Há várias décadas, uma companhia de reflorestamento, subsidiária do governo estadual, investiu em imensas reservas florestais (eucaliptos e pinus), no interior paulista. Enviaram um engenheiro florestal para Lençóis Paulista incumbido de, ali morando, inspecionar diariamente os vários reflorestamentos que iam de Tapera Queimada (região dos rios Turvo e Claro) até Iaras. Deram-lhe, para isso, uma nova e possante caminhonete.
Tendo feito amizade com meu cunhado que lá residia, certo dia, quebrando o protocolo rígido da firma, convidou-o e ao seu filho (meu sobrinho), e eu, para uma pescaria de bagres numa dessas reservas. Teria que ser meio "na surdina", discretamente, pois as normas da firma eram severas. E partimos os quatro para lá.
Por cautela, adentramos a porteira ao escurecer. A reserva era imensa, mal conservada, e era cortada pelo rio Claro. A mata ciliar enorme e a parte que deveria servir de acero, estava tomada pelo mato e arranha-gatos. O lugar era bem feio mesmo. As placas de advertência na estrada, a cada trezentos metros, espantavam os invasores.
Não havia trilha de humanos beirando o rio, mas sim de bichos, que passavam sob as moitas de espinhos e arranha-gatos que ali era uma praga. Havia rastros de pacas e porcos-do-mato por todos os lados. Segundo o moço (omito nomes por precaução), ali tinha a fama de ter muitas onças pardas, e talvez até pintadas.
Chegamos ao rio um pouco tarde, às 21 horas. Árvores com seus galhos espinhosos debruçados sobre as barrancas atravancadas de paus podres apresentavam lances de água que pareciam negras, correndo a quatro metros abaixo. O lugar era de arrepiar. O rio, de bom volume de água e muito fundo, e os imensos arvoredos laterais juntavam-se formando um túnel de folhagens, muito escuro.
Nos "acomodamos", os quatro, num trecho de, no máximo, vinte metros. Nem pensar "sambar" pelas margens. Com o rio entulhado de tranqueiras, paus e árvores caídas, o anzol iscado em linha 50 com quase oito metros de extensão. Com custo, chegou ao fundo pela primeira vez. O bagre sequer beliscou: abocanhou a isca e "correu" pesado, zunindo a linha. Levei até um susto, mas segurei e fui puxando devagar por entre a paulera.
Saiu das funduras espadanando, amarelão, marrudo, dois palmos e dois dedos de peixe... lindão. E depois outro, no mesmo lugar... E outro... E outro. Chegava-me nos ouvidos as exclamações perplexas dos companheiros "êta, bitelo" "êêh, bigodudo", "caramba", "num acredito", etc. etc., e as rabanadas sempre a acompanhar.
Terminamos a pescaria cedo, para atravessarmos a porteira ainda no escuro. E sob a luz de lanternas (eram três horas) contabilizamos o total de 120 bagres enormes (só seis ou sete pequenos), média de 30 peixes fisgados por pescador. Não sabíamos o que nos agradava mais: se a quantidade ou o tamanho dos enormes bigodudos. Um detalhe chato é que 90% deles tinham parasitas nas guelras (chamamos de besourinho), mas isso não ofuscou nosso entusiasmo: era só removê-los. Pena que nunca mais tenha dado certo para retornarmos ao local daquela inesquecível pescaria.
Adolfo Dias Giafferi Prado é pescador e contador de histórias