08 de julho de 2026
Nacional

Lindemberg confessa ter matado Eloá

Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Santo André - “Eu atirei. Depois da explosão da porta, Eloá fez um movimento de se levantar e, sem pensar, eu atirei”. Foi assim que Lindemberg Alves Fernandes, 25 anos, confessou ontem que matou a ex-namorada Eloá Pimentel, 15 anos, em outubro de 2

8 (veja quadro abaixo).

 

Foi a primeira vez que o rapaz falou sobre as cerca de 1

horas em que manteve a garota em cárcere privado dentro do apartamento onde ela morava, em Santo André, cidade da Grande São Paulo. O episódio acabou com a morte de Eloá e com ferimento da amiga dela, Nayara Rodrigues da Silva.

 

O depoimento de Lindemberg durou cinco horas e vinte minutos e ocorreu no terceiro dia de seu julgamento. 

 

Ele se recusou a responder a apenas uma única pergunta da acusação: sobre qual era o relacionamento dele com o pai de Eloá.

 

De resto, respondeu a todas as questões feitas pela juíza Milena Dias, pela promotora Daniela Hashimoto e os dois advogados assistentes da acusação. Seu depoimento foi classificado pela promotora como “claro, constante e calmo”.

 

Havia uma expectativa quanto ao seu depoimento porque ele tinha o direito constitucional de permanecer em silêncio, como já havia feito na polícia e na própria Justiça.

 

 

 

“Perdão”

 

Lindemberg disse que decidiu falar até em respeito à família, a quem fez questão de pedir perdão por duas vezes. “Não sei se eles estão aqui, mas peço perdão.”

 

O agora réu confesso é acusado de 12 crimes e pode pegar até 1

anos de prisão. Pela versão apresentada ontem por Lindemberg, ele assume dois deles: homicídio de Eloá e o cárcere privado da ex-namorada.

 

Pelo depoimento de Lindemberg, o crime não foi premeditado. A arma ele comprou de um conhecido para se defender de ameaças que vinha sofrendo.

 

Disse que havia reatado o namoro de dois anos de três meses com Eloá, mas foi visitá-la no apartamento e se surpreendeu quando viu Nayara, Iago, namorado dela, e especialmente, Victor.

 

Questionou a menina de quem ela era e perguntou ao menino se eles tinham algo e ele afirmou que haviam se beijado. Isso fez com que ele ficasse irritado e, ao ouvir gritos de Eloá, mostrou a arma que trazia com ele.

 

Depois, a situação se agravou com a chegada da polícia. Ele disse que ficou com medo de ser morto, pois não confiava na PM. Eloá, segundo ele, também teria ficado preocupada com a chegada da polícia e temeu ser morta pelos policiais. Ela teria lembrado do caso do ônibus 174, no Rio de Janeiro, onde uma refém foi morta após ser alvejada pela polícia.

 

Ele afirmou que nenhuma das outras vítimas foi mantida em cárcere privado e que poderiam sair quando quisessem, mas se recusaram porque não queriam deixar a menina para trás. 

 

Ele afirmou que queria se entregar e estava esperando o melhor momento para isso. Pouco antes da invasão da polícia todos iriam sair.

 

 

Mãe sem reação

 

São Paulo - A mãe de Eloá, Ana Cristina Pimentel, se emocionou durante o depoimento de Lindemberg Alves, ontem. Usando um vestido preto, como no segundo dia do júri, ela agarrou-se a um pedaço de lenço de papel e chorou forte quando ouviu o rapaz confessar que atirou na filha.

 

Ao escutar o pedido de perdão de Lindemberg, não esboçou qualquer reação.

 

Em dois momentos, ela chegou a deixar a sala escoltada por policiais, se dirigindo ao banheiro.

 

Ao ouvir a versão do réu de que Eloá e ele haviam reatado, franziu as sobrancelhas em sinal de espanto.

 

Também balançou a cabeça mostrando indignação ao ouvir o relato do crime.

 

 

 

Réu confesso tenta reduzir pena com depoimento para o júri

 

São Paulo - Os crimes pelos quais Lindemberg Alves está sendo acusado podem levá-lo a ser condenado de 34 a até 11

anos de prisão. Ao dar sua versão dos fatos ontem, pela primeira vez, em depoimento no tribunal do júri, ele tentou desqualificar a maior parte dos crimes e reduzir a pena. Se a estratégia funcionar, ele será condenado por dois crimes, com penas totais de oito a 28 anos.

 

Lindemberg é acusado de homicídio qualificado da estudante Eloá Pimentel, duas tentativas de homicídio e cinco cárceres privados.

 

O rapaz assumiu ter matado Eloá, mas disse que atirou sem pensar quando a polícia invadiu o apartamento. Ele afirmou não se recordar de ter atirado em Nayara Rodrigues, o que desqualificaria a tentativa de homicídio contra ela. Havia a suspeita de que ela pudesse ter sido atingida por tiros disparados pelos próprios policiais.

 

Lindemberg também afirmou que não atirou em policiais. Os tiros que disparou, segundo ele, foram ao pátio do condomínio. Disse ainda que nem tinha visão da localização dos policiais. 

 

Ele admitiu que manteve Eloá sob cárcere privado, mas que os outros - Nayara e dois amigos - podiam entrar e sair quando quisessem. No total, são cinco acusações de cárcere privado porque Nayara é contada duas vezes: chegou a sair do apartamento, mas foi levada de volta pela polícia para ajudar nas negociações.

 

Também houve tentativa de desqualificar o homicídio. Ele é acusado de homicídio duplamente qualificado: matar por motivo torpe e sem chance de defesa à vítima. A pena para esse crime é de 12 a 3

anos de reclusão.

 

Para provar que nunca quis matar Eloá, ele disse que o tempo todo pretendia se entregar. Afirmou, inclusive, que em algum momento mandou que Eloá vestisse um tênis e um agasalho para que eles saíssem do apartamento.

 

Com isso, ele tenta a condenação por homicídio simples (pena de seis a 2

anos), que se somaria a um único cárcere privado (dois a oito anos).