10 de julho de 2026
Política

Dois diretores caem e MP vai apurar ?lavagem? da arquibancada pelo DAE

Nélson Gonçalves e Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 7 min

Quioshi Goto

O promotor Fernando Masseli Helene deverá abrir inquérito civil para investigar o caso

A “lavagem” da arquibancada do Esporte Clube Noroeste com água de caminhão pipa pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) gerou a queda de Francisco Volpi e de Agenor de Souza, das diretorias de Divisão e de Serviços, respectivamente, ontem. Na última sexta-feira, o JC levantou o uso de água para empurrar sujeira da arquibancada do Norusca visando atender ao sorteio do programa Minha Casa Minha Vida, realizado anteontem.


Mas o próprio presidente do DAE, Fábio Lara, afirma que a queda dos diretores não resolve os problemas internos de gestão. “Pegar água de hidrante e reservatório para limpar a arquibancada com caminhão pipa é um absurdo. E isso acontecer nos dias em que houve pico de falta de água em razão do calor prejudicava a cidade foi inconcebível. A saída dos diretores tem relação direta com o problema, mas temos enormes problemas a resolver em diversos setores do DAE e vamos atacar”, diz Lara.


A sindicância administrativa ainda não foi aberta pelo DAE, justificativa dada pelo presidente para não fornecer relatório detalhando como o serviço de lavagem da arquibancada foi realizado Nos bastidores, a direção da autarquia indica ganhar tempo para lidar com a crise e os desencontros de informação. Francisco Volpi será substituído por Fabiano Gavaldão, ligado ao ex-presidente da Emdurb Rubito Ribeiro. Para a vaga do motorista Agenor de Souza, que exercia a função de diretor de serviços, ainda não há indicação.


O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) reforçou que o presidente “tem todo o apoio para fazer as modificações que precisa. Eu não teria autorizado retirar água para lavar arquibancada. Foi um absurdo. Dou razão para a oposição, eles estão certos em criticar. Pagamos o prejuízo político de mais um erro do DAE. Há muito o que mudar no DAE e vamos fazer as mudanças”.


O que mudou ontem no pós-lavagem da arquibancada do Norusca foram “detalhes” do episódio. A diretoria da autarquia argumentou na quinta-feira passada que a solicitação de limpeza da arquibancada do clube foi feita pela vice-prefeita Estela Almagro (PT). A informação foi confirmada durante a sessão da Câmara de ontem. Além disso, foi dito que Lara sabia da solicitação e a autorizou.


Mas o presidente do DAE alegou, ontem, que não sabia da solicitação e que desconhecia, inclusive, a existência de ofício da vice-prefeita relativa ao serviço. “O pedido foi direto para o Francisco (Volpi), não veio nada para mim. Mas o que eu soube hoje é que não teria pedido formal. Eu não vi documento nesse sentido, de formalização”, conta Lara.


Indagado que seria ainda pior se o DAE prestou serviço nas dependências de um clube privado sem solicitação formal, Fábio Lara posicionou que houve reunião do grupo multissetorial do programa Minha Casa Minha Vida a respeito do assunto. “Acho que o pedido pode estar em ata da reunião do grupo multissetorial que cuida do programa habitacional. Não tive tempo de verificar isso ainda”, acrescenta.




MP vai apurar


O promotor de Cidadania, Fernando Masseli Helene, disse ontem que está determinando a abertura de inquérito civil para apurar o episódio. A vereadora Chiara Ranieri (DEM) pediu o apoio de Masseli na investigação na tribuna da Câmara.


“Soubemos da preocupação dos vereadores e do pedido da vereadora Chiara em relação a esse assunto e já determinamos a abertura de inquérito civil para apurar, com pedido de informações completas ao DAE sobre o que aconteceu”, antecipou Masseli.


Para o promotor, por se tratar de serviço realizado em área particular, o estádio Alfredo de Castilho, o DAE terá de apresentar a solicitação formal, a ordem de execução do serviço e o histórico dos fatos pela diretoria. “A administração municipal tem de esclarecer como foi feito o pedido, por quem, quem recebeu, quem autorizou, quantos caminhões pipa foram utilizados no serviço e como foi realizado o serviço. Vamos analisar se há licitude, se o pedido obedeceu as regras formais e legais exigidas e se a execução do serviço também cumpriu o que determina a lei. Se foi serviço para particular o DAE também deve seguir a norma e cobrar pela execução do fornecimento de água”, diz.


 

Que ‘corruptos’?


O discurso mais contundente da sessão de ontem foi o do vereador Roque Ferreira (PT). Segundo os vereadores, foi do petista que saíram as críticas mais duras e mais delicadas contra a administração do DAE e o próprio governo municipal. O parlamentar afirmou que há ‘corruptos encrostados’ e ‘almofadinhas’ na autarquia.


Questionado sobre quem seriam esses corruptos, Roque disse serem todos aqueles que ocupam cargos de indicação política no poder público sem que tenham competência para desempenharem a função à qual foram designados.

 

Aparelhamento


O aparelhamento político no DAE também foi muito criticado pelos parlamentares. José Roberto Segalla foi o mais enfático ao dizer que quem autorizou a lavagem das arquibancadas tinha cargo por indicação de vereador.


“É aquela prática do prefeito que a gente finge que não vê. O funcionário que era motorista e agora ocupa cargo de direção”, pontuou, em referência indireta a Agenor de Souza, indicado do vereador Carlinhos do PS (PP). Segalla responsabilizou o prefeito.

 

Alguém tem que pagar


O vereador Carlão do Gás (PR), do partido que comanda o DAE no governo Agostinho, chamou de afronta à sociedade bauruense e mundial o desperdício de água potável na lavagem das arquibancadas do Noroeste. Segundo o parlamentar, o presidente Fábio Lara sabia do serviço que seria prestado pela autarquia, mas jamais pensou que seria utilizada água tratada para tal.

 

Vereadores questionam pedido de serviço por Estela e apontam padrinhos para cargos


A lavagem da arquibancada do Noroeste pelo DAE tomou conta da sessão de ontem da Câmara Municipal de Bauru. O fato, associado à crise no abastecimento de água, gerou críticas pesadas.


A vereadora Chiara Ranieri (DEM) cobrou punição aos responsáveis pelo pedido e pela liberação da lavagem da arquibancada e também a intervenção do promotor de Cidadania e Patrimônio Público, Fernando Masseli Helene. “Gostaria de chamar a atenção do promotor para que olhe essa situação e faça o que é de sua autoridade”, solicitou.


O fato culminou em ataques oposicionistas ao chamado ‘sucateamento’ do DAE. Chiara lembrou que a gestão na autarquia não era problema antes do governo Rodrigo Agostinho (PMDB).


Foi a vez então de os vereadores ligados ao Palácio das Cerejeiras tentarem acalmar os ânimos. Fazendo referência à sindicância no DAE, Fabiano Mariano (PDT) ponderou que a responsabilidade sobre a lavagem já estava sendo apurada.


O líder do governo, Renato Purini (PMDB), endossou o discurso do colega, alegando que tanto Rodrigo quanto o presidente do DAE, Fábio Lara, souberam pela imprensa sobre a utilização de água potável nas arquibancadas do Noroeste. O vereador, porém, pediu que fossem afastados, durante as investigações, os responsáveis pelo pedido e pela autorização da lavagem.




Foi a vice


Renato Purini (PMDB) amenizou o discurso, no entanto, quando surgiu o nome da vice-prefeita Estela Almagro (PT) nas discussões. O pedido de limpeza da arquibancada do Noroeste foi atribuído a ela, em razão do sorteio do Minha Casa Minha Vida, realizado domingo. “O afastamento tem que se restringir a dentro do DAE”, pontuou. Estela não retornou aos recados ontem, após a sessão.


A petista vinha sendo poupada nos discursos dos vereadores, até que, durante a fala de Carlão do Gás (PR), Marcelo Borges (PSDB) pediu a palavra para perguntar de onde havia surgido a solicitação para o serviço.


O vereador Roque Ferreira (PT) se encarregou de atribuir a iniciativa à vice-prefeita, de seu partido. No entanto, sugestionou que a oposição tentava dar tom eleitoral ao debate. “Eleição se ganha no voto. Não adianta tentar fazer armadilhas”, defendeu.


Outro questionamento que surgiu entre os vereadores na sessão de ontem foi o da legitimidade no pedido de lavagem das arquibancadas do Noroeste pela vice-prefeita Estela Almagro. Além do mérito, vereadores questionaram a regularidade jurídica de solicitação por uma vice. A questão foi levantada pelo vereador Marcelo Borges. “Para o vice atuar no governo ou tem de ter lei autorizativa regulando isso ou a Estela tem de ser nomeada para algum cargo, senão é ilegal”, lança.