Há muito tempo que se salienta a necessidade de investimentos em transportes coletivos e não motorizados como forma de melhorar a mobilidade urbana e caminhar em direção a uma cidade sustentável. Apesar dos acenos de diversos especialistas em transportes e sustentabilidade em direção a esta meta, as autoridades brasileiras não parecem se sensibilizar suficientemente, nem mesmo a sociedade, de maneira geral.
Henri Ford, em 1903, fundou a Ford Motor Company e tinha algumas ideias interessantes. Ele desenvolveu a produção em grande quantidade de automóveis com baixo custo através da criação da linha de montagem que permitia fabricar, na época, um automóvel a cada 98 minutos. Ford, embora tenha se tornado um dos homens mais ricos do mundo, chegou a afirmar que "o dinheiro é a coisa mais inútil do mundo; não estou interessado nele, mas sim no que posso fazer pelo mundo com ele". Ele não imaginava no que se tornaria, para o planeta, a indústria do automóvel.
Segundo a Anfavea- Associação do Fabricantes de Automóveis, a expectativa de crescimento econômico para o Brasil impulsiona os investimentos das montadoras, que devem atingir a US$ 22 bilhões, no país, nos próximos anos. O mercado automotivo nacional completou, em 2011, o oitavo ano consecutivo de crescimento, com uma alta acumulada no período de 160%.
As montadoras brasileiras, em 2011, produziram 3,7 milhões de veículos. A GM já chegou a produzir 60 veículos por hora. O Governo Federal, de olho nos impostos arrecadados, promove incentivos à aquisição de veículos, através de renúncia fiscal e o estabelecimento de prazos de financiamento a perder de vista. O panorama é o de ruas apinhadas de automóveis. Só em Bauru são mil novos veículos por mês. Convive-se diariamente com vias com extrema lentidão do tráfego, em vários horários. Para um quadro como este não basta implantar semáforos aqui e acolá. Não há equipamentos de controle de trânsito que consiga resolver um problema desta magnitude.
Mantendo-se este cenário, serão necessárias medidas coercitivas, restritivas em relação ao automóvel. Afinal, é uma questão de física, pois segundo Isaac Newton, dois corpos não ocupam um mesmo lugar ao mesmo tempo. Simplesmente não cabe toda a frota bauruense de veículos no sistema viário local.
Queiramos ou não, em um futuro não tão distante, Bauru terá de conviver com uma ou mais dessas situações: pedágio urbano (tal como em Singapura, Londres), restrição de estacionamento na via pública para se ganhar mais capacidade das vias (várias cidades, inclusive São Paulo), rodízio de veículos (São Paulo), restrição de acesso de veículos particulares em determinadas áreas, etc. Neste sentido, São Paulo já proíbe caminhões e ônibus fretados em algumas regiões. Buenos Aires implantou o seu Plano de Mobilidade Sustentável, que integra programas articulados, desenvolvidos considerando-se prioridade ao transporte público, mobilidade saudável, ordenamento de trânsito e segurança viária. No Subprograma de Ordenamento do Trânsito no Microcentro de Buenos Aires, há restrição de acesso de automóvel. Estas mesmas ações pude verificar in loco em várias cidades, como Cartagena de índias (Colômbia), Colônia e Munique (Alemanha), Lisboa, Milão, dentre outras.
Portanto, estejamos preparados, pois se a atual e as novas administrações municipais nada fizerem para alterar a estrutura da mobilidade urbana em Bauru, conviveremos com restrições ao uso do amado e idolatrado automóvel, queiramos ou não. Ou a cidade literalmente parará. Bauru não pode parar!
O autor, Archimedes Azevedo Raia Jr., é engenheiro, mestre e doutor em Engenharia de Transportes pela USP, professor, pesquisador, coordenador do Núcleo de Estudos em Trânsito, Transportes e Logística da UFSCar. E-mail: raiajr@ufscar.br