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Quioshi Goto |
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Carlos Pinto foi transferido para Duartina, ontem à noite |
Foram 30 horas de desespero e espera por socorro. Mas não demorou muito tempo para que o suposto agressor da tentativa de assassinato contra a travesti Evelyn, de 20 anos, fosse localizado. O comerciário Carlos Augusto Jeronymo Pinto, de 30 anos, foi detido por volta das 22h30 de anteontem após rápida ação policial. Ele é o principal suspeito de ter esfaqueado e espancado a jovem travesti, que foi jogada em um matagal na Vila Aviação, na madrugada da última quinta-feira, e só foi encontrada na sexta-feira de manhã.
Encaminhado para o Plantão Policial, Carlos foi reconhecido pela própria vítima, além de uma testemunha, como autor das agressões. Em seguida, o delegado plantonista Francisco Bromati Filho pediu a prisão temporária do investigado. A solicitação foi acatada pela Justiça na tarde de ontem, sendo o acusado preso sob acusação de tentativa de homicídio. Ainda na noite de ontem ele seria conduzido à Cadeia Pública de Duartina.
Após um intenso trabalho de investigação, Carlos foi encontrado na quadra 13 da avenida Maria Ranieri, no condomínio Andorinhas. Segundo a Polícia Civil, ele teria admitido ser o autor da tentativa de homicídio, mas teria alegado que atacou Evelyn para tentar defender-se de um suposto assalto praticado por ela. “Ele falou meio superficialmente que a travesti teria tentado roubá-lo, mas não deu mais detalhes”, informou o delegado plantonista Renzo Santi Barbin, que acompanhava o caso pela manhã de ontem no Plantão Policial, quando o acusado aguardava decisão judicial.
Segundo Renzo, Carlos Augusto já teria respondido a inquéritos de roubo tentado, furto e também tráfico. Surgiu ainda a informação de que o rapaz já teria agredido outros travestis, conforme apurou a Polícia Militar (PM) durante busca pelo paradeiro do rapaz.
Evelyn foi localizada após ser brutalmente espancada, esfaqueada e jogada em um matagal. Ela permaneceu internada até o início da madrugada de ontem no Pronto-Socorro Central (PSC) de Bauru, para se recuperar das agressões sofridas, mas já recebeu alta.
A investigação
A violenta tentativa de assassinato contra a travesti Evelyn não só ganhou repercussão na mídia e nas redes sociais, como impulsionou uma rápida resposta da polícia, que chegou até o acusado em pouco mais de 10 horas após a localização e socorro da jovem. Os PMs Sales e Gilberto, sob comando do tenente André Saito Arashiro, da Base Leste, assumiram um trabalho intenso de investigação. “Apesar da vítima não saber os dados da placa do carro, ela nos indicou as cores do guincho, que era branco e vermelho. O guincho foi chamado já que o suspeito teria atolado o carro no mesmo local onde ocorreram as agressões”, explicou o tenente. “Então começamos a fazer contato com vários guinchos da cidade para tentar levantar informações”, indicou Arashiro.
Logo, a PM descobriu o guincho acionado para levar o carro atolado que Carlos Augusto teria percorrido com Evelyn. Através de depoimentos obtidos durante a investigação, os policiais conseguiram identificar Carlos Augusto. Surgiram comentários, ainda, de que o acusado já teria passagens criminais, o que reforçou mais ainda as suspeitas contra ele.
As pistas levaram os PMs até uma chácara, primeiramente. Contudo, o investigado não foi encontrado por lá. “Dali tivemos a informação de que ele morava no condomínio Andorinhas, no Parque Sabiá. Fomos até lá e conversamos com a mãe dele. Em pouco tempo, ele chegou, bastante desconfiado e demonstrando estar surpreso com a nossa presença. Conversamos com ele e acabamos convencendo-o de ir até o Plantão”, relatou Arashiro.
O tenente não confirmou se o acusado já teria agredido outras travestis. “Soubemos que, em uma ocasião, ele teria tido problemas durante um roubo com uma moça que seria garota de programa, mas não sabemos se ela era travesti”, afirmou. “A mãe dele nos informou que ele havia saído da cadeia há pouco tempo e que vivia se ausentando de casa”, acrescentou.
ABD diz que agressor premeditou o ataque
Para o presidente da Associação Bauru pela Diversidade (ABD), Markinhos Souza, o “caso Evelyn” é uma típica ocorrência de homofobia, sem dúvida. “A bolsa dela, com todos os documentos, dinheiro, objetos pessoais, como perfumes importados e brincos, foi encontrada a dez metros de seu corpo, o que reforça a prática de da homofobia. Se ele quisesse roubá-la, teria levado ao menos o dinheiro”, disse.
Em sua avaliação, o rapaz já teria premeditado o crime. “Uma outra travesti já havia entrado no carro, tendo sido solicitada por ele para fazer programa. Ela chegou a dizer que só fazia programa em motel, mas o rapaz teria dito que queria levá-la para outro lugar, mais afastado. E nesse momento ela percebeu que ele estava com uma faca”, relatou Markinhos.
Diante deste comportamento suspeito, a garota teria conseguido se livrar do rapaz, que posteriormente vitimou Evelyn. “A garota que conseguiu escapar tentou avisar Evelyn, mas não deu tempo”, contou.
Para Markinhos, todos esses dados caracterizam um ato homofóbico. “Desde a hora que ele saiu de casa, ele já tinha intenção de fazer isso”. Mas qual seria o motivo de tanta violência contra travestis? Na visão de Markinhos, casos como este podem esconder uma sexualidade mal resolvida. “Vários estudos sobre homofobia mostram que os agressores têm um certo conflito com sua sexualidade, que pode se manifestar dessa forma bruta”, aponta. “Todo homofóbico, no fundo, tem problema com sua sexualidade e na maioria das vezes é homossexual enrustido. Inclusive há estudos sobre isso”, discorreu.
Markinhos diz não acreditar na versão do acusado de que Evelyn o agrediu para roubá-lo. “É importante ressaltar que em grande parte dos casos de homofobia o agressor acusa que a pessoa o agrediu, que a pessoa tentou violentá-lo”, argumentou.
Para Evelyn, a vida acabou
O presidente da Associação Bauru pela Diversidade (ABD), Markinhos Souza, acompanha a recuperação da travesti Evelyn. A jovem já teve alta e recebe os cuidados em casa, depois de ter sido brutalmente agredida com facadas e pancadas. Como se não bastasse, ela ainda ficou em meio a um matagal por mais de 24 horas até que alguém a avistasse e pudesse conceder ajuda. Em meio a picadas de formiga e ao calor recorde de Bauru, ela teve que comer mato para se hidratar.
No Pronto-Socorro, a jovem sentia muitas dores e relatou que não conseguia mover as pernas. Contudo, já em casa, ela começou a recuperar os movimentos. “Porém, ela ainda sente muitas dores”, revelou Markinhos.
Mas o sofrimento de Evelyn não vai somente deixar marcas físicas. “Ela está muito abalada. Não tem mais nem vontade de sair de casa, ela diz que para ela a ‘vida acabou’”, comentou Markinhos.
O presidente da ABD admite, ainda, a situação arriscada a que muitos travestis se submetem, mas aponta que a rua acaba virando alternativa diante o preconceito. “As pessoas podem querer enaltecer o fato da travesti estar na rua, fazendo programa e se arriscando por vontade própria. Realmente, algumas estão nesta situação porque querem, mas não podemos esquecer que vários fatores podem contribuir para que a rua se torne alternativa para esta travesti. Se a escola exclui, a família não aceita e a Igreja condena, o que acaba sobrando, muitas vezes, para estes travestis, é a rua”, finalizou.