09 de julho de 2026
Articulistas

Quando o Momo chegar, eu vou

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

O desfile das escolas de samba em Bauru deste ano no sambódromo fornecerá elementos de gestão, de política e de manifestação cultural que transcendem os enredos, que vão revelar se a festa do Momo e de todos os atores envolvidos terá capacidade de ecoar além dos sons dos tamborins. O retorno, em definitivo, das escolas ao palco que já foi a principal passarela do samba do Interior do País vai provocar e alimentar respostas, indagações, e reforçar, ou não, a avaliação sobre nossas virtudes e defeitos. É preciso sair do marasmo.

A participação nos eventos em 2010 e 2011 ratifica a importância dos desfiles como manifestação de massa capaz de reaglutinar comunidades, promover alguma fatia de lazer, realimentar o elo positivo do envolvimento de famílias nos barracões, das costureiras aos batuqueiros que se reúnem todos os dias para os bordados e ensaios, e, enfim, o de demonstrar, mais uma vez, que o público que lotou a arquibancada do sambódromo não é apenas um chamariz para a necessária transformação do Carnaval em um evento de fato, mas a concretização de que este calendário é capaz, sim, de atrair receita, patrocínio, investimento privado, marketing.

Neste enredo, não estamos reinventando a roda, mas advertindo para a necessária obviedade até como contraponto ao uso maniqueísta que alguns fizeram do Carnaval culminando, a partir do ano 2000, com a interrupção dos desfiles ancorada em argumentos pobres, que incluíram a ignorância das manifestações políticas mais conservadoras e tacanhas e o vale tudo perigoso do pseudo discurso da fé contra o profano, inclusive.

Refeito o estrago, onde gerações deixaram as baquetas para sobreviver do silêncio da cultura ausente, a festa do Momo de 2012 deve ir além se quiser, de fato, se transformar em apoteose.

Cartolense de coração, estarei lá no Sambódromo torcendo para que as agremiações não nivelem por baixo em razão apenas do cumprimento dos parâmetros mínimos do edital público.

É preciso mais que isso, a começar pelos dirigentes. A Coroa não é Avelino, a Azulão deve estar acima de Cidinha, a Águia é a estrela de Pasqual, não o inverso, e a Tradição não pode ser só a fantasia de Saes.

Enquanto se reaprende a organizar a festa, meu enredo sonha com a prefeitura ditando o ritmo da estrutura com iluminação nas áreas de concentração e dispersão, com credenciamento eficiente e monitorado dos foliões, com área de recuo para a bateria, com três jurados por quesito, com a menor nota sendo de corte, e tantos outros itens.

Mas o enredo também há de apontar que não há como contar uma história de signos culturais tão fortes com apenas um carro alegórico, oito baianas e um papelão sustentado por um mastro.

Meu enredo sonha com marcas associadas a agremiações, produção refletida na qualidade das fantasias e destaque na pista, camarotes e espaços publicitários comercializados, convênio público que garanta contrapartidas além da cota simbólica de repasse (com a exigência de oficinas de bordado, costura e de percussão das agremiações)... Afinal, "sonhar não custa nada e o meu sonho é tão real"!


O autor, Nélson Gonçalves, é jornalista