08 de julho de 2026
Geral

Bancos podem retirar porta giratória

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 7 min

Pouco mais de uma semana após um churrasqueiro ter tirado a roupa depois de ser barrado na porta giratória de uma agência bancária em Bauru, noticiou-se que o equipamento de segurança começou a ser retirado em várias unidades do país. Na região central de Bauru, já há uma agência que não possui a porta com detector de metais. E, como a legislação não obriga, podem vir mais. O sindicato dos bancários repudia a retirada (leia mais abaixo).


A reportagem foi veiculada ontem pela imprensa paulistana. A desinstalação das portas giratórias foi constatada em dois dos principais bancos privados do Brasil: Itaú e Bradesco. Do primeiro, quatro das nove unidades da Capital não tinham mais o equipamento. Já no Bradesco, ele foi retirado de nove das 12 agências visitadas pela reportagem.


De acordo com o relatado, a desinstalação da porta com detector de metais foi motivada pelo grande número de processos movidos por clientes que se sentiram constrangidos ao serem barrados com o travamento.


Segundo o Sindicato dos Bancários de Bauru e da Região/Conlutas, aqui, já existe uma agência que não faz mais uso do equipamento de segurança. Na agência do Itaú, localizada na quadra 4 da rua Primeiro de Agosto, no Centro, o JC constatou que realmente não há a porta giratória.


O banco confirmou que o item de segurança está sendo retirado de algumas unidades, entretanto, por meio de sua assessoria de comunicação, alegou que a desinstalação não é de agora. Segundo o Itaú, o fato começou em 2008, quando houve a fusão entre com o Unibanco.


“Além da ausência da porta giratória, os clientes perceberam mudanças na distribuição de senhas, mobiliário e espaços de atendimento. Embora sem a porta giratória (substituída por outros mecanismos), as novas unidades mantiveram o mesmo nível de segurança oferecido anteriormente”, afirmou a assessoria do Itaú, em nota.


O banco, porém, não confirma que o motivo da retirada das portas com detectores de metal seja o número de processos por danos morais movidos por clientes. Assim, alega que tudo faria parte de um “novo modelo de atendimento”, que visa “dar proximidade e transparência aos clientes, usuários e colaboradores”, sem, contudo, comprometer a segurança.


Pelo Bradesco, de acordo com o Sindicato dos Bancários de Bauru, não existe qualquer agência na cidade que não tenha o equipamento na porta. Questionado sobre a retirada em outros localis, a assessoria de imprensa do banco negou o procedimento.


“O Bradesco não tem como política a retirada das portas giratórias de sua rede de agências. O Banco segue um plano de segurança próprio aprovado pela Polícia Federal”, emitiu, em nota enviada ao JC.



Mais retiradas?


As portas giratórias não são uma obrigatoriedade em agências bancárias. A Lei Federal que rege a segurança das instituições é a 7.102, de 1983. Segundo a legislação, é obrigatório que haja vigilantes, alarme com comunicação e mais um item. Este terceiro ponto da segurança pode ser a porta giratória com detector de metais, sistema de monitoramento com câmeras, cofre com retarde de abertura, entre outros.


Assim, o Itaú aponta que o único impedimento são leis municipais, uma vez que algumas cidades colocam em sua legislação o item como obrigatório aos bancos. Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, não é o caso de Bauru. Assim, é possível que, se a tendência continuar, mais agências adotem a medida por aqui.


Questionado sobre uma possível ampliação da retirada das portas giratórias, visto que, hoje, somente uma agência em Bauru do banco privado não possui tal sistema, o Itaú afirmou que não existe um cronograma para isso. Segundo a assessoria, a retirada é paulatina e não tem data para ocorrer. Porém, não descarta mais desinstalações.



Churrasqueiro ‘peladão’

Por todo o país, há relatos de problemas com portas giratórias. No último dia 30, foi a vez de Bauru ser cenário de um desses casos. Na ocasião, o churrasqueiro Alexandre Luís Beiesdorf Palacio, 49 anos, tirou a roupa ao ser barrado várias vezes em uma agência bancária.


A confusão foi tão grande que a Polícia Militar (PM) foi acionada e o homem registrou um Boletim de Ocorrência (BO) contra o banco, localizado no cruzamento entre a rua Xingu e a avenida Duque de Caxias. O mais curioso é que as embalagens metálicas dos preservativos que Alexandre carregava podem ter sido identificadas no detector.



Sindicatos já falam em ‘um grande retrocesso’

Tanto o Sindicato dos Vigilantes de Bauru e Região quanto o dos Bancários/Conlutas afirmaram que, caso a retirada das portas giratórias se concretize, será uma grande derrota aos profissionais e clientes. Segundo eles, seria um enorme retrocesso.


“A porta giratória possui defeitos, mas também muitas vantagens. É melhor existir o constrangimento do que o trauma do revólver na sua nuca. As argumentações são de que há câmeras e outros itens. Mas eles resolvem depois do roubo, não antes”, afirma José Antônio de Souza, diretor-presidente do Sindicato dos Vigilantes.


Já Carlos Alberto Castilho, diretor do Sindicato dos Bancários, vai além. Para ele, as agências irão se tornar “campos de batalha”. “Para nós, é uma imensa derrota. O bancário já vive uma realidade horrorosa e com medo; agora, ficará mais ainda. Sem a porta giratória, a agência fica escancarada. Iremos nos mobilizar e traçar estratégias para evitar isso”, promete.



Homem acusa banco pelo envio de carta racista

Uma correspondência bancária nem sempre traz uma boa notícia ao destinatário. Porém, um morador de Bauru alega que, quando abriu a carta, viu algo muito pior do que o esperado.  Logo no começo da correspondência supostamente enviada pelo Banco do Brasil, aparece a inscrição “Caro Negao” (sem acento).


O homem, que é negro, está entrando com ação na Justiça por danos morais, acusando a instituição de racismo.

A correspondência teria sido enviada ao chefe de segurança Celso Elias de Sousa, 34 anos, em outubro do ano passado, em sua residência, no bairro Bauru 16.


Ele conta ao JC que a carta era comunicado de encerramento de conta corrente, uma vez que ele não fazia movimentações bancárias na instituição há algum tempo.


“Eu parei de usar o Banco do Brasil porque tive um problema com eles. Tive um problema com meu carro e, como eu tenho um seguro, eles tinham que pagar. Como eles não pagaram, parei de ‘mexer’ com esse banco”, explica.

Ele afirma que entrou com um processo contra o banco. “Não sei se foi isso que motivou eles a mandarem esta carta dizendo isso. Até porque eu acho que eles não sabiam que eu estava entrando com o processo”.



Conflito


Apesar de a correspondência ter chegado há cerca de três meses, Celso alega ter tornado o caso público somente agora, pois, mais uma vez, não teve um bom tratamento no banco. “Na semana retrasada, fui maltratado.”

Ele garante:  “Não pode ser [brincadeira de mau gosto]. Não tinha como alguém saber que eu não movimentava minha conta e que ela seria encerrada. Foi do banco mesmo”, afirma.


Instituição responde

Por conta do adiantado da hora, a reportagem do JC não conseguiu contatar o Banco do Brasil. Porém, em nota emitida à produção da TV Record, que veiculou matéria, a assessoria de comunicação afirma que possui serviço para tratar o cliente com alcunhas personalizadas, porém, prometeu verificar o caso.  “É um absurdo. Até agora, o banco não me procurou para nada”, afirma Willian Roger Neme, advogado de Celso.


Com a ação, o chefe de segurança espera que a justiça seja feita. “Preciso de um pedido de desculpas”.


 

Fala-povo: ‘Você é contra ou a favor das portas giratórias?’

“Acho que deve ter em todo banco. Mesmo sabendo que constrange quem é barrado, vejo como um constrangimento necessário.”

Sofia Possenti, 41 anos,manicure

 

“Tem que ter porta giratória. Só o segurança não resolve. Até o vigia ver, o assalto já começou. É chato, mas é para nosso próprio bem.”


Adriano Colomera, 31 anos, técnico de enfermagem

 

“Eu prefiro que tenha. Acredito que, com a porta com detector de metais, nos sentimos mais seguros.” 

Fernanda Soares, 21 anos, auxiliar de administração

 

“Acho que é bom. É muito melhor o constrangimento do que ser assaltado. E a bandidagem está solta hoje em dia.”

Eduardo Padilha, 16 anos,estudante