já participei de olimpíada de matemática e acho os números interessantes."
Futuro da tecnologia
O frágil aprendizado em matemática pode comprometer os planos do Brasil num momento em que o país pretende investir no desenvolvimento de novas tecnologias.
"A formação básica está fraca e este aluno segue com esta lacuna até o ensino médio e, depois, não consegue preenchê-la quando chega à universidade", diz o professor Luís Antonio da Silva Vasconcellos, do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp)