08 de julho de 2026
Cultura

"Guerra" e "Paz"

Maiara Camargo
| Tempo de leitura: 2 min

O pintor paulista Candido Portinari (1903-1962) já estava trabalhando havia dois anos nos estudos para a criação das obras "Guerra" e "Paz" quando, após uma hemorragia, foi proibido por médicos a voltar a pintar. As tintas estavam lhe causando intoxicação. Ainda assim, Portinari não recuou e encheu de cores as 28 telas (cada uma com 5 metros de largura por 2,20 metros de altura), que compõem os dois painéis. "Para ele, pintar e viver eram sinônimos. Ele tinha consciência do risco. De fato, foram seus últimos grandes trabalhos. Poucos anos depois, morreu", conta João Candido Portinari, filho do artista e diretor do Projeto Portinari.

Considerados as obras máximas de Portinari, os murais - feitos sob encomenda para ocuparem duas paredes na sede da ONU, em Nova York, e onde ficaram por 54 anos - chegaram a São Paulo, no Memorial da América Latina, após serem expostos e passarem por um processo de quatro meses de restauro no Rio. A abertura da exposição, somente para convidados, aconteceu na segunda-feira, no dia em que a morte de Portinari, um dos expoentes da pintura modernista brasileira, completou exatos 50 anos. O público já pode visitá-la até o dia 21 de abril.

"Guerra" faz referência aos conflitos entre homens e suas consequências. As repetidas imagens de mulheres que choram e rezam representam a dor da perda. Já "Paz", mais colorido, apresenta figuras numa atitude mais positiva, dançando, louvando e brincando.

Além dos gigantescos murais, a mostra reúne cerca de 90 estudos preparatórios originais para "Guerra" e "Paz". "Nunca houve oportunidade de se ver os estudos ao lado dos painéis. Nem meu pai viu tudo junto", diz João. Com cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara, conta com uma projeção de 9 minutos, que relaciona os esboços e os personagens dos painéis. Também estão sendo exibidos documentos históricos, cartas e fotos. São papéis que acompanham toda a negociação para a criação das obras, que foram encomendadas pelo governo brasileiro para presentear a ONU, que, na época, pedia que cada país doasse uma obra de arte representativa. Haverá ainda, em suporte digital, a obra completa de Portinari.

"Guerra" e "Paz" foram inaugurados nos EUA em 1957. Antes, fizeram rápida passagem pelo Theatro Municipal do Rio, local para onde voltaram no ano passado, provocando filas nos 12 dias de exposição. Mais de 40 mil pessoas visitaram os painéis no período. "Eu estava há dez anos lutando para trazê-los. Era um sonho que eu considerava impossível", conta João.

Para os paulistas, a vantagem é que as obras chegam por aqui com cores renovadas. "Por causa da exposição ao sol, havia áreas que estavam encobertas por uma névoa esbranquiçada. Com a restauração, as cores estão mais intensas", diz ele. Daqui, os murais seguem para o Japão e a Noruega, e voltam a Nova York em 2013.

? Serviço

"Guerra" e "Paz". Memorial da América Latina - Av. Auro Soares de Moura. Andrade, 664. Tel.: (11) 3823-4600. Até 21/4. De terça a domingo, das 9h às 18h. Grátis.