As pesquisas para produzir carne em laboratório com culturas de células-tronco e musculares avançam, principalmente na Holanda com o pioneiro Mark Post da Universidade de Maastricht. Temos muitos alimentos feitos exclusivamente em laboratório com fanáticos admiradores como os refrigerantes. Toma-se todos os dias, elogiando o sabor!
As carnes nos animais são produzidas pelas células. Consumimos muitos produtos feitos por micro-organismos: com os fungos produzimos cerveja, queijo, pão e muitos outros. Em breve teremos o hambúrger de carne de laboratório ou a carne "inlab" um dos termos que poderia ser usado. Nas fábricas e laboratórios de carne a vigilância sanitária e ética será muito maior e a produção bem mais limpa e livre de impurezas do que em muitos frigoríficos, açougues e restaurantes.
Precisamos de muita proteína para nutrir os bilhões de humanos. Não teremos tantos rebanhos e não haverá espaço para humanos e animais. Não temos outra saída. Sem contar que os bovinos, caprinos e ovinos, além d?outros consomem muita pastagem, ruminam e produzem muitos gases, em arrotos e flatulência ou "puns", que representam um dos três maiores destruidores da camada de ozônio. O planeta tem que arrumar alternativas.
Nosso País ainda é uma maravilha, mas em países como o Haiti, pequenos e pobres, não se vê o verde, nem animais. Tudo come e se consome, numa devastação geral e já era assim antes do terremoto. Do avião, o Haiti contrasta com a Republica Dominicana: um só lado da ilha tem verde e animais. A fome faz desaparecer animais, vegetais e água saudável. In loco, é muito triste!
Uma saída muito mais natural que a carne de laboratório pode ser encontrada em uma fonte abundante de alimentos: os insetos! Cem gramas de grilos tem 121 calorias e os insetos são ricos em vitaminas, íons como o ferro, mais do que a carne moída magra e o bacalhau! Por que não comermos besouros, gafanhotos, borboletas, minhocas, baratas, grilos, moscas e formigas? Ou criá-los como galinhas, porcos, patos, marrecos e perus! Comer insetos recebe o nome de entomofagia e, cedo ou tarde, teremos que encarar. Seus netos e bisnetos terão que se acostumar!
Na frente do prato, pessoas escolhem: eu gosto de asinhas; prefiro as sobrecoxas das perninhas dos gafanhotos; quero o corpinho das baratas! As discussões serão iguais ao comer camarões: com patinha, cabeça ou casquinha? Feche seus olhos; imagine uma refeição com insetos. Será seu primeiro exercício para mudar hábitos! No ocidente come-se insetos apenas em desafios midiáticos, mas no oriente é popular, saboroso e nutritivo. O teor de gordura nos insetos é muito baixo. Você já come insetos, apenas não sabe!
Se usar lupa ou estereomicroscópico para analisar café, feijão e outros alimentos, veremos muitos fragmentos de insetos e isto é considerado normal. A FDA regula os alimentos no mercado estadunidense e tem documentos como "Os níveis de ação das deficiências em alimentos: deficiências naturais ou inevitáveis em alimentos que não apresentam riscos para a saúde dos humanos".
Na lata de suco de frutas são permitidos até cinco ovos e uma larva de mosca! No saquinho de pó de canela, até 800 fragmentos de insetos. No molho de espaguete considera-se normal trinta ovos ou duas larvas de mosca.
Os insetos podem ser comidos crus ou preparados e comprados pela Internet. As mariposas são cozidas, suas asas e pernas queimadas e depois passam por uma peneira para tirar as cabeças. Sobra apenas carne pura de mariposa com o sabor de amêndoas torradas. Torra amêndoas e coma como mariposas: é um bom começo.
Para viabilizar a entomofagia, o belga Van Huis propõe duas fases: no início os insetos serviria apenas para alimentar os animais e, gradualmente, faria parte do menu humano. Para o entomologista, uma das maneiras de ingerir insetos seria moer e acrescentar como farinhas em empadas e coxinhas. Os livros completos de receitas apresentam formas de preparação de insetos para se comer! Recentemente o empresário mineiro Luiz Otavio P. Gonçalves pediu ao Ministério da Agricultura que reconhecesse seu negócio como "estabelecimento produtor de insetos para consumo humano".
A espécie humana caminha para três opções de sobrevivência: mudar de planeta, comer carne de laboratório com culturas industriais de células ou comer os abundantes insetos!
Até hoje apenas a entomofagia se mostrou viável: nos preparemos!
Alberto Consolaro ? Professor Titular da USP e Colunista do Caderno Ciências do JC)