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Nas mãos, os cortes que ficaram das tentativas de Evelyn Ribeiro em evitar as facadas |
Vaidade que permanece mesmo depois de um verdadeiro inferno. Em um leito do Pronto-Socorro Central (PSC), Evelyn aceitou falar com a reportagem do JC para contar o que viveu. Antes, porém, só fez uma exigência: “não quero que vocês fotografem meu rosto agora”. Havia um leve corte em sua face. Ela, que participou e ficou bem classificada no concurso de Rainha da Diversidade para o carnaval deste ano, conta alguns momentos do drama que viveu. Confira:
JC - Como este homem partiu para cima de você?
Evelyn - Nós estávamos indo para o motel e o carro atolou em uma rua cheia de terra e entulho. De repente, ele tirou uma faca e disse: “agora você vai morrer”. Depois, já começou a dar facadas em todo o meu corpo. Ele me jogava para todo lado. Acertou minhas costas, meu pescoço. Eu vivi o inferno.
JC - Fora as facadas, ele fez mais alguma coisa?
Evelyn - Ele me chutava e me batia. Pegou blocos de concreto e jogava contra minha cabeça. Foram três blocos e uma telha. Ele dizia a todo o momento que eu ia morrer.
JC - É verdade que ele voltou ao local onde você estava?
Evelyn - Sim. Duas vezes. Pouco depois de ter feito o que fez, o alarme do carro tocou. E ele voltou para desligar. Escutava o barulho dele andando no mato. Era um inferno aquele barulho. No outro dia, ele voltou com o guincho. Antes, ele me arrastou para o meio do mato. Me escondeu para o homem do guincho não me ver. Nessa hora, eu pedi para ele não me deixar morrer. E ele só dizia que, se eu não ficasse quieta, ele cortaria a minha língua.
JC - E como você fez para sobreviver?
Evelyn - Olha, eu fingi que estava morta. Tentei até prender a respiração, mas, não conseguia com as pancadas. Depois que ele me deixou, eu comecei a comer mato. Comia folha de mamona e melissa. Era muito amargo. Estava com muita sede. Cheguei até a ter miragens com um refrigerante. Eu não aguentava mais de dor e de picadas de formigas. Só queria me arrastar até a pista e pedir ajuda.
JC - Com o tempo passando, achou que fosse ser salva?
Evelyn - Eu só pedia a Deus e fazia promessas. Fiz muitas promessas. Além disso, pensava na minha irmãzinha, de 3 anos. Quando tomei a facada no pescoço, veio a imagem dela na hora. Só queria ver ela de novo. Mas, achava que ia morrer quando vi o sangue espirrando.
JC - Você falou que fez promessas. Pode dizer uma?
Evelyn - Prometi que nunca mais volto para esta vida. Prometi para Deus.
JC - Como foi quando te encontraram?
Evelyn - Eu tinha acabado de pensar em um hino para Deus. Estava pedindo com toda força do mundo. Foi quando ouvi a moto e comecei a pedir ajuda. O motoqueiro que me salvou não quis se identificar. Queria ver ele. Ele foi o anjo que me salvou.
JC - Para finalizar, acha que tudo foi motivado por homofobia?
Evelyn - Tenho certeza disso. Ele tentou pegar outra travesti antes de mim. Foi por preconceito sim. Apesar de ele não ter dito isso, ele tinha um ódio enorme por mim. Me batia e me esfaqueava com ódio.
Investigações e acusado
O delegado plantonista Roberto Cabral explica que o caso vai para o 4.º Distrito Policial e à Delegacia de Investigações Gerais (DIG), que continuará as apurações.
O ponto chave já parece existir: o tal guincho chamado pelo agressor. “Segundo a vítima, era um guincho branco e com letras em vermelho. Identificando quem fez o serviço, deve-se chegar ao suspeito”, completa o delegado.
No fim da noite, o suposto agressor foi ouvido pela Polícia Civil. As investigações prosseguem.
‘Não dava para negar. Sempre aceitamos’, diz mãe
“Eu não queria que meu filho fosse gay. Não por vergonha, mas, por medo”. É assim que a diarista Simone Ribeiro, mãe de Evelyn, descreve seu sentimento em relação à opção sexual da jovem. “É muito preconceito”.
Preconceito que começou na infância. Bem aceita pela família, Evelyn, na época Erik, já tinha traços femininos desde a infância. “Ela é muito boa. Sempre gostou de ajudar na casa. Não dava para negar que era gay. Mas sempre aceitamos. Não é isso que faz um ser humano”, diz.
Questionada se ela poderia ter algum envolvimento com drogas, tanto a mãe quanto amigos são categóricos em afirmar que a jovem “não fumava nem cigarro e não bebia nem cerveja”.
“Cuidava dos irmãos mais novos (de 9 e 3 anos). Quem fez isso com ela, é um monstro”, finaliza a mãe, indignada.